Li aqui. Já tinha lido, talvez no livro de saudade que o Francisco Espadinha da Presença lhe dedicou, talvez no que o Bénard da Costa escreveu sobre a sua geração. «Também do António Alçada Baptista! Depois do encerramento da Moraes Editora uma senhora interpelou-o com alguma vivacidade dizendo-lhe: "Que pena! O senhor não devia deixar acabar assim a sua Editora! O seu trabalho foi muito importante. Devia fazer tudo para continuar. O senhor tinha obrigação de continuar, blá, blá..." E o António com aquela calma proverbial que o caracterizava perguntou à senhora: diga-me lá quantos livros nossos comprou? E ela disse: "nenhum"! "Pois é...também foi por isso que nós encerrámos"...».
21/12/09
20/12/09
Um conto de Natal
E de repente um homem nota que é Natal. E um homem sente que há histórias para contar sobre o espírito de Natal. Porque há Natal e o espírito de Natal. E o dia de Natal. E a véspera de Natal.
Há um dia em que um homem pensa como vai sobreviver a esses dias sem entristecer demais.
Um homem pensa se com bacalhau consegue simular um jantar contente, com peru fantasiar um almoço alegre, se com filhós chega a adormecer, adocicando-se feliz, ao lado do Menino Jesus.
De repente um homem embebeda-se nocturnamente com canções que são nostalgias solitárias de infância e tem desejos de carinho no sapatinho e um presépio com musgo que seja uma alegoria de um lar.
Esta semana vai ser a véspera e o dia e o dia depois. São lágrimas do tempo que foi e da vida que podia ter sido.
Era uma vez um rapazinho que ia a 24 buscar sua mãe a um medíocre emprego para virem para casa consoar silêncio. Hoje estão ambos velhos, ambos separados.
Ao repicar dos sinos sucedia então o bater dos talheres no fundo do prato. No dia seguinte vinham para a rua, para ver se o dia acabava mais depressa. 26 salvava-os da agonia.
A história repete-se menos o emprego, menos os sinos, resta apenas o dia 26 e com ele a esperança de que haja um mundo onde se salvem.
Se houvesse um Deus querido e meigo e amigo de quem sofre não tinha nascido. Vivia apenas eternamente, sempre menino, sempre a sonhar a manhã de Natal. Dormia-se então ansiando a felicidade matinal do dia das surpresas. Naquele tempo eu gostaria de ter tido uma bicicleta. Nunca ma deram, com medo que eu caísse. Tinham razão.
Um dia haverá o Natal para os outros. Lentamente ela chega, uma vida já só feita de memória.
O preço do incomum
Foi assim. Eu precisava de comprar um carro. E achava que precisava de um automóvel confortável porque viajava muito e de uma viatura segura porque viajava para longe.
Mas não queria nenhuma das marcas convencionais que certas pessoas compram, nem os modelos que determinadas pessoas têm, porque não queria uma coisa que fosse parecida com o que certas e determinadas pessoas se parecem.
Foi aí que o vendedor me disse «um carro destes é daqueles que ninguém compra!».
Rendi-me ao argumento. Se me guiasse pelo senso comum perguntaria aos meus tostões: «mas se ninguém compra, porque é que hei-de ser eu a comprar?». Mas foi ao contrário em murmúrio com os meus botões: «ora se ninguém compra, cá está o carro que me apetece ter».
Feliz pela individualidade, contente pela diferença, alegre pela ousadia paguei ontem a factura da não normalidade, de não trivialidade, o preço do incomum. A Saab fechou, lia-se aqui. Goraram-se as negociações que lhe permitiram a sobrevivência.
Um destes dias tenho um problema para resolver. Não o de tentar ver-me livre do meu sonho, como os que atiram gatinhos a afogar para se desembaraçar da incómoda ninhada. Sim de me convencer que aos sessenta anos há coisas que acabam. De vez. Como a Saab.
«Você está a guiar um carro feito por uma empresa que fabrica aviões». Era o lema. Ontem entrei em perda, o altímetro silvando em descida furibunda, o hélice rosnando em bandeira, já sem airelons que me valessem. Em frente, a rude montanha do destino a esperar-me, tremenda, eu agachado no cockpit da minha carcaça humana, a manche da vida enclavinhada na mão, incapaz de voltarmos a ter o nariz virado para o céu. Mayday, mayday. Que Deus nos ajude.
Desculpem, eu sei que este blog é dedicado a livros. Este post também. No espaçoso porta-bagagens do meu Saab ainda estão caixotes com livros, as minhas maletas para a travessia, como aquele vagabundo que numa sacola transportava, imprevisível mercadoria, uma pesada tartaruga. Vem num livro do Miguel Rojas.
19/12/09
Sempre a abrir
«De que música gostas?», perguntou. «De toda!», respondi. Ter nascido em África meteu-me ritmo no corpo, viver na Europa ideias na cabeça. Viver no planeta Terra deu-me a noção da precariedade, vogar na Galáxia por onde passa a Via Láctea ungiu-me com a mística da insignificância.
Poeira no cosmos, a música mefística dos Zarragorth e outra mais, necrófila, sempre a abrir o reino das trevas, a noite da luz, eis a companhia para a travessia subterrânea para mais um ano. Abjuro te, spiritus nequissime, per Deum omnipotentem..
Escrever, de Vergílio Ferreira
Quando morreu, Vergílio Ferreira deixou um livro quase completo, um volume da sua série de textos antes publicados, que se editaram sob o título Espaço do Invisível, e um outro, ainda embrionário, em cinquenta e seis folhas soltas, para o que projectou várias alternativas de título.
A Bertrand editou-o em 2001, sob o cuidado de Hélder Godinho, com o nome Escrever.
Li-o a sublinhá-lo e a anotar à margem o tema, digamos assim, de cada uma dessas reflexões. Muitas têm a ver com a velhice, bastantes com a morte. O autor sabia que iria até ao fim.
São pensamentos daquele para quem «escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve».
Um livro destes corre o risco de desaparecer. As pessoas interessam-se pouco pelo se pensa, menos ainda quando o pensamento é solto, vadio, não sistematizado, em suma, livre.
Vergílio Ferreira escreveu sobre o amor. Um amor triste, impossibilitado. «O amor é um impossível que a possibilitação destrói». É o impossível «que jamais terá fim».
18/12/09
Respeitável Público!
Peço desculpa, é só mais um bocadinho, que o espectáculo continua dentro de momentos. Não é que o urso tenha fugido, ou a bailarina caído do trapézio. É só amarrar as espias da tenda que estavam em vias de rasgar. Estica-se, estica-se... [logo à noite há sessão].
16/12/09
Viva Pantagruel!
Outro dia alguém dizia que os livros de culinária são um oportunismo. «Juntam-se umas fichas de receitas alheias, manda-se imprimir e já está».
Esta noite, talvez por ter feito para o meu jantar truta assada no forno, recheada a bacon e a tomate, com folhas de louro e vinho branco, como aliás manda a lei, permiti-me duvidar. Injusta acusação!
Na hora de vir aqui escrever, estive então a comparar meticulosamente o «Sopas, molhos e doces molhados» de Mathilde Guimarães, senhora de seu nome completo Maria Mathilde Almodovar Feio de Paiva Raposo Guimarães, com as «Receitas da D. Gertrudes» de quem no livro não se adivinha o nome.
Claro que há uma notável diferença. É que eu já comi o resultado das artes culinárias da segunda mas nunca os feitos gastronómicos da primeira. E há outra distinção: é que o livro de D. Gertrudes, cozinheira do «Galito», o magnífico restaurante alentejano ali para os lados da Luz, obra do seu filho, um bancário que se fartou do anatocismo e da usura, nunca ganhou o «Prix Littéraire» por «Diplôme d'honneur» da «Académie Internationale de la Gastronomie».
Mas acaba tudo aí. É que no mais não há um mundo de diferença que o leitor descortine pelos títulos das iguarias. A quem pertencerá o «chouriço albardado»? E o «rim de porco com ovos salteados»? A «sopa de tomate patega»? A «açorda de mariscos»? Dou um doce a quem descobrir.
Espantar-se-á o leitor que eu fale disto. Mas repare que um dia pediram-me para ir apresentar no Museu Militar um livro sobre alimentação castrense. Lá fui e não me saí mal, invocando a minha habilitação própria de comensal do quartel em Mafra e de apreciador das rações de combate que eram distribuídas ao glorioso Exército Português, isto para não falar na lata de atum escorrida para um pão de centeio e emborcado tudo com uma mini Sagres, em plena tasca nos contrafortes da Tapada, a caminho da Ericeira, que soldado em manobras não se faz rogado e a fome quando aperta é de cão.
Não chegando a encartado «gourmet», mas apenas a literato faminto, termino com um texto de Henrique Lara que guarnece o estupendo álbum sobre sopas e outras delícias molhadas da primeira autora: «uma antologia de sopas é um mapa do céu».
E depois digam que um livro de receitas não é um manual de literatura? De se ficar bêbado de tanto ler!
Nubar Gulbenkian
Há um dia em que um leitor se transforma em editor. Isso sucede pela vontade de que leiam o que escreve. Sucede também quando gosta que os outros leiam o que gostou de ler. Eis o caso do livro Pantaraxia. Um nome estranho, um livro insólito, uma iniciativa atrevida.
O livro está carregado de histórias e de ironia snob. Uma delas é a de que Calouste, o pai de Nubar, pagava ao médico em regime de avença mensal. Quando estava doente não pagava. Logicamente. É assim se se ganha saúde e não se perde dinheiro. À atenção do grupo Medis e outros que tais.
15/12/09
Um filho, um livro, uma árvore
Chega-se àquele ponto em que, tal como numa gravidez, o autor já não pode suportar mais a criatura dentro de si. Anseia que ela saia, ganhe vida própria, respire após o grito primal. Depois, tal como no nascimento, é a ânsia nervosa para nos certifiicarmos que tem os dedos todos, nenhuma imperfeição nos lóbulos das orelhas, vê e ouve e a respiração não tem falhas.
Hoje é o dia de se convocarem os amigos para o baptismo do recém-nascido. Dei-lhe vida e agora não é meu nem sou eu. Vagamente parecido talvez. É assim. Mesmo quando são feios, são os mais bonitos do mundo e dói-nos quando dizem mal. Os nossos filhos, os livros que escrevemos.
Falta só plantar uma árvore, acreditando sempre na força do renascer.
14/12/09
Sapatinho de Natal, de Paulo Lowndes Marques
Todos os anos é assim. Abro o envelope, reconheço-lhe o formato, a imagem da capa, a diferença é a cor.
Paulo Lowndes Marques, advogado, homem de cultura, obsequeia assim os seus amigos. Manda imprimir o que chama o seu Sapatinho de Natal, um em oitavo onde compila textos alusivos à quadra e ao espírito que o Natal deveria gerar e outros que são puro divertimento, ironias, recantos de fino humor como esta enviada pelo seu amigo Luís Santos Ferro: sinal de velhice «quando se pretende saber quanto tempo o seu carro durará em vez de saber que velocidade atingirá».
Uma belíssima prenda Natal. Inspirou-se no Christmas Cracker do diplomata e escritor John Julius Norwich (na foto).
Bom dia a todos e boa semana! Obrigado ao autor.
13/12/09
Napumoceno da Silva, por Germano de Almeida
Germano de Almeida é advogado e escritor e acho que não se pergunta se é mais uma coisa do que outra porque é as duas coisas independentemente do momento.
Recusando a deixar entrar na saponária um fato ataviado em cheviote inglês, o Senhor Napumoceno da Silva Arújo «admitiu, porém, que o seu corpo viesse a pedir terra antes de cumpridos os dois anos - e ainda faltavam cerca de 18 meses».
Depois morreu, foi enterrado, naqueles enterros em que «estamos habituados a tocar djosa quem mandób morrê».
O livro é a história do testamento. Mais do que a expressão de sua última vontade, ele é um livro de memórias. Germano de Almeida, advogado e escritor entendeu isso e disso fez um magnífico romance. Fui buscá-lo este começo de manhã à estante, por me lembrar que ele existia.
12/12/09
Mundo quieto y sordo y tan vacio
Uma pessoa perde-se em trabalho, afunda-se mesmo, e depois dá consigo cercado de livros acusadores que deixou de ler, abandonados, livros em que talvez as próprias folhas pareçam mais amarelas, como quando passa muito tempo sobre uma livraria e tudo cresta e as velhas obras nos recordam o tempo em que foram nossas e assim companhia, alegria e consolo de alma.
Ali estava ele, silencioso, sem um queixume, o livro de Rosa Montero, La Loca de la Casa. Marcado na página 52, onde nos separámos, o momento em que ele fala no monstro da criação, aquele que, vogando no mar violento da tua vida de escritor, que «pero luego, antes de que hayas tenido tiempo de haver nada, antes de haber sido capaz de calcular su volumen y su forma, antes de haber podido comprender el sentido de sua mirada taladradora, la prodigiosa bestia se submerge y el mundo queda quieto y sordo y tan vacio».
Memória da escrita
Fui encontrar-me com ele na tipografia. Começou por ser uma dúvida na cabeça, que é uma coisa que surge aquém da ideia, quando sentimos que a existência está muito depois da nossa possibilidade. Um dia transformou-se num atrevimento, que a força de vontade tornou continuação, as folhas a formarem-se, o sentido a tomar conta da narrativa e depois a teimosia das revisões, a releitura. Agora ali estava ele, no mundo industrial, na fábrica, entre óleos e tintas, operários em fato de ganga. Trouxe-o para casa em caixas de papelão.
Gostaria de o ter mostrado esta noite ao céu e às estrelas, apenas para dizer obrigado. Vim aqui fazê-lo. Tenho um livro escrito e a memória de o ter começado a escrever.
11/12/09
09/12/09
Uma errata
Vinham primeiro as provas a granel, depois as já montadas, com o livro já paginado. Emendavam-se umas e as outras. Havia escritores que escreviam os livros nas provas, que faziam dos tipógrafos dactilógrafos. Havia relações de ódio surdo e de amor disfaçado entre a burguesia escritora e o operariado gráfico.
Há ainda pois resiste toda uma nomenclatura e uma simbologia pela qual uns e outros comunicam. A foto é um exemplo.
Um dia um linotipista - coisa que já não há - disse-me, numa nota a lápis na folha de guarda de um livro então em provas: «agradeço ao senhor autor o favor de arranjar outra pessoa para rever o que escreve!». Queria ele dizer, farto de gralhas, emendar o que escreve. Mas acanhou-se, remendiando-se vocabularmente com a modéstia dos que se sentem de baixa condição.
A vida é pouco mais ou menos isto. Há sempre alguém que gostaria que encontrássemos quem nos emendasse nos nossos modos de dizer, os nossos «enros», como escrevi aqui, citando o António Alçada Baptista. Um dia estamos encadernados e só resta imprimirem uma errata: onde se leu «viveu» leia-se «teria vivido».
Obra Poética, de António Osório
Recomeçando leituras. António Osório viu a sua obra agora reunida num volume, espesso, austero. O compilador chamou-lhe «poesia reunida». Mas há prosa, poética pelo modo de escrever, pela sensibilidade subjacente. Tive alguns livros seus, autografados como este, mas que a vida dispersou. Lembro-me da bela edição da Raiz Afectuosa, a mesma que Eugénio Lisboa diz ter lido pela primeira vez em 1973, assim se iniciando na sua obra: «com os anos/a pouco e pouco/a raiz afectuosa/penetrou/no fundo da terra/até chegar/ao mais pequeno/e mais antigo/veio de lágrimas».
Recomeçarei hoje leituras, essa forma de haver mais um livro que eu poderia escrever.
07/12/09
Absolutos-de-algibeira
Esta manhã acordei com a frase do Alexandre O'Neill na cabeça: «num país de poetas que não lê os poetas». É um ecrito que está publicado na colectânea editada em 2008 pela Assírio & Alvim e onde se diz mais adiante na forma de pergunta: «não passará, afinal, a poesia de um absurdo vício, de um roer-unhas, de um falar-só sem destino como o monologar dos tolinhos?».
Para muitos O'Neill, que viveu da publicidade ou melhor na publicidade, é apenas um construtor de frases, algumas nas agências de anúncios, outras em Literatura.
Quanto às primeiras houve momentos de génio como a célebre - que obviamente não passou - «num colchão sumauma não se dá apenas uma» - quanto às Letras acho que há instantes de genialidade. Pena estes serem fugazes repentes de uma escrita vagabunda.
P. S. O título deste post é uma dessas suas frases, refere-se a quantos, da autoria à crítica, se julgam o número ímpar, o um e único.
06/12/09
Conseguir cumprir
Fazendo minha uma velha piada, tenho tanto para escrever que mal tenho tempo para ler. Acabei um livro, revi provas, e já está outro na calha. Desta vez por força de um contrato com um jornal e uma revista para uma pequena obra a sair em Janeiro. O tema o que me levou a escrever já uns livros: a guerra secreta em Portugal (1939-1945). Depois direi mais. Para já é roubar umas horas ao descanso e conseguir cumprir o prometido.
05/12/09
Parabéns
Parabéns! Dois anos de vida! Muitos anos de vida! Chama-se Círculo das Letras. É uma amorosa livraria, das que vão resistindo, com livros que não se encontram em outros locais. Comprei lá os livros em mirandês, da Campo de Letras, raros. Fica ao Campo Pequeno, concretamente aqui, na Rua Augusto Gil que é nome de poeta. No Natal ofereça livros.
03/12/09
Não se brinca com facas - convite
Terminou tudo, a escrita, a revisão, a capa. Falta só o lançamento. Vai ser ainda antes do Natal, no dia 15. Será um duplo lançamento. Da estreia do autor no género romance, depois de ter publicado um livro de contos, editado pela Presença, e de início de uma editora, a Labirinto de Letras, cujo próximo livro, a editar em Janeiro será uma tradução. A seu tempo notícias.
01/12/09
A banalização da escrita
Há assim um fenómeno que acaba por banalizar os escritores... [Clarice Lispector]
The Waste Land, de T. S. Eliot
Perdido em revisão de provas, sem tempo para vir aqui, acredite-se, lembrei-me de ter encontrado há uns anos em Londres a edição facsimile do poema do T. S. Eliot, The Waste Land, com notas de revisão do Ezra Pound. Ao passar pela caixa registadora o empregado, um jovem, lançou-me, guloso, os olhos ao livro. «Onde o encontrou?», perguntou-me subitamente entristecido. Respondi: «ali, atrás de uma pilha de outros, caído».
Coitado dele, sonhava tê-lo há anos e agora era eu quem o tinha na mão e o ia levar. Hesitei. Não fui capaz. Dei-o depois à minha filha para não ser eu ladrão de um livro alheio.
Era dele a obra, pela lei da precedência do desejo sobre a posse.
28/11/09
Rumor Branco, de Almeida Faria
Almeida Faria escreveu-o teria dezanove anos. Foi uma revolução na minha cabeça. Nunca tinha visto um livro com tão poucos pontos finais, um livro em que a seguir aos seus escassos pontos finais a palavra estava escrita com letra minúscula, um livro graficamente provocador. Mas mais, nunca tinha visto, no pequeno mundo das minhas escassas leituras, uma tal torrente verbal a arrastar na sua densa narrativa um revolto aluvião de sentimentos, de ideias, de conceitos, de mundividências.
Vergílio Ferreira arriscou apresentar a obra. Subrogando-se à sede de vingança do grupo neo-realista, de que ele se apartara a partir do seu romance Mudança, Alexandre Pinheiro Torres abriria então fogo sobre o livro e sobre o apresentador nos mesmos termos em que Sócrates foi acusado de ser um corruptor moral da juventude. Era proibida aquela escrita de interiores, expressa numa ladainha de tristeza em que a luta pelo pão e pela paz estava quase ausente. Não se poderia perdoar que, depois de uma vida que dedicara desde então àquele género tido agora dissolvente e reaccionário o autor de Aparição desse a mão, apadrinhando um seu aluno.
Tudo pertence ao ano de 1962 menos um facto: a polícia do gosto.
Rumor Branco seria um sucesso. Depois dele o seu autor encolher-se-ia. Os livros seguintes já não teriam o Daniel João pequeno-burguês «desde antes de nascer» e a sua aprendizagem erótica. Já estava presente a fome, a exploração e a luta dos oprimidos. Editado pela Caminho conheceria o sucesso. Tenho pena de ter perdido ou ter deixado ficar por aí o meu primeiro exemplar. Ele tem dentro o grito de surpresa dos meus quinze anos, quando o li.
Benigno José Mira de Almeida Faria, Nasceu em Montemor-o-Novo. Cursou Direito e Letras. Hoje é professor de Estética. Ganhou com o livro o Prémio Revelação. Graças a esta escrita fiz-me parte do que sou..
25/11/09
Não se brinca com facas
A capa vai ser construída a partir deste quadro, do meu Hugo Bernardo. É estudante de Arte. Vinte anos de esperanças. Mora aqui. O texto é uma narrativa sentimental. Chama-se Não se Brinca com Facas. Abre assim: «Explodira-lhe o sol na cabeça e pela noite choveram estrelas na alma, escorrendo alegria. Acordara nua, o corpo em riso. Nesse dia já não poderia enganar-se. Era amor, por uma forma irrecusável, nunca antes sentida. Se morresse agora, ia-se no acto de nascer, esvaída».
Oxalá o livro tenha sorte. Não gostava que o confundissem comigo. Vai para a gráfica dentro de dias. Começo a organizar-me para o dia do lançamento. Nesse dia lá estarei. Faz parte das normas que o autor apareça, mesmo que encabulado.
23/11/09
O fetiche da mudança
Cansa ler sobre factos, sobre pessoas, é raro encontrar escritos sobre ideias. Por isso quando me assinalaram este sobre a fetichização da mudança não resisti. Vivemos um tempo em que a ideia do novo está na ordem do dia. Quer for pela intemporalidade, pelas instituições, pela memória colectiva, quer se guiar pelos arcanos, pela Tradição, está condenado às galés. Ser-se «progressista» passou a ser sinónimo e inteligência e bom coração. Claro que às vezes vai-se para pior. O perigo do novo sem sustentáculo no antigo e aceite é esse: cai por si.
A propósito da fotografia: Jacques Tati! Eis a capacidade genial de rir no mito do progresso.
22/11/09
Amadeo, de Mário Cláudio
Ainda não li o último livro do Mário Cláudio, bem sabendo que não é o derradeiro. Mas lembrei-me há pouco de ter lido e estudado ao pormenor a fantasia que ele escreveu sobre o Amadeo de Souza Cardoso. Na altura eu andava embevecido pela Sonia Delaunay e fui mesmo a Vila do Conde fotografar-lhe a casa, a Vila Simultânea, que o Francisco Teixeira da Mota me disse pertencer à família e em cujo quintal - memória inesquecível - havia coelhos.
O livro é curto e é curioso, apesar de na altura me irritar porque eu queria uma biografia de factos e o autor por vezes escapulia-se para uma biografia de sonhos. Mas a vida é também isso mesmo.
Tenho o livro comigo e curiosamente abriu-se, a lombada já forçada, na página 83 onde eu sublinhei - e o pobre está todo sublinhado - aquele excerto, que publiquei na num qualquer blog, em que o Amadeo pergunta em carta: «A Maman sabe o que é a burguezia?». E responde por ela: «Sabe, sim. É a geral sociedade, essa que vive animalmente, isto é, aquella em que os sentimentos animaes é tudo e os espirituaes nada. É uma sociedade de alma animal. Ha tambem bons burguezes, porque a alma animal tambem pode ser altamente virtuosa, mas nunca superior. Ora o tio Chico é uma alma superior. Voila tout».
Jorge Ferreira
Apresentei-lhe um livro, em Faro. Era visita regular dos meus blogs quando eu tinha muitos blogs. Vimo-nos pela última vez quando daquele seu livro sobre os voos clandestinos da CIA. Chegou com os filhos. Impressionou-me. Estavam de mão dada, como se quisessem ter-se cada instante de todo o tempo. Já não havia todo o tempo. Os estigmas da doença estavam todos ali, a assinalarem a posse da morte sobre a sua pessoa. Sorria, porém, um imenso sorriso e a capacidade de saber rir. Morreu e tinha quarenta e oito anos. Morre tanto do que poderia ter vivido que a alegria só pode ser uma revolta contra Deus.
Subscrever:
Mensagens (Atom)



























