13/02/10

Terra: por mais distante o errante navegante



Foi há tantas anos, em Itália, não sei onde na Itália creio que numa das ilhas que são Itália. Foi num hotel. Havia um grupo musical que animava os hóspedes. Um grupo de italianos. Souberam, não sei como, que eu era português. Pediram-me então: que eu tentasse com base no que eles cantavam de ouvido, que lhes escrevesse a letra desta canção e lha traduzisse, para que entendessem enfim a beleza do que cantavam, extasiados, sem entenderem uma só palavra. Escrevi, lado a lado com eles, eles soletrando musicalmente eu esgravatando, prosaico. Não mais me esqueci dessa noite. Quando subiram ao palco um sopro de alma elevou-lhes a voz. Vogando no planeta Terra, anichados em torno de um sentimento, vogámos no espaço sideral, irmãos.


Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez as tais fotografias
Em que apareces inteira, porém lá não estava nua
E sim coberta de nuvens

Terra, Terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Ninguém supõe a morena dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema mando um abraço pra ti
Pequenina como se eu fosse o saudoso poeta
E fosses a Paraíba

Terra, Terra,

Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Eu estou apaixonado por uma menina terra
Signo de elemneto terra do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia

Terra, Terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Eu sou um leão de fogo, sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente, e de nada valeria
Acontecer de eu ser gente, e gente é outra alegria
Diferente das estrelas

Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

De onde nem tempo e nem espaço, que a força mãe dê coragem
Pra gente te dar carinho, durante toda a viagem
Que realizas do nada, através do qual carregas
O nome da tua carne

Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

Na sacadas dos sobrados, das cenas do salvador
Há lembranças de donzelas do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito

Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?

11/02/10

Rebel, Rebel


Esta noite ensinaram-me a meter youtubes aqui. E eu, que julgava saber tanto, não sabia isso. Aproveito para deixar por aqui artes e letras, humanidades e até alarvidades, numa explosão panteísta de alegria, entusiasmo e força de viver. É o país das maravilhas...

10/02/10

Em forma de assim...

Quem é que se lembra disto? Quem se recorda do efeito de relevo que impressionava a vista? Quem rememora o passa-passa, imagem a imagem? Quem diz como se chamava? Quem ainda tem disto num qualquer sótão, num canto do guarda-fatos? Quem sabe que a maquineta por cujos dois óculos se espreitava era em baquelite? Quem sabe o que é baquelite, aquela resina química resistente ao calor?
Quem me ajuda porque há um mundo ido de singelezas ópticas que nos davam a ilusão de termos sido felizes vendo paisagens em forma de assim?

09/02/10

O tempo das cerejas

É uma obra de militância, não só política sendo o autor quem é, mas sobretudo cultural. Em cada esquina um amigo, em cada recanto uma surpresa. O blog chama-se O Tempo das Cerejas. O seu autor Vítor Dias. Está aqui. Fomos contemporâneos na Faculdade. A vida separou-nos. Encontrei-o este começo de manhã, lendo-o.

07/02/10

Gymnopédie

Foi este domingo no hall junto à Biblioteca do Museu da Fundação Calouste Gulbenkian, que nem todos conhecem nem sabem que tem o espólio de Alfredo Pimenta. Joana Gama tocou Eric Satie. Um maravilhoso silêncio inundou o espaço, contraiu as almas. Sincopada, minimal, magnífica, a música encheu os corações. A Gymnopédie, n.º 1. Eric Satie nasceu em 1866. Ouvindo a sua obra parece que a eternidade foi hoje.

O autor e a sua cria

É seguramente um labirinto de sentimentos e de vivências; é essa complexidade que talvez permita chamar-lhe um romance. Mereceu ontem uma menção crítica no jornal Expresso. Citei-a, aqui. A autora da recensão é a Professora Helena Barbas. No mesmo dia o poeta Nuno Júdice apresentou-o livro em Faro.
Mentia se não dissesse que isso traz alegria. Um autor gosta da sua obra e por isso consente na sua edição.
Eu sei que no mundo dos escritores ninguém pensa assim. Deveria fazer de conta que não li a crítica e que não fiquei feliz por ser muito amável, para poder fingir ignorar quando vier bordoada de meia-noite ou aqueles silêncios que desanimam. Mas sou este e não aquilo.
Ontem descobri-lhe uma gralha, ao livro tantas vezes revisto: um «fui» em vez de foi. Um pequeno sinal de imperfeição mostra a fragilidade no escrito. Oxalá ninguém dê conta.

05/02/10

No tempo da outra Senhora...

Só não tem o Anuário da RTP de 1964 quem não quer. Por seis euros trouxe eu um para casa, sacado de uma livralhada de adelo. O curioso foi lê-lo num bocado de noite e verificar que no tempo do outro senhor a RTP emitia em média 6 horas e meia por dia, fechava à meia-noite e que, no cômputo geral desse tempo foram 73 horas de teatro, 119 horas de filmes de grande metragem, 38 horas de programas musicais eruditos e 212 horas de programas culturais. As receitas da casa eram 86 380 contos, a despesa 78 129. A televisão do Estado dava lucro. O número de empregados, 794. O Presidente do Conselho de Administração era o Dr. Luiz de Athayde de Almeida Vasconcelos Pinto de Mascarenhas. Quem se lembra hoje dele e daqueles números? Só mesmo quem arriscar seis euros num alfarrabista!

03/02/10

Alma ressuscitada

Um pouco mais contido na adjectivação, é o mesmo Luiz Pacheco, o de sempre, a lembrar-nos os seus Textos de Guerrilha, editados em 1979, livro onde conta a lista dos ilustres artistas convidados pelo então Presidente da República para um jantar no Palácio de Belém. Só que com um pormenor provocatório: o Venerando anfitrião era o almirante Américo Tomás, que o 25 de Abril apeou de Presidente; o convidado o cineasta Manuel de Oliveira [mais tarde crismado como Manoel de Oliveira] o mesmo que, provocatoriamente também, em Non ou a vã glória de mandar, ligaria o 25 de Abril a Alcácer Quibir. Aparte fantástico: no filme Conversa Acabada o realizador João Botelho mascara o Pacheco como Fernando Pessoa «moribundo e logo esticado, com o Manoel de Oliveira, padreca, a rezar-me o responso, num latim esgosmado». É caso para dizer, «alma encomendada, alma ressuscitada».

O Piruteante Anefim

Durante uns meses mantive no Jornal de Negócios uma crónica. Atenção: o Luiz Pacheco também! Esta noite encontrei uma delas em que «ainda a propósito de Afonso Lopes Vieira escrevi: «lembro-me de um episódio contado por João Gaspar Simões no seu livro “Retratos de poetas que conheci”, saído com dedicatória a Manuel Poppe, em 1974. O monárquico Paiva Couceiro havia sido preso pelo regime político que o autor de “Onde a terra se acaba e o mar começa” mais desprezava. Surpreendendo apenas quem o não conhecia, aquele cuja aparência de “piruteante anefim” – as palavras são de Gaspar Simões – iludia quanto à sua viril coragem cívica, não hesitou. Afonso Lopes Vieira “de malinha aviada se apresentava na esquadra de polícia onde Couceiro fora arrecadado, e atrevido perguntava à sentinela: - É aqui que se prendem pessoas de bem?”.  Por um triz tornaria dessa feita verdadeiro um verso seu cáustico e premonitório e de que fez orgulhosa bandeira: “o poeta português que não passar ao menos uma vez pelas prisões, não será digno aluno de Camões”». Foi em Setembro de 2003 aquele meu escrito. Como o tempo voa!

02/02/10

A excepção e a regra

Hesito sempre em usar os meus espaços para falar das minhas coisas. E haja quem explique este atavismo. Talvez não pareça que isso é assim, porque escrevi um romance e dei aqui notícia dele; apresentei-o ao público e ficou aqui notícia do facto. Além disso na lateral deste blog está menção aos livros que escrevi e a uma editora que decidi criar.
Há, porém, algo que estas referências omitem: a dúvida com que tudo isso acontece, talvez um pouco menos do que um sentimento de pudor.
Desta vez a mesma sensação ao anunciar que vou a Faro porque o Nuno Júdice apresenta aquele romance que é a minha estreia no género.
Haveria razão para que eu não o dissesse? Talvez não haja. Tenho vergonha? Não, tenho orgulho. Devo alguma coisa a alguém? Só aos meus credores. Porque vim aqui escrever isto? Porque cada vez que falo de mim penso sempre que há o risco de quem lê pensar em outra coisa.
Blog de leitores, este, acho, enfim, que ele pode ser também das coisas que leio por tê-las escrito. Não como excepção, mas por haver uma regra geral.

01/02/10

A transmutação

As palavras rituais do catecismo alquímico de Paracelso são semelhantes às da sessão de abertura em loja maçónica, pelo menos no Rito Escocês Antigo e Aceito. Com uma diferença notável. À perguntal «que idade tendes irmão primeiro vigilante?», feita pelo Venerável Mestre, que como resposta obtém «três anos, Venerável Mestre», sucede aqui, no fecho da obra, o diálogo: «qual é a idade do Filósofo?», «desde o momento das suas investigações à das suas descobertas, o Filósofo não tem idade».
Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim, conhecido como Paracelso, nasceu em 1493 na Suiça. Médico, químico, sábio, morreu aos 47 anos julgando ter encontrado o exilir da vida, meio para a eternidade.
O método é a procura da purificação interior através da busca da virtude intrínseca, segundo a condição natural de cada um. Eis a trasmutação filosófica. Sê a Natureza.

31/01/10

Borges Sentimental

Encerrado na biblioteca de seu pai, da qual julga nunca mais ter saído, Jorge Luís Borges ouve a explicação do paradoxo de Zenão de Eleia, que nasceu 495 anos antes de Cristo de Nazaré. Para auxiliar a compreensão, o pai utiliza um tabuleiro de xadrez.
O paradoxo conta-se através da história de Aquiles, o mais rápido corredor da antiga Grécia de então, e da tartaruga: por mais que corra, partindo ambos do mesmo ponto, Aquiles jamais alcançará a tartaruga, porquanto no momento em que estiver mais perto dela, já ela terá avançado um pouco mais, pois «para completar os 100 metros, ele terá que completar a metade destes (50 metros) e para alcançar os 50 metros deve alcançar a metade destes também, isso infinitamente».
Em termos numéricos é assim: «supondo-se que a distância de A para B é 1, a distância que Aquiles deve percorrer é a série 1/2 + 1/4 + 1/8 + 1/16 + 1/32 + 1/64 + 1/128...» e assim sucessivamente e neste advérbio está a chave do problema.
A gravidade do paradoxo de Zenão é a constatação de que, para alcançar a tartaruga, Zenão teria de percorrer todos os infinitos pontos até alcançar o último, pelo que a sua vitória seria a demonstração da absurda finitude do infinito.
Eis o ponto em que um homem se interroga sobre os limites da sua própria convicção: quanto mais certeza houver sobre o ponto em que se encontram cada um destes tresloucados corredores, mais é incerto o momento em que isso está a suceder.
Só o  tempo tornaria inescapável o espaço e, no entanto, há Deus e com ele a convicção de um infinito incontável. A degradação do número em relação à geometria tornou insondável o drama da incomensurabilidade. Neste contemporâneo mundo, digital e quantificável, o aviltamento do homem e o afundamento da sua História demonstram-se assim.
Eis na sua simplicidade a tragédia da existência. «Na circunferência do círculo o começo é o fim», disse Heráclito de Éfeso. Ao morrer, o humano julga-se, arrogante, excepção a essa reiniciação cósmica.
Escrevo tudo isto por ter começado a ler a extraordinária biografia sentimental que Solange Fernández-Ordóñez escreveu e a que chamou «O Olhar de Borges, uma biografia sentimental».
Uma sensação de urgência povoa os céus. Cada vez mais os números são mais pequenos, as fracções progressivamente maiores em grandeza, menores em extensão.
Envelhecer é isto, ter em cada instante mais idade e menos tempo, até ao inalcançável dia zero da existência, o único que restituiria a paz da imobilidade, a ausência do perpétuo movimento.

Uma escada para o céu

Eu sei que há a nossa Lello no Porto, e será que esta é a nossa Lello no Porto?

Livros de cabeceira

Já não é propriamente estender a mão para a mesinha ao lado em busca de um livro que nos leve ao adormecer ou nos retire do adormecimento. Aqui são eles que entre a vigília e a dormência ali estão presentes e acompanhantes, entre a inspiração e companhia.

Navegando em revoltas páginas

É um anúncio de uma livraria em Praga. Chama-se Anagram. Fica aqui. Vê-se, e um súbito arrebatamento de viajar possui-nos, despertando aquela parte de nós onde mora o desejo de ler, abraçando-nos nocturnamente. São noites de insónias fustigadas por ventos adversos, ficcionais, a vela grande da imaginação a todo o pano, os pés fincados no convés da leitura com pavor que ao voltar de uma folha se ouça em prosa marítima o grito de homem ao mar.

O estrondoso momento do «este é para ti!»

Entra-se numa livraria e estão ali todos aqueles livros a olharem para nós e nós a olharmos para eles, num volteio ora tímido ora atrevido, cortejando-nos e tocando-nos, divididos entre os desejos, as necessidades e os poucos meios, aquela dança de vontades e de recalcamentos, o tropel de sentimentos de entusiasmos e pena, a luxúria de ter e a fantasia de ver, e de repente percebemos que nos estão a oferecer um livro, comprado ali expressamente à boca da caixa, fumegante de amizade pura e gorgorejante de satisfação por dar. E não é um qualquer livro é o livro instantes antes visto e no mesmo momento deixado para trás, o livro que abandonáramos e ele a olhar para nós, com mágoa e muita pena a pedir leva-me contigo, não me deixes que me dói a solidão de ficar aqui, livro por ler, no meio de todos os outros. Pudesse eu trazia-os todos. Assim trouxeram-me com este para a luz solar de um dia que ameaçava chover.

29/01/10

Ne varietur

Não sei o que se passa. Muitos blogs sobre livros estão parados. Ou os seus autores não estão a ler ou não têm tempo ou paciência para escrever. Apesar de tudo o que possa parecer por causa dos que estão por aqui dia e noite, a blogoesfera não é a vida. Há, por isso, cadeiras vazias, computadores à espera. 
Também eu quase não tenho lido, nem tenho vindo aqui deixar nota alguma da escassa leitura. Mesmo em matéria de escrita ando absolutamente relapso, apesar de haver em alguns casos compromissos assumidos, a chamada escrita por obrigação.
Quanto à escrita voluntária, a que surge sem se pensar nisso porque se sentiu isso que é o seu tema ou o seu pretexto, também está parada.
Por vezes lê-se o livro que se iniciou para se tentar ganhar ânimo para reiniciar ou lembrar onde se interrompeu. Mas não é assim que as coisas acontecem sempre, pois há o errático, sem nexo, o inesperado e o disperso, mesmo quando com organização.
Por outro lado há quem escreva não sei quantas horas por dia, há quem escreva um romance por ano. São os chamados escritores.
Comigo os números são outros: é só uma vida por existência, um só e mesmo livro que vou revendo até que um dia sem ter dado conta se chegou ao ne varietur por já não ser possível emendar o que seja, o estilo, a semântica, a grafia, o tema da capa ou a vontade de o dedicar. Por isso evito reler para não ter de me reescrever.

27/01/10

O salgado e o insosso


Se isto fosse um blog sobre crítica literária eu viveria o pesadelo da avaliação, a obrigação de ter um juízo público, pior o dever de estar actualizado. Leria ao ritmo acelerado do que se publica para poder opinar ao ritmo do que se julga ser lido.
Mas isto é um blog de um simples leitor. Ora um leitor, «este leitor que sou eu» como se exprimia ontem o Mário Zambujal, não tem de ter uma opinião, porque pode ler silenciosamente para si mesmo, não tem de estar actualizado, porque pode ler sobre o que já saíu das montras e as livrarias devolveram, bem pode poupar-se ao juízo público, porque a sua livraria é a única publicidade para os que lhe visitam a casa e não há essa categoria de seres humanos, pode inclusivamente dizer que não tem de falar sobre o que espera que os outros leiam ou recusem ler, porque não faz pedagogia, nem tem espírito de proselitismo, de catequese, de propaganda, nem ânimo de maledicência.
Blog de livros este procura ser amável talvez porque muitos que são da crítica literária tendem a ser ríspidos. Há em muitos dos chamados críticos aquela doença de alma do crítico gastronómico do filme Ratatouille. São temíveis quando imprevísiveis, respeitados pois que inesperados. Estão zangados com as letras e desconfiados dos que escrevem. Alguns tendem a ser polícias do gosto, outros defensores dos seus iguais. À força de serem procuradores da república ou advogados oficiosos inutilizam-se para serem juízes. Pior: incapacitam-se como escritores, a imaginação roída pela inveja, a criatividade minada pela desilusão.São pessoas tristes, que gostavam de ler por prazer, mas escrevem com agonia. À força de criticarem o gosto perdem o gosto de criticar. Quando não está salgada, a comida sabe-lhes a insosso.

26/01/10

Nome de rua




Há o hábito de dizer contemporâneo quando se quer dizer mais do que moderno. O vício vem da História que no meu tempo de liceu se classificava em Antiga, Moderna e Contemporânea e ainda havia a Pré-História, como se fosse uma espécie de pré-vida.
Vem isto a propósito do Ruben A. Gostaria de ser capaz de ler os volumes todos das Páginas, mas estou devorado pelas obrigações e diminuído pelas desilusões e é um livro que exige que se esteja livre e se possa ficar contente.
E vem a propósito porque o Ruben A. trouxe-nos uma modernidade na forma de escrever que os seus contemporâneos desconsideraram, recusando a mudança. Com ele a contemporaneidade foi antes da modernidade. Impossibilitado de escrever em progressão paralelizou com o romance Caranguejo. E disse: «tudo que é novo em Portugal precisa de ser arranjado, então as canalizações já são construídas entupidas de nascença».
Detestaram o modo de escrever e a tal ponto do desdém que a coisa meteu autoridades públicas, entidades oficiais e o próprio Presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar.
«Eu sou sempre mais moderno do que eu. Sinto-me aos saltos espirituais num rebolar peripatético. Quero escrever as aventuras do Cavaleiro de Barbela». E escreveu mesmo, em 1964 barrocamente desconcertante.
Correram-no então de lugares oficiais. Com o 25 de Abril fizeram-no Director-Geral e outras coisas públicas, com pouca convicção de ambos. Mas ele tinha escrito: «a vida pública ou semipública cria-me caspa. Para se realizar é preciso não participar dos serviços públicos ou municipalizados». Abriu excepção para si próprio, o que é uma forma triste de uma regra ser quebrada.
Ficou um extraordinário escritor, capaz de escrever às cores.

25/01/10

Era uma vez um homem...


Fonte do quadro «Excursão à Filosofia», de Edward Hopper [1959]: O silêncio dos livros.

24/01/10

A sinuosa língua


É uma língua de humildes: «arranja-se uma mistazinha não se arranja, senhor João, se faz favor, obrigado, bem tostadinha?».
A forma reflexa «arranja-se» evita confrontar o interpelado com a obrigação de arranjar, com o dever de proceder ao acto, invectivá-lo a ter de fornecer, além disso amplia o universo dos que são destinatários da frase, que deixa de ser aquele, o senhor João, mas passam a ser todos os possíveis «senhor João» e mais aqueles que se devem substituir ao «senhor João», os subrogados de facto ao «senhor João», eu, tu, tutti quanti irmanados agora em torno da ideia da «tostazinha mista», do seu conceito, da necessidade, do preparo da dita, do arranjar modo de ela passar de ideia a realidade, do como é que se desenrasca isto.
O próprio verbo «arranjar», que é o motor da língua, é ambíguo, pois tanto dá para querer dizer «fornecer novo» como «reparar» o que já vem mal de origem, como se a frase admitisse um serviço de má qualidade, defeituoso, com erro, a carecer de oficina logo à saída so standI, uma tosta a precisar de arranjo.
Depois é o diminuitivo «mistazinha», para tornar insignificante o que se pede, no caso uma tosta que em vez de ser normal de tamanho pode ser pequenina, em vez de ter queijo e fiambre pode ter uma coisinha de um e um poucochinho de outro e, ao limite, nada de coisa alguma e um nadica de qualquer coisinha.
Enfim o «não», o «não se» no «não se arranja?», como se mesmo no acto de dar a ordem «arranja-se», e esta mesmo assim já interrogada dubitativamente, isso equivalesse a não a dar através do salvífico «não se arranja», como se o dizer, já gaguejado, «arranja-se» tivesse de se complementar inexoravelmente com o «não se arranja», que logo ali o anula, como se, em suma, o ser ordenante se transforme necessariamente primeiro em solicitante e no fim em coisa nenhuma, sumindo-se no universo gramatical.
Ah! E os agradecimentos antecipados, o «obrigado» antes de ter recebido e mesmo que se não receba, e o «se faz favor» mesmo quando o acto é devido, a cortesia aqui a ser o genuflexório do Direito das Obrigações, o ficar uma pessoa obrigada ante aquilo que devia ser, afinal, a obrigação do outro.
É uma língua de tiranos feitos obedientes, melífluos, raramente sinceros, a hipocrisia uma forma verbal transitiva de se ser um pouco menos do que velhaco e um pouco mais do que cínico.
Mas no fundo, nos meandros das suas línguas sinuosas, há um latejo que as calças arregaçadas verbais mal esconde, de desejo pela tostazinha, sobretudo se mista, quanto mais se possível e então se bem tostadinha!

O diabo à solta...


Em 1965 perguntaram-lhe «quanto ganhou com o seu primeiro livro?» e ele respondeu: «o primeiro livro que eu publiquei foi Páginas I, na Coimbra Editora, em 1949. Como aconteceu com os livros que publiquei a seguir, perdi sempre dinheiro. A minha obra literária não vive da pena, vive apenas. Dos volumes de Páginas I venderam-se uns trinta e poucos exemplares nos primeiros anos. O meu estilo, a maneira de contar, a expressão directa, um mundo novo que não se comprazia com as amenidades do clima, dificultaram sempre a procura das minhas obras. Tenho investido dinheiro em mim próprio numa obra de fomento».
Quatro anos depois perguntaram, agora com mais redondo no modo de perguntar «com base na sua experiência pessoal, qual a principal dificuldade que um escritor encontra na edição da sua obra?» e ele respondeu, mais anguloso ainda: «papel, tinta, tipos de composição, máquina de imprimir. Editar uma obra à própria custa é o diabo à solta em Moscavide»

23/01/10

Trabalhos e Paixões


Dizem os editores que um livro muitas vezes se vende por causa do modo como começa. O leitor fica com o paladar no palato e depois quer devorá-lo todo. Senti isso há uns bons anos quando tive nas mãos o livro Trabalhos e Paixões de Benito Prada, do Assis Pacheco. É a história de um galego, a história carinhosa e raivosa de todos os galegos, dos aguadeiros, dos tasqueiros, dos carregadores e amoladores, dos que entraram na História Universal por se chamarem Francisco Franco (Bahamonde), de Ferrol, ou Fidel (Alejandro) Castro (Ruz), de Birán, ou coisa nenhuma com muitos «xes» e outras sibilantes em nomes de vogais fechadas de dentes cerrados. Uma história de gente sacrificada, vindos de uma terra que é com Portugal uma só Nação, plantados num país com uma língua cheia de diminuitivos familiares, gente de emigração.
Pois, voltando ao livro, ele abre assim: «Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que o Manolo Crabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé. O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado».

22/01/10

Ganhar a vida


Está aqui tudo, a ingenuidade, o sonho, a esperança, a resistência, a indiferença, a risonha e idiota inconsciência, a mão estendida. Estamos todos, a preto e branco, a raiva vermelha num país que se tornou cinzento. Luís Cília, aqui. Num restaurante em Paris, em 1966.

21/01/10

O livro do silêncio


Um blog de um escritor é mais fácil de gerir porque o escritor escreve sobre si e sobre a sua obra. Anuncia projectos, enfrenta críticas, ensaia ideias. Ou diverte-se a passear sobre acontecimentos comuns da vida corrente ou excepcionalidades da vida decorrente.
Se for um blog aberto a comentários há o campo aberto para se conversar ou para se desconversar.
Ora este é um blog de um leitor que escreve. Quando não tem tempo para ler não escreve. Fica assim uns dias a ostensividade da omissão.
O silêncio é tão importante quanto a palavra. Tem a vantagem de permitir todas as interpretações possíveis. É o melhor livro que se pode escrever, por ser o mais fantástico que se pode ler, aquém mesmo do murmurar de palavras.

19/01/10

Os bichos em 16 mm



Estranha e incómoda situação, embaraço em confessá-la. Mas a imagem era muito má, o que é um crime para um filme sobre uma pintora, e o som era péssimo, o que é uma ofensa quando Sophia de Mello Breyner lê um poema seu, e uma agressão para os espectadores que querem entender quando as falas são em francês, e há muitas e longas e extensas e sem planos de corte.
E depois, tenho de admitir, há num qualquer labirinto de mim uma rejeição funda para com a pessoa do Arpad, na mesma medida em que há um denso apreço estético pela Vieira da Silva. Não sei. Talvez o olhar, a pose, o conjunto. Talvez o vê-lo velho numa altura em que se tem medo do que aí vem com a velhice.
E depois não encontro o livro que a Agustina escreveu sobre eles e temo tê-lo perdido, mas eu nunca perco livros, resta-me tê-lo emprestado.
Foi o documentário de José Álvaro Morais. Rodado num tempo em que as calças eram à boca de sino, como se nota no final quando a ficha técnica está ilustrada com fotogramas dos próprios. E os cabelos compridos. E as barbas em desalinho. Em 1977, com um apoio da Gulbenkian que meteu «intrigalhada e desavenças pelo meio».
João Bénard da Costa gostou muito do filme e ele era critério. Eu detestei-o muito e sou apenas espectador, aquele para quem os filmes são feitos.
Ficaram as cores, sobretudo o azul. E ficou-me a cena íntima em que, sentados lado a lado, na proximidade de um sofá, Maria e Helena e Arpad, o plano recortado de modo a que se pressente mais do que se vê, e se nota a sua mão acariciando o que se julga ser a mão do seu companheiro, cujo olhar extasiado raia o lúbrico objecto do prazer, e, afinal, é um gato, o bicho, que ela acaricia, meiga, doce, dedicada.
Ma femme chamada bicho, assim se chama o filme. Oitenta minutos de nervos. Agora que acabou, onde está o meu livro, em capa azul petróleo, editado pela Guimarães, onde a Agustina conta o que viu, sentiu e pressentiu  e o filme não chega sequer a surpreender?

17/01/10

O Espelho, de Machado de Assis



Epilético, gago, tímido, modesto funcionário, filho de pais pobres, um extraordinário escritor. Leio em Machado de Assis o conto O Espelho. Um das duas centenas de contos que escreveu. A narrativa traz como sub-título «Esboço de uma nova teoria da alma humana». A espécie «alma humana», dentro da categoria maior «alma» já fala por si. Mas é a afirmação de que cada criatura traz duas almas consigo que é a raiz da história: uma que olha de fora para dentro, outra, a exterior, a que olha de dentro para fora. Esta pode ser «um espírito, um fluído, um homem, muitos homens, um objecto, uma operação». Em Camões foi a Pátria portuguesa com a qual morreu, em César e Comwell o poder.
Irónico, Machado de Assis sabe, porém, que «há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade».
Para o narrador, um homem que, paradoxalmente - e em Assis abunda este modo de contrários conviventes - , se chama Jacobina, «a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem». O posto de alferes. «O alferes eliminou o homem».
Vivendo a angústia do aprisionamento de uma das duas almas pela outra mais velhaca, só o sono lhe dava alívio «não pela razão comum de ser irmão da morte» mas porque «o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava actuar a alma interior».
Um dia olhou-se ao espelho. Viu do rosto as linhas difusas, as «próprias feições derramadas e inacabadas».
Fardou-se, então, para deixar ao mundo o seu reino, ao ser a sua reintegração.
É um final triste, a história de um homem que regressa a si, impondo-se um exterior que o anula, um conto magnífico, uma lição dura de aprender.

16/01/10

A exacta proporção: Maria Gabriela Llansol



Hoje enchem a boca com o seu nome. Mas 1980, no seu retiro na Bélgica, escrevia, a justificar-se: «A lembrança de fazer volumes legíveis deste diário, começado em 1974, nasceu da crise profunda da não publicação dos meus livros. Estava quase no fim do texto definitivo de Causa Amante, e a principiar um livro em versículos quando o aumento incessante da escrita não chegada a seu destino começou a transformar-se num motivo permanente de tristeza». É Maria Gabriela Llansol (Nunes da Cunha Rodrigues Joaquim). Hoje, porque morreu, está sujeita a tantas homenagens quanto a medida do desinteresse que lhe votaram em vida. Uma escrita entrecortada, em que o nexo do efeito suplanta a deconexão do que lhe dá origem, uma lógica interior de uma vivência desgarrada em espanto, torrencial, imperfeita como é a vida, feita de arestas e de espaços interrompidos.

A invisibilidade do ser


Está numa página de um Diário contemporâneo de Marcello Duarte Mathias: «Francis Bacon: o ódio à condição humana. E a raiva de lhe pertencer». Uma frase não explica uma vida, mas ajuda a compreender uma obra, a perdoar a quem está a acabar. Li-a este início de tarde para entender também que «a velhice é um muro que sobe lentamente à nossa volta - a princípio, nem se nota - e que nos vai isolando aos poucos até por fim nos tapar a vista por completo. Os outros já não nos vêem e, nós, a eles, também não. Envelhecer é morrer emparedado. No fundo feitas as contas, não há razões para queixas ou queixumes, bate tudo certo: chega-se ao fim com vontade de lá chegar!»
 
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