26/02/10

Irremediavelmente

Surgem como cogumelos em dias de chuva, como flores ao raiar do sol. E depois vão-se, porque o contrato com os distribuidores é assim e porque abrem vaga para novos corpos nos escaparates, como nos cemitérios as vagas sucessivas de cadáveres, a sucederem-se, exceptuados os dos jazigos, que na Literatura se chama «os clássicos».
São os livros que já não se encontram porque foram devolvidos e são guilhotinados depois de uns anos sem esperança de venda. Livros que alguma biblioteca particular retenha, ou salvos do esquecimento pelo depósito legal que lhes dá coval garantido na Biblioteca Nacional e outras tantas que são armazéns em nome da Lei.
Livros como o Largo da Memória de Homero Serpa. Onde encontrei esta noite esta linha sublinhada a propósito dos pretendentes da Susana e do sentimento que isso provocava em Domingos, «deixando-o escorregar pelo clivo da ingenuidade até se estatelar no irremediável».

22/02/10

Uma língua de rosas

Haverá uma gramática da fome e da opulência, uma morfologia da necessidade e do arroto? Haverá uma pobreza vocabular que mostra o mendigo por pão verbal, raivoso ante a ostensividade glutona do delambido em doçarias de conjugação?
Haverá, em suma, prontuários como palmatórias para os incorrígíveis da improvisão, formas únicas compendiais que só com mnemómicas se interiorizam, lêem e vêem com dois ee, como dois olhos, peru sem acento no ú?
Haverá forma de consensualizar a forma de virgular, um tratado de paz quanto ao ponto final sem ser parágrafo?
Haverá uma luta surda, forjada com bombas de gralhas e petardos de erros contra os pretéritos mais que perfeitos, um atentado revolucionário contra a voz passiva?
Talvez não haja, como não há beleza máxima que não seja assimétrica, amor fantástico que não seja um só.
Nisso da língua, a regra é não haver.
«Se leu o Apocalipse sabe que até Deus vomita os mornos». Escreveu-o Miguel Torga, escrevendo à podoa, com ela talhando rosinhas miúdas de uma língua eriçada de espinhos.

21/02/10

Mundo intransitivo

Lembrei-me dela porque mão amiga me fez chegar este link sobre um portal da língua portuguesa, agora que com o chamado Acordo Ortográfico começo a ter fundadas dúvidas sobre o que seja a língua portuguesa. Ensinava a língua de Portugal a meninos de Macau. Tentava entender-se com o que seriam erros europeísticamente falando. Às tantas já nem sabia se seria capaz de falar a sua língua.
Escreveu um livro de pequenas histórias. Numa delas a professora recebe uma redacção que dizia achinesadamente «amanhã vou passear, vou brincar, vou jogar, vou comprar». Assim mesmo com o verbo comprar conjugado intransitivamente, para além de qualquer ditame da gramática.
Está certo. Nós quando vamos às compras compramos ou não compramos, o ir às compras é por vezes a oportunidade, comprar um pretexto. Eles quando vão comprar é mesmo para comprar, tal como quando se joga joga-se, quando se brinca brinca-se.
A minha Pátria é, de facto, a Língua Portuguesa, mesmo na longínqua China que nos redescobre.
Chama-se Natividade Ribeiro, o livro tem por título Nada, nada professora.

A sombra

«Um romance é como um biombo, a gente despe-se por detrás». A frase foi escrita pelo Vergílio Ferreira. Escrevi isto depois de emendar, pois ia a escrever «a frase pertence ao Vergílio Ferreira». É assim, ficamos com a ideia de que uma vez lançada uma frase ela fica a pertencer a quem a delineou, como uma sombra que lhe seguisse o vulto.

20/02/10

Belle du Jour


Em Belle du Jour todos os homens são nojentos, todas as mulheres putas. Passados estes anos o filme surge inevitavelmente datado. Une femme de societé que se prostitui sem razão, uma frígida que a violência erotiza, um marido cuja complacência faz de amor e no final ressuscita parece que oniricamente. Ah! E o aflorar de um beijo entre ela e a «patronne». Freud e Sade em versão bistrot.
O cinema francês torna-se irritante quando é petulante. Nele, por vezes, as pretensões intelectuais são uma forma de ser afectada e maneirista, tal como a sua fonética feita de ditongos labiais. É preciso pachorra. Houve um tempo em que o ridículo tinha iluminação feérica, como a Place Pigalle.

19/02/10

A Revolta das Palavras

 
Um país governado por um homem de quem se pode dizer que é um mentiroso é um país ignominioso, tanto por ser dirigido pelo que mente, como por aqueles que o deixam continuar a mentir. Ressuscitei o blog A Revolta das Palavras. Não era possível continuar calado.

O herói absurdo


Uma coisa boa é não saberem em que dias e a que horas escrevemos, para não devassarem as nossas horas de sono, os tempos de trabalho, os instantes de coisa nenhuma.
Uma coisa excelente é não ter obrigação de escrever nem dever de ler, estar-se livre da sujeição de se escrever sobre o que se leu.
Aconteceu assim aqui, uns dias sem justificação para não ter escrito. Se fossem férias seriam umas magníficas férias, se fosse uma gripe uma gripe e peras [pergunto-me porque se diz qualquer coisa «e peras»], se não fosse nada era coisíssima nenhuma.
O resultado está à vista. Os que não são leitores assíduos nem dão conta, os outros voltarão quando puderem.
Finalmente uma coisa extraordinária é não ligar ao sitemeter, não ser importante quanto leitores há.
Quando se está uns tempos inactivo o número de visitas desce. Haverá de subir. É e lei do eterno retorno, o fundamento da tragédia de Sísifo, o último herói absurdo.
É preciso imainar Sísifo feliz!

14/02/10

O silêncio

Médica, irmã creio de Maria Gabriela, Maria Isabel LLansol Barata escreveu Vida em Letra Grande. Foi editado em 1995 pela própria.
Não são grandes sentimentos pela sua extensão declamativa, grandes sim pela sua discreta interiorização. A vida não é feita só de proclamações sentimentais.
Li-o esta manhã, recolhido, o dia gélido. É um livro meigo, diário de momentos ternos, de uma mãe internada num lar, doentes que se apegam ao seu médico, o apartamento no Monte Estoril cada vez mais vazio, «a companhia, por motivos város, até estranhos à vontade, a tornar-se menos disponíveis», uma anónima Paula que, entre riscos e palavrões, escreveu no pára-vento da paragem do autocarro «Falar é fácil, difícil é compreender o silêncio». Foi no dia 2 de Fevereiro de 1989.

Poeticamente exausto, verticalmente só

Tive-o, perdi-o, ficou numa qualquer casa, daquelas em que coabitamos e por vezes só não ficamos nós quando cessa a coabitação. Rasgou-me o peito lê-lo então porque morreu aos vinte e três anos numa guerra que eu não quereria fazer, porque tudo nele prenunciava esse saber dorido de que a vida o iria matar. Esta noite encontrei a frase e soube que há um filme que eu perdi como se perdeu o livro e não fosse este milagre se perderia a lembrança:

«...poeticamente exausto, verticalmente só... lembro memória dum qualquer verão em nenhuma parte. Percorro o suor dos mortos. Acabo em cada boca que começa. E como os mortos suaram antes da guitarra de barro! Kid, companheiro antiquíssimo: pergunto: o desespero já foi jovem? Quem doará seu rosto ao trigo da aurora? Quem, quando a areia crescer nos olhos, resolverá a rosa marítima? ESCREVE! Nada sei da mulher que possuiste em casa da Lena. Sei somente das jovens que a cidade digeriu... Sei todas as cidades do nocturno mapa do esquecimento...


P.S.: Sou aspirante. Não me chames alferes. Sim, não me promovas»


ao Francisco

Agosto de 1963

Mafra

Farewell



Era em vinil, com uma capa em tons de camurça. Ouvi-o vezes tantas que quase sabia de cor cada um das notas de todos os temas. Tudo isso desapareceu. Pouquíssimos se lembram. Encontrei-o aqui. São os Fairport Convention. A voz é a de Sandy Denny. Eu já tive vinte anos. Foi em 1969.

Farewell, farewell to you who would hear
You lonely travellers all
The cold north winds will blow again
The winding road does call.

And will you never return to see
Your bruised and beaten sons
O I would,I would if welcome I were
For they loathe me every one.

And will you never cut the cloth
Or drink the light to be
And can you never swear a year
To anyone but we.

No I will never cut the cloth
Or drink the light to be
But I'll swear a year to one who lies
Asleep alongside of me.

13/02/10

O Império Contra-Ataca



Tinha-me esquecido do sobretudo. Estavam quarenta graus abaixo de zero. A URRS já não era. Na Lubyanka já tinham apeado o Derzhinsky, da Cheka, a antecessora do KGB. A Casa Branca russa ainda não tinha sido bombardeada. Só mais tarde fui ver o Ermitage a casa do Gorki que estava fechada. Com Lénine a questão fora o Estado e a Revolução, agora era só o Estado, em degradação. Há sempre um tempo para cada lugar. Atenção por isso, que há surpresas para um leitor: há uma Moscow no Idaho, USA. O Império contra-ataca.

Terra: por mais distante o errante navegante



Foi há tantas anos, em Itália, não sei onde na Itália creio que numa das ilhas que são Itália. Foi num hotel. Havia um grupo musical que animava os hóspedes. Um grupo de italianos. Souberam, não sei como, que eu era português. Pediram-me então: que eu tentasse com base no que eles cantavam de ouvido, que lhes escrevesse a letra desta canção e lha traduzisse, para que entendessem enfim a beleza do que cantavam, extasiados, sem entenderem uma só palavra. Escrevi, lado a lado com eles, eles soletrando musicalmente eu esgravatando, prosaico. Não mais me esqueci dessa noite. Quando subiram ao palco um sopro de alma elevou-lhes a voz. Vogando no planeta Terra, anichados em torno de um sentimento, vogámos no espaço sideral, irmãos.


Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez as tais fotografias
Em que apareces inteira, porém lá não estava nua
E sim coberta de nuvens

Terra, Terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Ninguém supõe a morena dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema mando um abraço pra ti
Pequenina como se eu fosse o saudoso poeta
E fosses a Paraíba

Terra, Terra,

Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Eu estou apaixonado por uma menina terra
Signo de elemneto terra do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia

Terra, Terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Eu sou um leão de fogo, sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente, e de nada valeria
Acontecer de eu ser gente, e gente é outra alegria
Diferente das estrelas

Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

De onde nem tempo e nem espaço, que a força mãe dê coragem
Pra gente te dar carinho, durante toda a viagem
Que realizas do nada, através do qual carregas
O nome da tua carne

Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Na sacadas dos sobrados, das cenas do salvador
Há lembranças de donzelas do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito

Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

11/02/10

Rebel, Rebel


Esta noite ensinaram-me a meter youtubes aqui. E eu, que julgava saber tanto, não sabia isso. Aproveito para deixar por aqui artes e letras, humanidades e até alarvidades, numa explosão panteísta de alegria, entusiasmo e força de viver. É o país das maravilhas...

10/02/10

Em forma de assim...

Quem é que se lembra disto? Quem se recorda do efeito de relevo que impressionava a vista? Quem rememora o passa-passa, imagem a imagem? Quem diz como se chamava? Quem ainda tem disto num qualquer sótão, num canto do guarda-fatos? Quem sabe que a maquineta por cujos dois óculos se espreitava era em baquelite? Quem sabe o que é baquelite, aquela resina química resistente ao calor?
Quem me ajuda porque há um mundo ido de singelezas ópticas que nos davam a ilusão de termos sido felizes vendo paisagens em forma de assim?

09/02/10

O tempo das cerejas

É uma obra de militância, não só política sendo o autor quem é, mas sobretudo cultural. Em cada esquina um amigo, em cada recanto uma surpresa. O blog chama-se O Tempo das Cerejas. O seu autor Vítor Dias. Está aqui. Fomos contemporâneos na Faculdade. A vida separou-nos. Encontrei-o este começo de manhã, lendo-o.

07/02/10

Gymnopédie

Foi este domingo no hall junto à Biblioteca do Museu da Fundação Calouste Gulbenkian, que nem todos conhecem nem sabem que tem o espólio de Alfredo Pimenta. Joana Gama tocou Eric Satie. Um maravilhoso silêncio inundou o espaço, contraiu as almas. Sincopada, minimal, magnífica, a música encheu os corações. A Gymnopédie, n.º 1. Eric Satie nasceu em 1866. Ouvindo a sua obra parece que a eternidade foi hoje.

O autor e a sua cria

É seguramente um labirinto de sentimentos e de vivências; é essa complexidade que talvez permita chamar-lhe um romance. Mereceu ontem uma menção crítica no jornal Expresso. Citei-a, aqui. A autora da recensão é a Professora Helena Barbas. No mesmo dia o poeta Nuno Júdice apresentou-o livro em Faro.
Mentia se não dissesse que isso traz alegria. Um autor gosta da sua obra e por isso consente na sua edição.
Eu sei que no mundo dos escritores ninguém pensa assim. Deveria fazer de conta que não li a crítica e que não fiquei feliz por ser muito amável, para poder fingir ignorar quando vier bordoada de meia-noite ou aqueles silêncios que desanimam. Mas sou este e não aquilo.
Ontem descobri-lhe uma gralha, ao livro tantas vezes revisto: um «fui» em vez de foi. Um pequeno sinal de imperfeição mostra a fragilidade no escrito. Oxalá ninguém dê conta.

05/02/10

No tempo da outra Senhora...

Só não tem o Anuário da RTP de 1964 quem não quer. Por seis euros trouxe eu um para casa, sacado de uma livralhada de adelo. O curioso foi lê-lo num bocado de noite e verificar que no tempo do outro senhor a RTP emitia em média 6 horas e meia por dia, fechava à meia-noite e que, no cômputo geral desse tempo foram 73 horas de teatro, 119 horas de filmes de grande metragem, 38 horas de programas musicais eruditos e 212 horas de programas culturais. As receitas da casa eram 86 380 contos, a despesa 78 129. A televisão do Estado dava lucro. O número de empregados, 794. O Presidente do Conselho de Administração era o Dr. Luiz de Athayde de Almeida Vasconcelos Pinto de Mascarenhas. Quem se lembra hoje dele e daqueles números? Só mesmo quem arriscar seis euros num alfarrabista!

03/02/10

Alma ressuscitada

Um pouco mais contido na adjectivação, é o mesmo Luiz Pacheco, o de sempre, a lembrar-nos os seus Textos de Guerrilha, editados em 1979, livro onde conta a lista dos ilustres artistas convidados pelo então Presidente da República para um jantar no Palácio de Belém. Só que com um pormenor provocatório: o Venerando anfitrião era o almirante Américo Tomás, que o 25 de Abril apeou de Presidente; o convidado o cineasta Manuel de Oliveira [mais tarde crismado como Manoel de Oliveira] o mesmo que, provocatoriamente também, em Non ou a vã glória de mandar, ligaria o 25 de Abril a Alcácer Quibir. Aparte fantástico: no filme Conversa Acabada o realizador João Botelho mascara o Pacheco como Fernando Pessoa «moribundo e logo esticado, com o Manoel de Oliveira, padreca, a rezar-me o responso, num latim esgosmado». É caso para dizer, «alma encomendada, alma ressuscitada».

O Piruteante Anefim

Durante uns meses mantive no Jornal de Negócios uma crónica. Atenção: o Luiz Pacheco também! Esta noite encontrei uma delas em que «ainda a propósito de Afonso Lopes Vieira escrevi: «lembro-me de um episódio contado por João Gaspar Simões no seu livro “Retratos de poetas que conheci”, saído com dedicatória a Manuel Poppe, em 1974. O monárquico Paiva Couceiro havia sido preso pelo regime político que o autor de “Onde a terra se acaba e o mar começa” mais desprezava. Surpreendendo apenas quem o não conhecia, aquele cuja aparência de “piruteante anefim” – as palavras são de Gaspar Simões – iludia quanto à sua viril coragem cívica, não hesitou. Afonso Lopes Vieira “de malinha aviada se apresentava na esquadra de polícia onde Couceiro fora arrecadado, e atrevido perguntava à sentinela: - É aqui que se prendem pessoas de bem?”.  Por um triz tornaria dessa feita verdadeiro um verso seu cáustico e premonitório e de que fez orgulhosa bandeira: “o poeta português que não passar ao menos uma vez pelas prisões, não será digno aluno de Camões”». Foi em Setembro de 2003 aquele meu escrito. Como o tempo voa!

02/02/10

A excepção e a regra

Hesito sempre em usar os meus espaços para falar das minhas coisas. E haja quem explique este atavismo. Talvez não pareça que isso é assim, porque escrevi um romance e dei aqui notícia dele; apresentei-o ao público e ficou aqui notícia do facto. Além disso na lateral deste blog está menção aos livros que escrevi e a uma editora que decidi criar.
Há, porém, algo que estas referências omitem: a dúvida com que tudo isso acontece, talvez um pouco menos do que um sentimento de pudor.
Desta vez a mesma sensação ao anunciar que vou a Faro porque o Nuno Júdice apresenta aquele romance que é a minha estreia no género.
Haveria razão para que eu não o dissesse? Talvez não haja. Tenho vergonha? Não, tenho orgulho. Devo alguma coisa a alguém? Só aos meus credores. Porque vim aqui escrever isto? Porque cada vez que falo de mim penso sempre que há o risco de quem lê pensar em outra coisa.
Blog de leitores, este, acho, enfim, que ele pode ser também das coisas que leio por tê-las escrito. Não como excepção, mas por haver uma regra geral.

01/02/10

A transmutação

As palavras rituais do catecismo alquímico de Paracelso são semelhantes às da sessão de abertura em loja maçónica, pelo menos no Rito Escocês Antigo e Aceito. Com uma diferença notável. À perguntal «que idade tendes irmão primeiro vigilante?», feita pelo Venerável Mestre, que como resposta obtém «três anos, Venerável Mestre», sucede aqui, no fecho da obra, o diálogo: «qual é a idade do Filósofo?», «desde o momento das suas investigações à das suas descobertas, o Filósofo não tem idade».
Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, conhecido como Paracelso, nasceu em 1493 na Suiça. Médico, químico, sábio, morreu aos 47 anos julgando ter encontrado o exilir da vida, meio para a eternidade.
O método é a procura da purificação interior através da busca da virtude intrínseca, segundo a condição natural de cada um. Eis a trasmutação filosófica. Sê a Natureza.

31/01/10

Borges Sentimental

Encerrado na biblioteca de seu pai, da qual julga nunca mais ter saído, Jorge Luís Borges ouve a explicação do paradoxo de Zenão de Eleia, que nasceu 495 anos antes de Cristo de Nazaré. Para auxiliar a compreensão, o pai utiliza um tabuleiro de xadrez.
O paradoxo conta-se através da história de Aquiles, o mais rápido corredor da antiga Grécia de então, e da tartaruga: por mais que corra, partindo ambos do mesmo ponto, Aquiles jamais alcançará a tartaruga, porquanto no momento em que estiver mais perto dela, já ela terá avançado um pouco mais, pois «para completar os 100 metros, ele terá que completar a metade destes (50 metros) e para alcançar os 50 metros deve alcançar a metade destes também, isso infinitamente».
Em termos numéricos é assim: «supondo-se que a distância de A para B é 1, a distância que Aquiles deve percorrer é a série 1/2 + 1/4 + 1/8 + 1/16 + 1/32 + 1/64 + 1/128...» e assim sucessivamente e neste advérbio está a chave do problema.
A gravidade do paradoxo de Zenão é a constatação de que, para alcançar a tartaruga, Zenão teria de percorrer todos os infinitos pontos até alcançar o último, pelo que a sua vitória seria a demonstração da absurda finitude do infinito.
Eis o ponto em que um homem se interroga sobre os limites da sua própria convicção: quanto mais certeza houver sobre o ponto em que se encontram cada um destes tresloucados corredores, mais é incerto o momento em que isso está a suceder.
Só o  tempo tornaria inescapável o espaço e, no entanto, há Deus e com ele a convicção de um infinito incontável. A degradação do número em relação à geometria tornou insondável o drama da incomensurabilidade. Neste contemporâneo mundo, digital e quantificável, o aviltamento do homem e o afundamento da sua História demonstram-se assim.
Eis na sua simplicidade a tragédia da existência. «Na circunferência do círculo o começo é o fim», disse Heráclito de Éfeso. Ao morrer, o humano julga-se, arrogante, excepção a essa reiniciação cósmica.
Escrevo tudo isto por ter começado a ler a extraordinária biografia sentimental que Solange Fernández-Ordóñez escreveu e a que chamou «O Olhar de Borges, uma biografia sentimental».
Uma sensação de urgência povoa os céus. Cada vez mais os números são mais pequenos, as fracções progressivamente maiores em grandeza, menores em extensão.
Envelhecer é isto, ter em cada instante mais idade e menos tempo, até ao inalcançável dia zero da existência, o único que restituiria a paz da imobilidade, a ausência do perpétuo movimento.

Uma escada para o céu

Eu sei que há a nossa Lello no Porto, e será que esta é a nossa Lello no Porto?

Livros de cabeceira

Já não é propriamente estender a mão para a mesinha ao lado em busca de um livro que nos leve ao adormecer ou nos retire do adormecimento. Aqui são eles que entre a vigília e a dormência ali estão presentes e acompanhantes, entre a inspiração e companhia.

Navegando em revoltas páginas

É um anúncio de uma livraria em Praga. Chama-se Anagram. Fica aqui. Vê-se, e um súbito arrebatamento de viajar possui-nos, despertando aquela parte de nós onde mora o desejo de ler, abraçando-nos nocturnamente. São noites de insónias fustigadas por ventos adversos, ficcionais, a vela grande da imaginação a todo o pano, os pés fincados no convés da leitura com pavor que ao voltar de uma folha se ouça em prosa marítima o grito de homem ao mar.

O estrondoso momento do «este é para ti!»

Entra-se numa livraria e estão ali todos aqueles livros a olharem para nós e nós a olharmos para eles, num volteio ora tímido ora atrevido, cortejando-nos e tocando-nos, divididos entre os desejos, as necessidades e os poucos meios, aquela dança de vontades e de recalcamentos, o tropel de sentimentos de entusiasmos e pena, a luxúria de ter e a fantasia de ver, e de repente percebemos que nos estão a oferecer um livro, comprado ali expressamente à boca da caixa, fumegante de amizade pura e gorgorejante de satisfação por dar. E não é um qualquer livro é o livro instantes antes visto e no mesmo momento deixado para trás, o livro que abandonáramos e ele a olhar para nós, com mágoa e muita pena a pedir leva-me contigo, não me deixes que me dói a solidão de ficar aqui, livro por ler, no meio de todos os outros. Pudesse eu trazia-os todos. Assim trouxeram-me com este para a luz solar de um dia que ameaçava chover.

29/01/10

Ne varietur

Não sei o que se passa. Muitos blogs sobre livros estão parados. Ou os seus autores não estão a ler ou não têm tempo ou paciência para escrever. Apesar de tudo o que possa parecer por causa dos que estão por aqui dia e noite, a blogoesfera não é a vida. Há, por isso, cadeiras vazias, computadores à espera. 
Também eu quase não tenho lido, nem tenho vindo aqui deixar nota alguma da escassa leitura. Mesmo em matéria de escrita ando absolutamente relapso, apesar de haver em alguns casos compromissos assumidos, a chamada escrita por obrigação.
Quanto à escrita voluntária, a que surge sem se pensar nisso porque se sentiu isso que é o seu tema ou o seu pretexto, também está parada.
Por vezes lê-se o livro que se iniciou para se tentar ganhar ânimo para reiniciar ou lembrar onde se interrompeu. Mas não é assim que as coisas acontecem sempre, pois há o errático, sem nexo, o inesperado e o disperso, mesmo quando com organização.
Por outro lado há quem escreva não sei quantas horas por dia, há quem escreva um romance por ano. São os chamados escritores.
Comigo os números são outros: é só uma vida por existência, um só e mesmo livro que vou revendo até que um dia sem ter dado conta se chegou ao ne varietur por já não ser possível emendar o que seja, o estilo, a semântica, a grafia, o tema da capa ou a vontade de o dedicar. Por isso evito reler para não ter de me reescrever.

27/01/10

O salgado e o insosso


Se isto fosse um blog sobre crítica literária eu viveria o pesadelo da avaliação, a obrigação de ter um juízo público, pior o dever de estar actualizado. Leria ao ritmo acelerado do que se publica para poder opinar ao ritmo do que se julga ser lido.
Mas isto é um blog de um simples leitor. Ora um leitor, «este leitor que sou eu» como se exprimia ontem o Mário Zambujal, não tem de ter uma opinião, porque pode ler silenciosamente para si mesmo, não tem de estar actualizado, porque pode ler sobre o que já saíu das montras e as livrarias devolveram, bem pode poupar-se ao juízo público, porque a sua livraria é a única publicidade para os que lhe visitam a casa e não há essa categoria de seres humanos, pode inclusivamente dizer que não tem de falar sobre o que espera que os outros leiam ou recusem ler, porque não faz pedagogia, nem tem espírito de proselitismo, de catequese, de propaganda, nem ânimo de maledicência.
Blog de livros este procura ser amável talvez porque muitos que são da crítica literária tendem a ser ríspidos. Há em muitos dos chamados críticos aquela doença de alma do crítico gastronómico do filme Ratatouille. São temíveis quando imprevísiveis, respeitados pois que inesperados. Estão zangados com as letras e desconfiados dos que escrevem. Alguns tendem a ser polícias do gosto, outros defensores dos seus iguais. À força de serem procuradores da república ou advogados oficiosos inutilizam-se para serem juízes. Pior: incapacitam-se como escritores, a imaginação roída pela inveja, a criatividade minada pela desilusão.São pessoas tristes, que gostavam de ler por prazer, mas escrevem com agonia. À força de criticarem o gosto perdem o gosto de criticar. Quando não está salgada, a comida sabe-lhes a insosso.
 
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