Está aqui tudo, a ingenuidade, o sonho, a esperança, a resistência, a indiferença, a risonha e idiota inconsciência, a mão estendida. Estamos todos, a preto e branco, a raiva vermelha num país que se tornou cinzento. Luís Cília, aqui. Num restaurante em Paris, em 1966.
22/01/10
21/01/10
O livro do silêncio
Um blog de um escritor é mais fácil de gerir porque o escritor escreve sobre si e sobre a sua obra. Anuncia projectos, enfrenta críticas, ensaia ideias. Ou diverte-se a passear sobre acontecimentos comuns da vida corrente ou excepcionalidades da vida decorrente.
Se for um blog aberto a comentários há o campo aberto para se conversar ou para se desconversar.
Ora este é um blog de um leitor que escreve. Quando não tem tempo para ler não escreve. Fica assim uns dias a ostensividade da omissão.
O silêncio é tão importante quanto a palavra. Tem a vantagem de permitir todas as interpretações possíveis. É o melhor livro que se pode escrever, por ser o mais fantástico que se pode ler, aquém mesmo do murmurar de palavras.
19/01/10
Os bichos em 16 mm
Estranha e incómoda situação, embaraço em confessá-la. Mas a imagem era muito má, o que é um crime para um filme sobre uma pintora, e o som era péssimo, o que é uma ofensa quando Sophia de Mello Breyner lê um poema seu, e uma agressão para os espectadores que querem entender quando as falas são em francês, e há muitas e longas e extensas e sem planos de corte.
E depois, tenho de admitir, há num qualquer labirinto de mim uma rejeição funda para com a pessoa do Arpad, na mesma medida em que há um denso apreço estético pela Vieira da Silva. Não sei. Talvez o olhar, a pose, o conjunto. Talvez o vê-lo velho numa altura em que se tem medo do que aí vem com a velhice.
E depois não encontro o livro que a Agustina escreveu sobre eles e temo tê-lo perdido, mas eu nunca perco livros, resta-me tê-lo emprestado.
Foi o documentário de José Álvaro Morais. Rodado num tempo em que as calças eram à boca de sino, como se nota no final quando a ficha técnica está ilustrada com fotogramas dos próprios. E os cabelos compridos. E as barbas em desalinho. Em 1977, com um apoio da Gulbenkian que meteu «intrigalhada e desavenças pelo meio».
João Bénard da Costa gostou muito do filme e ele era critério. Eu detestei-o muito e sou apenas espectador, aquele para quem os filmes são feitos.
Ficaram as cores, sobretudo o azul. E ficou-me a cena íntima em que, sentados lado a lado, na proximidade de um sofá, Maria e Helena e Arpad, o plano recortado de modo a que se pressente mais do que se vê, e se nota a sua mão acariciando o que se julga ser a mão do seu companheiro, cujo olhar extasiado raia o lúbrico objecto do prazer, e, afinal, é um gato, o bicho, que ela acaricia, meiga, doce, dedicada.
Ma femme chamada bicho, assim se chama o filme. Oitenta minutos de nervos. Agora que acabou, onde está o meu livro, em capa azul petróleo, editado pela Guimarães, onde a Agustina conta o que viu, sentiu e pressentiu e o filme não chega sequer a surpreender?
17/01/10
O Espelho, de Machado de Assis
Epilético, gago, tímido, modesto funcionário, filho de pais pobres, um extraordinário escritor. Leio em Machado de Assis o conto O Espelho. Um das duas centenas de contos que escreveu. A narrativa traz como sub-título «Esboço de uma nova teoria da alma humana». A espécie «alma humana», dentro da categoria maior «alma» já fala por si. Mas é a afirmação de que cada criatura traz duas almas consigo que é a raiz da história: uma que olha de fora para dentro, outra, a exterior, a que olha de dentro para fora. Esta pode ser «um espírito, um fluído, um homem, muitos homens, um objecto, uma operação». Em Camões foi a Pátria portuguesa com a qual morreu, em César e Comwell o poder.
Irónico, Machado de Assis sabe, porém, que «há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade».
Para o narrador, um homem que, paradoxalmente - e em Assis abunda este modo de contrários conviventes - , se chama Jacobina, «a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem». O posto de alferes. «O alferes eliminou o homem».
Vivendo a angústia do aprisionamento de uma das duas almas pela outra mais velhaca, só o sono lhe dava alívio «não pela razão comum de ser irmão da morte» mas porque «o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava actuar a alma interior».
Um dia olhou-se ao espelho. Viu do rosto as linhas difusas, as «próprias feições derramadas e inacabadas».
Fardou-se, então, para deixar ao mundo o seu reino, ao ser a sua reintegração.
É um final triste, a história de um homem que regressa a si, impondo-se um exterior que o anula, um conto magnífico, uma lição dura de aprender.
16/01/10
A exacta proporção: Maria Gabriela Llansol
Hoje enchem a boca com o seu nome. Mas 1980, no seu retiro na Bélgica, escrevia, a justificar-se: «A lembrança de fazer volumes legíveis deste diário, começado em 1974, nasceu da crise profunda da não publicação dos meus livros. Estava quase no fim do texto definitivo de Causa Amante, e a principiar um livro em versículos quando o aumento incessante da escrita não chegada a seu destino começou a transformar-se num motivo permanente de tristeza». É Maria Gabriela Llansol (Nunes da Cunha Rodrigues Joaquim). Hoje, porque morreu, está sujeita a tantas homenagens quanto a medida do desinteresse que lhe votaram em vida. Uma escrita entrecortada, em que o nexo do efeito suplanta a deconexão do que lhe dá origem, uma lógica interior de uma vivência desgarrada em espanto, torrencial, imperfeita como é a vida, feita de arestas e de espaços interrompidos.
A invisibilidade do ser
Está numa página de um Diário contemporâneo de Marcello Duarte Mathias: «Francis Bacon: o ódio à condição humana. E a raiva de lhe pertencer». Uma frase não explica uma vida, mas ajuda a compreender uma obra, a perdoar a quem está a acabar. Li-a este início de tarde para entender também que «a velhice é um muro que sobe lentamente à nossa volta - a princípio, nem se nota - e que nos vai isolando aos poucos até por fim nos tapar a vista por completo. Os outros já não nos vêem e, nós, a eles, também não. Envelhecer é morrer emparedado. No fundo feitas as contas, não há razões para queixas ou queixumes, bate tudo certo: chega-se ao fim com vontade de lá chegar!»
Se acaso é livro..
Jesué Pinharanda Gomes apaixonou-se pela obra de Dalila Lello Pereira da Costa - o seu primeiro livro assinou-o como Dalila L. Pereira da Costa - quando lhe visitou o livro O Esoterismo de Fernando Pessoa e disso fez uma crónica que publicou em 29 de Outubro de 1971 no jornal Época, que Manuel Anselmo fundara, num suplemento cultural que Jasmins Pereira dirigia. Mas foi a sua recensão ao livro Os Jardins da Alvorada que me comoveu. Publicada no jornal Pátria - outro que não vingou - em 1981 considerou-o «livro impassível de juízo, por não ser livro nem literatura; também não será excatamente poesia, nem rigorosamente profecia; como não é poesia nem prosa». «Ignoramos que livro é este - se acaso é livro», acrescenta», em genial intuição.
Estou com ela por companhia na sondagem do ser, em apelo à intrepidez e lucidez, em expectativa tensa de uma brilhante noite de sol.
Li tudo esta manhã. O artigo nos materiais do colóquio Dalila Pereira da Costa e as Raízes Matriciais da Pátria. Editado pela Fundação Lusíada. Com um desenho de Margarida Cepêda. Um quadro seu ilustra este postal.
Salvo excepções, as "livrarias"
Houve tempos em que as livrarias eram uma certa e específica realidade. Procurava-se pelo Alexandre Herculano e havia ainda O Bobo ou O Monge de Cister. Tentava-ae o Nemésio e lá estaria pelo menos o Mau Tempo no Canal. Encontrava-se o Húmus do Raúl Brandão, o Domingo à Tarde do Fernando Namora. Isto para além das novidades que mesmo quando vendiam pouco iam ficando.
As livrarias eram lugares de convívio entre obras em vai-vém porque os livros encontravam muitos compradores, identificados pela voz do livreiro «não temos de momento mas estamos a receber ainda esta semana», e aqueles que esperavam encontrar esperançadamente um futuro comprador e foi assim, com esses livros expectantes, que fui compondo a minha tantas vezes reiniciada biblioteca.
Hoje não há isso. É tudo um carrossel de livros em rotação. Chegam, mal aquecem o lugar e são devolvidos se não se vendem em pouco tempo. O leitor que perdeu a novidade já não o encontra. É remetido para a editora, algumas vezes com um «nem sei se existe, ah sim está aqui no computador, tenho ideia sim...».
Muitas das actuais "livrarias" são, como no imobiliário e na hotelaria, um negócio de venda de espaço. As assoalhadas com melhor vista são mais caras. Editor que queira livro na montra paga. Para o livro estar não na horizontal repousante do escaparate mas sim na erecção que o torna mais visível, paga-se; de outro modo se o editor entra na lógica do «não pagamos» vai para a estante e aí se a lombada não for visível com letras garrafais e contraste de cor o livro perde-se de vista.
Alguns livreiros que são homens de cultura ainda têm consideração pelos leitores que procuram o passado e pelas edições antigas que procuram o presente. A regra é a rotação de stocks, a gestão do cash-flow. A cultura está dominada por auto-proclamados socialistas que gerem capitalisticamente o seu negócio.
Os livros hoje são iguais aos produtos do supermercado. Chegam em carrinhas e saem em carretas. Funerárias claro. Os contratos de edição prevêm que se não foram vendidos são guilhotinados. Tal e qual.
A Alegria, a Dor e a Graça, de Leonardo Coimbra
Sant'Anna Dionísio escreveu: «foi um verdadeiro delito colectivo a vida forçada de professor do ensino secundário de Leonardo Coimbra».
Apto para o Absoluto teve de viver a condição do relativo. A criação fulgurante era o seu modo de ser. O seu pensamento era um drama em acção, a sua vida a fecundidade da Natureza feita homem. Viveu às guinadas. No final da vida rendeu-se à Fé católica, entregando-se assim Deus. Foi no Natal de 1935, pela mão do Padre Cruz.
Morreu como vivera. Um desastre de automóvel levou-o. «Grande é o homem que conserva sempre em si a luz das primeiras horas, é água à boca da fonte, fogo interior aflorando em jeito de afeiçoar a terra» escreveu no seu livro extraordinário A Alegria, a Dor e a Graça. Publicado em 1916 é um poema em prosa. José Marinho chamou-lhe «um poema metafísico».
Antes de o seu corpo ser abandonado à terra foi um ser irredutível. Ficou a obra. Sobreviveu, pois.
14/01/10
Conta Corrente, de Vergílio Ferreira
Encontrei hoje o número quadrimestral da revista Colóquio-Letras, dirigida agora pelo Nuno Júdice. É o que segue aos que sairam em homenagem a Eduardo Lourenço. Retoma a tradição da revista. Os olhos cairam-me no pequeno estudo que Hélder Godinho dedicou aos diários de Vergílio Ferreira, a sua Conta Corrente. E a pergunta saltou do porque escreveria ele este relato do seu quotidiano íntimo para o porque escreveria ele afinal tudo quanto escreveu.
Retornado a casa, era para o vir citar mais longamente aqui a esse número da revista que a Gulbenkian edita se não me tivesse esquecido dele na cadeira de trás do automóvel. E era para ir tentar encontrar num dos volumes do diário do autor da Aparição, que como sabe saíu em duas séries, a confissão ruminante da sua hesitação em continuar a escrever essa doentia ipseidade e o momento em que ali citava precisamente o Eduardo Lourenço como conselho sensato para que desistisse de prosseguir, não se desse o caso de me ter dado preguiça ou vencido o cansaço e não ter forças para andar a folhear.
Mas o mundo é pequeno sem dúvida. A própria pergunta com que me cruzei pela hora de almoço faz sentido agora se foi a hora do jantar: para quê escrever? Este post, por exemplo... para quê e para quem, para já não perguntar porquê?
13/01/10
O regresso da existência
Comecei um novo livro. É uma narrativa ficcionada. Hesito em chamar-lhe novela, talvez me digam que não é um romance. Começa assim:
«Escrevera um livro sobre sentimentos com uma história ficcionada. Quando o leu, temendo-o autobiográfico, viu que era sobre a vida que poderia ter tido. Agora, sentado num cubículo da existência, imaginava um livro sobre ideias. O medo da ficção levava-o para a tentação da realidade. Havia nele algo de essencial que tinha, porém, deixado de existir.
«Escrevera um livro sobre sentimentos com uma história ficcionada. Quando o leu, temendo-o autobiográfico, viu que era sobre a vida que poderia ter tido. Agora, sentado num cubículo da existência, imaginava um livro sobre ideias. O medo da ficção levava-o para a tentação da realidade. Havia nele algo de essencial que tinha, porém, deixado de existir.
Todos os dias, pelas quatro da tarde, era a hora de visita. Esperou a sua vez meses a fio, certo que a existência o descobriria. Até ao momento derradeiro em que todos os outros regressavam taciturnos, ainda que consolados, do acto triste que é ser-se visitado, nunca desistiu de pensar que um dia isso também lhe sucederia, tornando-se possível. Foi então que Deus teve piedade. Transformou-lhe o mundo existente no mundo dos conceitos. A vida tornou-se uma ideia.
Naquele local, diga-se, Deus não era uma questão de crença, uma eventualidade da fé, sim um produto da gestação humana. Nascera prematuro e devia a vida à pouca medicina de um enfermeiro, que acorreu quando a mãe, a esvair-se, pedia que se trocasse a sua vida por aquela vida. Foi assim que ocorreu o facto de ter sobrevivido, ainda que sem saber hoje para quê.
Tinha cinquenta e oito anos, um rosto escalavrado os olhos recolhidos a esconderem o interior de uma vida incógnita. Nunca se lhe ouvira uma história sobre a família que era justo que tivesse tido, nem o relato daquela outra gente que afinal tivera, querendo-os até que o não quiseram.
Dizia que se chamava João de Deus. Quando ali dera entrada, vindo de uma esquina que ajudara a conspurcar com a sua miséria, tornando-a tão repelente como o desinteresse dos que se agoniavam consigo, não trazia documentos nem queria dizer onde se poderiam encontrar. Iniciara-se aí o vazio que faz agora todos os outros sentirem-se uma excrescência na sua vida em nome do qual dizem nada terem a ver consigo.
Em vez de ter inventado uma biografia, fantasiou um corpo. Fez-se homem para poder ser Deus.
Como todos os deuses também ele tinha um Céu. A diferença é que dizia que o tinha perdido. Passava noites olhando, absorto, o firmamento, mesmo quando as nuvens lhe roubavam as estrelas.
Uma vez alguém divertido com humilhá-lo perguntou-lhe se no seu Céu havia anjos. Foi a primeira vez que, ao olhá-lo, a Humanidade de todos os demais se perguntou se não seria cego, a expressão imóvel, os olhos indiferentes. Era, porém, uma Humanidade pequena em número e escassa de subtilezas.
Naquele lugar, a Humanidade era o nome de uma ala das enfermarias onde se arrecadavam os mais mansos, que podiam passear a sua indiferença pelos corredores desertos do antigo convento, à espera de alguma coisa que tivessem oportunidade de evitar.
Era um local de indivíduos que tinham deixado de ser pessoas. Conheciam-se pelo número da cama, antecedido pela letra da camarata. Os números mais altos eram os dos mais velhos, porque ali a lotação era contada e quando se chegava a um percebia-se que não podia haver zero.
Havia noites em que o silêncio fazia medo, dias em que a algazarra dava vontade de gritar. Uma dia um deles suicidou-se e por umas semanas a Humanidade ficou triste só porque faltava um número e ninguém sabia quem o substituiria para que o zero não surgisse e assim o horror do vazio.
Talvez tivesse sido o oblíquo do sol e o reflexo da sua luz num instante do imenso vitral. O arco-íris, soma refractada de uma luz branca que é calor, projectava-se, inevitável, na parede em frente do refeitório, onde as bocas ruminantes mesmo até as desdentadas almoçavam sopa de couves tristes e uns peixes em escabeche que só um mar ignoto e ressequido de salinidade poderia ter albergado, mumificando-os para os tornar de vida em alimento rude. E Deus sorriu, uivando como um cão.
Naquele dia começou esta história. Aquele sorriso feito de animalidade e assim uma ternura feita só de carinho sem mais razão, momento inaugural da felicidade entre os homens, era a devolução da paz que, como um fogo primitivo, aos homens tivesse sido roubado.
Alumiando-se pelas noites de eucaristia pagã, palmilhando os corredores e seu labirinto, enclavinhando nas mãos tochas fumegantes, velas cuja luminosidade bruxuleava mesmo no segundo em que, incertas, quase se lhes fenecia o sopro de luz, indecisas acendalhas, havia homens que saíam de lugares desconhecidos caminhando errantes para parte nenhuma, celebrando a comunhão da substância num corpo sacrificado. Um pacto de silêncio, as bocas contidas, um crime feito expiação de todos os outros crimes por expiar.
Agora, porém, contagiados pelo riso, como crianças para quem a irrequietude é contentamento, agitando no interior dos seus corpos incumpridos o rugir da existência, vogavam pela terra da ilusão, mãe da arte de marear.
João de Deus contou-lhes então uma história de um homem que era marinheiro e encontrou Cristo, filho de pescador.
Tinha sido tudo numa praia, praia como todas as praias arenosas, ainda que sem banhistas, praia de gaivotas sonolentas e um mar feito só rebentação e rochas descarnadas, em que tudo acontece. Naquele dia era Inverno. A Natureza proporcionava-se, fêmea.
Penso que o Cristo já não existe e a praia talvez já nem esteja assim. Ficou, porém uma ideia, precisamente a génese deste livro de ideias de quem receou um livro sobre sentimentos. Mesmo uma história fictícia de sentimentos reais».
12/01/10
A Nau e o Graal, de Dalila Pereira da Costa
Há autores que, trepando às árvores da sabedoria, conseguem escapar à voragem dos predadores da cultura alheia, salvando as suas obras do saque dos sacrílegos rapinantes da reflexão dos outros.
Lembro o espoliado Pessoa, citado até às náuseas, palhaço hoje de tantas instalações e outras medíocres representações, um mundo ainda por se saber.
Míseros todos quantos passam a moda, autores que citados se tornam sinal de distinção cultural, pedra-de-armas de aristocracia literária, senha e santo para o clube exclusivo daqueles cuja opinião conta.
Pobres dos possuídos e dos apropriados, dos transcritos, dos bibliografados.
Pensei nisso ao ir buscar à estante um livro da Dalila Lello Pereira da Costa. «Uma mística ecuménica» lhe chamaram já com carinho. A sua obra está impregnada de beatitude e de uma exaltação mansa. Passeia-se por ela como por um jardim de delícias amorosas, um carmelo de rosáceas purificadoras.
Num qualquer instante surge o milagre extático da consubstanciação. O acto de mistério é o abraço do divino. «Buda então é vencido pela saudade», o eterno retorno perde, liberto, a maldição da fatalidade.
Originária do Céu, Dalila surgiu no Douro. Uma voz subtil fala através de si, ecoando pelos lugares insólitos de uma corografia sagrada palavras humanas que são símbolos angélicos antes de serem conceitos terrenos e de que só temos uma ambígua noção adivinhando-lhe o sentido oculto que esconde dos olhos o aparente exposto.
Lê-la é uma iniciação. A alma suspende-se.
Quando eu li Eric Rohmer
Soube esta madrugada que morreu o Eric Rohmer. Há pessoas que, cinéfilas, falarão sobre todos os seus filmes com propriedade e sobretudo com pormenor. Eu lembro-me do Ma Nuit Chez Maud, porque o vi em 1969 numa sala-estúdio e porque nessa altura o cinema era parte do crescimento da alma e do engrandecimento dos sentidos, quando não era um lugar de militância cívica. Tudo isso foi antes de me ter saturado do intelectualismo de algum cinema francês, a sua retórica palavrosa e inconsequente, rendido irreversivelmente à estética da cinematografia italiana.
E lembro-me também porque vi, numa sala de cinema que já fechou, a do Nimas, aqui na 5 de Outubro, L'Agent Triple, um dos seus menos conhecidos filmes, rodado em 2004, e isso ter acontecido em circunstâncias excepcionais.
Na altura escrevia um livro, a biografia de uma russa branca chamada Nathalie Sergueiew, nascida em São Petersburgo em 1912 e que faleceria nos Estados Unidos da América em 1950, depois de uma vida notável. Alguém me avisou que estava em exibição um filme em Lisboa que tinha ingredientes que me poderiam interessar. E estava.
Sucede que para peparar esse livro eu tinha estado em Paris a estudar o ambiente dos russo brancos no exílio, as suas organizações políticas e sociais, as tentativas de infiltração da União Soviética a partir da Finlândia, a luta que, nas condições de maior penúria, todos levavam a cabo para salvar l'honnneur de la Russie, como se exprimiu tão bem Andrei Korliakov. Em Zurique tinha-me encontrado com alguém que me pusera em contacto com a vida do general Dénikin, do general Wrangel. Tinha reconstituído os raptos dos generais Kutiepov e Miller, dirigentes das ROV's, a organização dos antigos oficiais czaristas, perpetrados por um comando da OGPU, o serviço secreto antecessor do KGB, os mesmos que assassinariam Lev Trotski no México.
Sucede que para peparar esse livro eu tinha estado em Paris a estudar o ambiente dos russo brancos no exílio, as suas organizações políticas e sociais, as tentativas de infiltração da União Soviética a partir da Finlândia, a luta que, nas condições de maior penúria, todos levavam a cabo para salvar l'honnneur de la Russie, como se exprimiu tão bem Andrei Korliakov. Em Zurique tinha-me encontrado com alguém que me pusera em contacto com a vida do general Dénikin, do general Wrangel. Tinha reconstituído os raptos dos generais Kutiepov e Miller, dirigentes das ROV's, a organização dos antigos oficiais czaristas, perpetrados por um comando da OGPU, o serviço secreto antecessor do KGB, os mesmos que assassinariam Lev Trotski no México.
Imagine-se-me agora sentado no cinema a ver na tela, passo a passo, aquilo que eu conhecia por ter reconstituído com base nos documentos, toda a trama a do rapto do general Evgeny Karlovitch Miller, o envolvimento do general Nikolai Skobline na armadilha, o complot com a Alemanha nazi. Imagine-se mais, o poder notar, ao ver o filme, as pequenas diferenças que na ficção havia relativamente à realidade. Imagine-se ver na tela um capítulo o meu livro ainda por publicar, assinado por Eric Rohmer.
Esta madrugada ele morreu. E o meu livro, que é um dos livros que considero melhores, está quase morto. Um dia destes entrego-o a um alfarrabista ou vendo o papel a peso. A tristeza é a mesma que sinto agora que estou a escrever. Tudo morre.
11/01/10
Abertos à leitura
Para além deste, escrevo em outros blogs: um dedicado à Clarice Lispector, outro à Irene Lisboa, enfim um terceiro sobre a Maria Ondina Braga. Ah! E um outro com o meu nome que durante uns anos foi alimentado com «leads» do que eu escrevia numa pequena plantação de outros blogs que, como cogumelos, foram nascendo, alguns a esmo, uns quantos de curta duração, todos parasitas dessa ânsia de dizer. Esses estão suspensos, à espera de melhor ver.
Essa proliferação de escrita levou a que surgisse uma exposição intimista nem sempre desejável e que se prestou não sei quantas vezes a vários equívocos. Acontece o mesmo quando se escrevem livros de ficção: o leitor toma-os frequentemente como se fossem auto-biografias disfarçadas. Na blogoesfera o efeito é, porém, mais potente.
Quando não eram escritos de intimidade devassável e adulterável, alguns desses blogs tinham ingénuos e pouco conseguidos objectivos de intervenção cívica, ou na área social e política ou na área jurídica, por causa da minha profissão. Sucede o mesmo a tantos que julgam que transformam o mundo a partir da blogoesfera quando por vezes alcançam apenas um aceno de concordância dos já convencidos. A blogoesfera amplifica essa vaidade de opinar, permitindo a cada um a vaidade de ser o director e o jornalista - e quantas vezes o solitário leitor - do seu próprio jornal.
Tudo visto achei num certo momento que era bom parar. A verdade é que o meu mundo mudara e eu mudara-me por causa disso para a casa das letras, com um blog que é este onde se fala de livros e de ofícios correlativos à escrita. Dei-lhe o nome que é parte do meu nome e que já usei como pseudónimo literário. Para além de espaço de leitor, o blog trata do que a cultura assume como fazendo parte da família.
Viciado em ler e iniciado na arte de escrever, dei comigo agora a ser editor, que é uma forma de se conseguir que surjam os livros de que se gosta. Tudo isso, que é o meu presente e será talvez o meu futuro anda à solta por aqui.
Uma só coisa mudei e vim aqui dizê-lo: reabri ontem à leitura os blogs que antes existiam.
A minha ideia ao tê-los encerrado foi virar a página desse tempo e recolhê-los para o interior ignoto como quem corre gelosias. Só que a menção que aparecia a quem tentava aceder-lhes era que doravante cada um daqueles blogs só podia ser consultado por leitores convidados. Ora essa ideia elitista e por isso selectiva não correspondia ao meu pensamento nem ao meu sentimento. Mas era o que as pessoas retinham com toda a sorte de confusões. Como diria o o outro «um certo mau aspecto».
Pronto aí está tudo de volta, taipais soerguidos.
Mau grado algumas cartas que recebi, continuo a pensar que a minha intervenção cívica não justifica em resultados que possa ter a pretensão vaidosa de imaginá-la útil. Quanto às crónicas do quotidiano prefiro abster-me. Não tenho segredos, quero ter é sossego. O que for ficção, ficcionar-se-á. Fiz publicar um romance estou a escrever outro.
Em suma os blogs agora legíveis ficam no estado em que estavam, cometas imóveis num espaço em que o tempo parou.
Em suma os blogs agora legíveis ficam no estado em que estavam, cometas imóveis num espaço em que o tempo parou.
P. S. Para mostrar que tudo na vida tem um tempo, ilustro este post com uma fotografia. É a Avenida 5 de Outubro aqui há uns tempos atrás. Imagine-se que o cavalo pensava que a carroça, que era inevitável para ele mais aos que nela se alapavam, era uma exigência do futuro!
10/01/10
Cicatriz do Ar, de Jorge Fallorca
O seu nome na rádio era já só uma reminiscência. Encontrei, porém, o livro que se chama A Cicatriz do Ar. Penso que esse é o nome de um capítulo de versos, que acabou por dar nome à obra. Os primeiros textos são dedicados à escrita e ao acto de escrever. «Às vezes acho que escrever é um acto solitário; outras, considero-o como o único momento em que se não está só», diz Jorge Fallorca, poeta e tradutor, em irremediável vagabundagem pelos territórios luminosos do Sul.
Li o livro todo. É pequeno. Foi impresso numa tiragem de duzentos exemplares porque lê-se pouco, diria, em Portugal.
Ficou-me de memória este excerto: «No metro uma miúda estrangeira serra as cordas do violino à medida das suas necessidades». Acompanha-a um outra, pedinte de moedas, que invectiva os passageiros: «estende-lhe um sorriso que termina num pequeno gorro, onde as moedas se recusam a repousar, alheias ao esforço da violinista em domesticar os sons (...)»
08/01/10
A loucura de endireitar o mundo
Quando não se lê folheia-se. Na televisão zapinga-se [e porque é a palavra não haverá de existir? ou terei de dizer zapa-se?], na blogoesfera clica-se.
Em passeio madrugador fui parar aqui. O homem foi um daqueles que achava que com a moralidade e a polícia conseguia endireitar o mundo.
Permito-me citar a seu respeito este excerto ilustrativo, retirado do blog visistado: «José Daniel nasceu em Colmeias – Leiria a 31de Outubro de 1757, donde cedo saiu. Chega a Lisboa aos dois anos de idade, onde falecerá a 7 de Outubro de 1832. Sob o pseudónimo de Josino Leiriense, que usava nas tertúlias da Arcádia Lusitana, Rodrigues da Costa teve uma vida de notoriedade social e intelectual, testemunhadas em várias obras literárias que publicou, quase sempre sob a forma de folhetos, que se vendiam como “livros de cordel”. Foi promovido a Major da Legião Nacional do Paço da Rainha. Gozando da protecção do Intendente-Geral Pina Manique empenhado em manter a ordem social e reprimindo os ideais iluministas da Revolução Francesa».
O mundo que ele combateu triunfou. Ficaram amarelecidos os folhetos combativos que hoje são raridade bibliófila de coleccionador. Um dia será tudo pó.
07/01/10
A Mãe, de Brecht
A Mãe de Bertolt Brecht. Sem margem para ambiguidade, sem espaço para subtileza, sem escapatória para os sem partido. É o território da luta e da causa, do sacrifício e da bandeira.
É sobre a crença na virtude da mudança: o seguro não é seguro, como está não ficará.
Glorificação do proletariado, legitimação da revolução blochequive. Passada como testemunho, mobiliza. «A minha avó também esteve presa», dizia cá fora um jovem, explicando-se a uma extasiada companhia.
Vi-a representada pela Companhia de Teatro de Almada. No fim, a apoteose da militância, do trabalho, o triunfo da camaradagem.
Na sala não havia um lugar vazio. Se me perguntassem que me acompanhava diria: a consciência histórica do operariado, essa força universal em armas.
«O hoje nascerá do jamais».
04/01/10
O fim da macacada
Segue e persegue. Não tinha lido nunca mas faz que lê. Não conhecia mas parece que passou a conhecer. Copia, cabula, finge. A ideia é parecer.
A net ajuda porque permite o picanço. A ignorância disfarça-se, a familiaridade simula-se. Chama-se copy paste.
Depois é só gozar das delícias do faz de conta. Os ingénuos acreditam, porque não notam o papel químico. É o domínio de um animal internáutico da família do macaco de imitação. Símeos antropóides.
O Intérprete Grego, de Arthur Conan Doyle
O Intérprete Grego não é um grande conto de Arthur Conan Doyle nem nele Sherlock Holmes tem uma grande intervenção.Há, porém, uma surpresa. O lendário detective tem um irmão. Mycroft Holmes. «Era muito mais alto e corpulento do que Sherlock. O seu corpo era realmente volumoso, mas o rosto, embora maciço, mantinha qualquer coisa da agudeza de expressão que tornava tão notável o de seu irmão. Os olhos, de um cinzento agudo, particularmente leve, pareciam conservar sempre aquela aparência longínqua e introspectiva que eu observava em Sherlock quando exercia os seus plenos poderes».
Bom, deixemos a diferença fisionómica e de corpulência. Consegui encontrar uma imagem sua, tal como fantasiado por Sidney Paget. Quem quiser saber mais pode ir aqui ou mais resumidamente aqui.
Há só uma coisa que me fez confusão e vim aqui escrever. É a frase «esperava ver-te a semana passada para me falares sobre aquele caso de Manor House», diz Mycroft a Sherlock quando se encontram.
É que se o médico Watson era o companheiro íntimo da sua misógena e celibatária pessoa, partilhando a mesma casa alugada e sendo confidente de todos os pequenos mistérios e todos os momentos do quotidiano, como é que nunca se teria apercebido das visitas de Sherlock ao Clube Diógenes, abrigo de Mycroft, lugar ambíguo de concentração dos acanhados e dos misantropos, «que abriga os homens mais insociáveis e menos gregários da cidade», sítio «onde são proibidas as conversas, seja em que caso for, salvo na Sala dos Estranhos» e onde, claro, não há perfume de mulher.
03/01/10
O pícaro
Literatura pícara no sentido próprio do termo. Quem é o pícaro di-lo o prefaciador Ricardo de Saavedra.
Personagem «de baixa extracção social, vagabundo, burlão, farsante e um pouco ridículo, servidor de vários amos e ofícios», «o seu objectivo é subsistir», «é o anti-herói, comprometido em alimentar a sátira social e a ironia», «autónomo, individualista, ardiloso, despreza as leis do Estado e apenas tem em vista os seus somíticos interesses», «mistura de estóico e de cínico».
São assim os contos de José Manuel Couto Viana., no livro Que é que tenho Maria Arnalda?, a que esta manhã voltei para mais umas folhas lidas.
Abre com o provocador título «canta puta de merda!», que terminará, após acto de justiça social, de que não desdenharia o mais apiedado neo-realismo, em «toca, cabrão de merda!», segue, pé cá no vernáculo, pé lá na cinzelada arte, com o Nélinho «a apanhar às mãozadas, dos ferros da bicicleta, do boné do bagageiro, do avental, das nádegas e peito da sopeira, grossos bocados de pudim que metia à boca, com gozo e avidez, gritando: - É bom carago! É doce!».
É uma escrita por sobre a sordidez, a boçalidade trazida à estética, um mundo rude ainda que verdadeiro, como o do «Lopes da Conservatória» que no alcouce da «Rita Rebola», casa pública que «abria as portas à concupiscência, à lascívia, à luxúria, ao delírio da carne», segundo as confidências das raparigas «de vida quilhada» sobre as taras do clientes, só se excitava quando lhe metiam «um lápis no rabo» que, transformado o lugar dos seus encontros agora em novo antro, após mão decoradora, num «seralho oriental, com a profusão de reposteiros, tapetes felpudos, o fofo acetinado das almofadas, o espelho pendurado no texto sur un lit carré», esse mesmo «deu um uivo selvático quando, ao pedir o lápis das erecções, a Antónia lhe entregou uma caneta de tinta permanente Parker».
É clássica resistência à mudança, mesmo no trágico lupanar.
O Mercado das Letras
Às vezes é nos lugares mais improváveis que se encontram as referências mais insólitas.
Comprei ontem o livro Autores, Editores e Leitores, escrito pelo Francisco Vale, fundador da Relógio de Água.
Tenho uma especial predilecção por livros escritos por quem está no mundo dos livros. Anda por aí por casa uma pequena biografia do Serafim Ferreira, li com gosto a história penosa do Alçada Baptista e suas desventuras no mundo editorial. Não consigo deixar de gostar da Conta Corrente do Vergílio Ferreira esse diário do cárcere que era a sua vida de escritor.
Só desprezo os arrogantes, os grandiloquentes no verbo e ostensivos na pose, os que escrevem livros para mostrar a imensidão da sua erudição, escrita de desamor e de ressabiamento. Como gosto de ler o Eugénio Lisboa a trazer-nos com desvelo a vida de quem escreveu através do que foi escrito!
Voltando ao Francisco Vale. Não é uma biografia são apontamentos daquilo de que fez vida. Dispersos porque a vida não é sistemática.
E que me ficou nesta manhã que acordou a chover desapiedadamente? Ver o Alçada Baptisa, falido financeiramente o seu projecto editorial «que teve de pagar quase até ao fim da vida os prejuízos, através de descontos no seu ordenado», o Wittgenstein «que ofereceu a fortuna aos amigos ricos para que não houvesse mais pobres corrompidos», que «a nossa lei de direito de autor estipula que, na ausência de especificação, a vigência de contrato é de 25 anos e os direitos autorais de 25 por cento».
Não sei se ria se chore. Claro que o livro ensina: falando da muliplicidade de edições diz: «há mesmo grupos editoriais qu praticam esses excesso de produção para asfixiar concorrentes»; referindo-se aos livreiros acrescenta: «por sua vez os livreiros tentam impor condições que dificultam a vida às editoras mais exigentes, aumentando as "margens", exigindo pagamento de espaço e montras, cobrando a publicidade nas suas brochuras duas vezes mais que a New Yorker e procedendo às devoluções num prazo que não permite que a crítica possa ter efeito nas vendas»; reportando-se aos críticos revela: «claro que não são raros os críticos que recorrem a estratégias que implicam perda de rigor, sobretudo em "início de carreira", como a de escolherem um autor consagrado para se distinguirem, reduzindo a pó ou declarando baudelairianamente paixão por certos escritores»; tratando, enfim, do mercado dos livros traduzidos ilustra: «por cada exemplar vendido, as principais livrarias recebem pelo menos 38 por cento, o distribuidor 22 por cento, o autor 8 por cento, o tradutor 16 por cento e o editor 16 por cento. Se a tiragem se esgotar a percentagem do tradutor desce para 12 por cento».
P. S. nº 1: ao menos na página 46 encontro bálsamo para estas chagas de mendigos literários, pedintes à porta do mercado das letras: «A História Universal da Infâmia de Jorge Luís Borges poderia acrescentar à sua longa lista também a infâmia que lhe sucedeu, pois vendeu dezoito exemplares quando surgiu na Argentina».
P. S. n.º 2: a fotografia «piquei-a» do blog magnífico que se chama O Silêncio dos Livros e está aqui.
02/01/10
Dans leur sauce
Convenci-me! A culinária é arte para quem ler o Pantagruel ou a Dona Maria de Lurdes Modesto. Ou mesmo a Cozinha Económica da margarina Vaqueiro. Cozinha é aventura para quem siga livros de receitas e se arrisque para além do «q.b.». Mas cozinha pode ser acaso e inspiração no acto.
Compram-se potas em tiras. Congeladas servem. Descongelam-se no micro-ondas. Vêm molhadas. Enxaguam-se em papel absorvente. Do que se vende em rolos de cozinhas. Tipo papel higiénico em formato A3 e com melhor picotado.
Frigideira com azeite. Deixa-se ferver. Mete-se o sal no azeite para que ferva tudo melhor. Sal frito? Conheciam? Nem eu até ter feito.
Jogam-se as potas ao banho fervente, caldeirão infernal, Belzebu na cozinha à solta.
À medida que fritam prensam-se. Com uma colher de pau. Para não riscar o fundo do tacho...ora!
E prensam-se porquê? Para largarem o seu conteúdo líquido, a humidade. São potas húmidas, potas como devem ser.
Nesta altura já a confusão é total. A fritura passou a cozedura. As potas volteiam-se «dans leur sauce», uma mistura branca e esverdeada.
Então joga-se dois esguichos nas potas. De vinagre balsâmico.
Mexe-se em tudo. Ficam côr de molho inglês. Ou de soja do restaurante japonês.
Corta-se em cubos.
Acompanha com risotto al pomodoro. Vende-se pré-feito, atenção. Ninguém nota a diferença.
Duvida? Pois foi o meu jantar e dos meus. E nisso, gaba-te cesto, sou melhor que este marmelo aqui.
P. S. Eu disse «marmelo»? Qual marmelo! Nabo!
P. S. Eu disse «marmelo»? Qual marmelo! Nabo!
A nostalgia da existência
Senti ao ler porque tinha sentido ao ter vivido. Não! Digo a verdade: senti mais, lendo, devido ao modo arrebatado como está escrito. Stefan Zweig tem aquele dom de desventrar aquilo sobre que escreve. As biografias que escreveu são a revivescência do que nunca morre, um forma de Fénix ser através da Literatura.
Tinha encontrado num alfarrabista de rua os «Encontros». Editados pela Livraria Civilização em 1938. Uma tiragem encadernada, em oitavo.
Esta manhã estive com a sua conferência sobre «o significado e a beleza dos autógrafos», proferida a convite do jornal britânico The Sunday Times em 1935. O jornal já não é o que era porque o mundo mudou.
Extasiado sobre a carta que Beethoven escreveria já nos últimos dias da vida, esgotado, e disso já incapaz, que com esforço sobre-humano conseguiu a custo assinar, dirigindo-a à London Philharmonic Society, carta em que, respondendo ao convite para ali apresentar as suas obras, apenas já diria «sinto-me tão cansado, já nada mais posso dizer», diz Zweig, esmagado ante a assinatura firmada em «titânico esforço, os seus dedos trémulos, inermes»: «não foi só Beethoven quem traçou esta palavra, - aqui a morte escrevia também».
O genial compositor alemão, essa «garra leonina» era naquele instante «o moribundo que não sabe que é forçoso morrer». A alegria de viver possuía-o, a morte tornara-se o instante de nostalgia da existência.
01/01/10
O génio
O canal franco-alemão Arte está a passar filmes de Charlie Chaplin. Muitas pessoas já viram muitas vezes os filmes de Chaplin. Muitas pessoas julgam ter visto os seus filmes.
São, é claro, momentos de génio na arte de representar, instantes no modo de fazer rir, a mestria do burlesco. Mas é a ternura, a bondade, a fome de ser amado, o que muitos não sabem que existe, do que tantos têm necessidade que exista, o tango do filme City Lights.
31/12/09
A Lua nos Céus
Redonda, cheia, prometedora de um ano novo repleto de coisas boas, a lua sobe, impondo-se ao céu que a recebe. Escondiam-na nuvens de chuva, uma chuva purificadora do ar, fecundadora da terra.
Na terra os campos estão gelados. Na cidade as pessoas apressam-se porque hoje fecha tudo mais cedo e há em muitas casas passas e champanhe e meia-noite. E há sair de casa para o fogo de artifício da esperança.
Talvez haja um livro onde isto seja descrito com melhor propriedade e mais nítido sentimento. Um livro que eu pudesse ler, sobre uma lua que povoasse os céus, anunciando um Bom Ano.
30/12/09
Salvo pelo Governo!
Emenda «perevenidos» para «prevenidos» avisou ela, amiga. E eu mil vezes calino, dez mil vezes trapalhão, cem mil vezes disléxico, um milhão de vezes distraído, dez milhões de vezes apressado, lá fui emendar. Antes que os sonhados leitores, os apetecidos leitores que quase não há, dessem por ela. Ela a asneira, troca de dedos vinda de um cérebro já virado do avesso.
A coisa em si, como diria o Kant, a coisa em si, digo eu, está a ganhar foros de persistência, como aquelas dores físicas que resistem à massagem ou aquelas dores da alma que não há ombro amigo que faça dissipar.
Ora eu esta manhã dei conta de que havia um Acordo Ortográfico que ia entrar em vigor. Foi ao ler o jornal, pela hora do pequeno-almoço. E há jornais, como o Público que se recusam militantemente a aplicar. E há escritores como o Gonçalo M. Tavares que vão escrever como sempe escreveram e os revisores se emendaram, olha, emendaram.
Pois para mim eis a salvação. Passo a escrever aflicção com dois cc's, como sempre adorei fazer para dizer que estou mesmo aflito, perú com acento no ú para dar mais enfâse ao Natal, que vejo celebrar com a matança do glu-glu. Assim ninguém dirá nada. Quando hesitar aos sessenta anos sobre devo escrever vêm ou vêem, ou havê-lo-à em alternativa a havê-lo-á, tanto faz.
É que o Acordo é optativo. Cada um faz com ele que lhe dá na real gana. É uma lei para quem quer.
É como os Governos do País. Foi da cabeça deles que veio esta. Deles e dos políticos da comunidade dos países que falam português.
E eu que me estava a tornar um libertário em política e um anarca em ortografia aqui estou, fiel cidadão e sofrível contribuinte, mau escrevinhador, a deixar o meu obrigado a todos os que na política me salvaram: muinto oubrigado a toudos purque eu axo quisto çadebe escrever cuma çalê. E o resto são lérias...
29/12/09
O Tombo
Envolto no labirinto da Torre do Tombo a trabalhar num outro livro, desta vez com o aguilhão do prazo já prorrogado. Muitos dos blogs dedicados a livros estão a dormitar. Muita gente aproveitou para tirar férias. Férias da blogoesfera, imagina-se. Pois faço o mesmo. Já ontem não escrevi. Volto amanhã com o livro mais adiantado. Arrancado aos arquivos, é uma história de uma memória ambígua. Presos e mais presos, os prevenidos e os ingénuos úteis. Gente que acreditava e gente inacreditável. Depois digo o que é. Para já estou na fase ainda que nem eu sei.
O dia foi duro, a roer papel. Como um rato. No labirinto.
27/12/09
O Livro da Casa, de Fernando Cabrita
Li-o e de repente surgiu-me o nome: Ezra Pound. Hesitei, mas a musicalidade era essa, familiar, guerreira mesmo quando e pacífica, idêntica a virulência torrencial dos versos, o grito e o clamor em estrofes inesperadas. Encontrei-o então na página 82, o «Poema Triste para Ezra Pound», o poeta maior enjaulado como ficou na memória punitiva, conspurcado pela sua adesão fascista, pecado político a obnubilar o génio poético, louco animal rude «ó poeta velho, ó lobo triste/soldade de penas vãs e vagas». Reconheci-os ambos o autor e o seu estro.
Falo do livro de poemas de Fernando Cabrita. Um Canto em múltiplos cantares.
Sabia-o Advogado, olhanense, escritor, mas não o sabia pintor e é dele o quadro que engradece a capa. Sabia-o poeta mas hoje senti-o poeta. A um artista nenhuma Arte é indiferente. Escreve-se na tela escorrem cores desta escrita.
São versos entre si diferentes mas em torno de uma mesma casa, do homem que «percebeu então que construíra a casa - e que a casa, entretanto, o construira a ele». São versos de uma «casa sem nome», versos marítimos de grumete velho devolvido ao mar inicial «velho camarada». Versos de contemplação amorosa, íntima, casta no impudor de ousar amar.
Há nesta poesia um anseio de lar, poemas de um exército derrotado pela longa viagem imperial, saudades de marinheiros porque «breve foi a casa que o temporal varreu», a febre ultramarina dos arqueiros «aguardando uma voz que os conduza a casa. Sempre a casa, a primeira, a segunda, a última casa.
São poemas a Sul, como «o voo livre das âncoras sepultadas nos abismos», poemas de uma janela para a intemporalidade de onde se pressente o mar «pelo cheiro a nevoeiro e as rochas molhadas», e «as recordações ténues de sons e livros e casas e beijos e coisas doces».
Não sou crítico literário porque escrevo e estou contente com o que escrevo e há sempre uma palavra amável que diga de quem se atreve a escrever, a quem arrisca nome, cara, expõe aos públicos as entranhas do sentimentos, o coração da sensibilidade. Sem inveja, sem rancor, sem maldade, com amizade.
Tinha tentado ler há dias o livro num dia de distração. Não se faz um tal crime a uma obra como esta. Hoje o dia deu-me uma nesga de oportunidade. A estupidez organizada de que faço vida impediu-me de ir ao lançamento.
De todos os versos permitam que escolha um, não o de Macias «Macias, o sem lar/mas cujo tecto era feito de todos os tectos/e o colchão era toda a planície/ e o alimento era todo o manjar e todos os manjares/e o amor era o amor que todo o mundo tivesse para dar», que é um momento de beleza dorida. Não o de Macias, apesar de me apetecer lê-lo em cada palavra e soletrar-lhe cada letra. Mas escolho a fala derradeira de «Enrique de Borgonha, no leito de morte em Astorga» quando «fala ao pequeno Afonso», seu filho: «Agora que os corcéis da morte cavalgam já/no meu encalço, e sinto os seus cascos/trotando em minha alma» ele, Enrique, «romeiro de San Jacob e lidador de guerras e conquistas» está em paz: «Nesta hora, amigos e inimigos têm já em mim//o mesmo rosto/e não caem neles ódios ou rancores, amizades ou estimas/tão só a rude melancolia de saber que já na morte me esperam/e fraternalmente nela nos reconheceremos/como no regaço de uma mãe antiga».
Chora-se ao ler isto. «Doma as perdas e os fracassos, e bem assim os triunfos/como um cavalo que te leve para onde tu queres ir/e não para onde ele queira./Sê dono sempre dos teus mesmos passos/e do teu próprio caminho».
Obrigado ao dia que me permitiu ler, obrigado a quem escreveu. Parabéns à Gente Singular, editores.
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