11/12/09
09/12/09
Uma errata
Vinham primeiro as provas a granel, depois as já montadas, com o livro já paginado. Emendavam-se umas e as outras. Havia escritores que escreviam os livros nas provas, que faziam dos tipógrafos dactilógrafos. Havia relações de ódio surdo e de amor disfaçado entre a burguesia escritora e o operariado gráfico.
Há ainda pois resiste toda uma nomenclatura e uma simbologia pela qual uns e outros comunicam. A foto é um exemplo.
Um dia um linotipista - coisa que já não há - disse-me, numa nota a lápis na folha de guarda de um livro então em provas: «agradeço ao senhor autor o favor de arranjar outra pessoa para rever o que escreve!». Queria ele dizer, farto de gralhas, emendar o que escreve. Mas acanhou-se, remendiando-se vocabularmente com a modéstia dos que se sentem de baixa condição.
A vida é pouco mais ou menos isto. Há sempre alguém que gostaria que encontrássemos quem nos emendasse nos nossos modos de dizer, os nossos «enros», como escrevi aqui, citando o António Alçada Baptista. Um dia estamos encadernados e só resta imprimirem uma errata: onde se leu «viveu» leia-se «teria vivido».
Obra Poética, de António Osório
Recomeçando leituras. António Osório viu a sua obra agora reunida num volume, espesso, austero. O compilador chamou-lhe «poesia reunida». Mas há prosa, poética pelo modo de escrever, pela sensibilidade subjacente. Tive alguns livros seus, autografados como este, mas que a vida dispersou. Lembro-me da bela edição da Raiz Afectuosa, a mesma que Eugénio Lisboa diz ter lido pela primeira vez em 1973, assim se iniciando na sua obra: «com os anos/a pouco e pouco/a raiz afectuosa/penetrou/no fundo da terra/até chegar/ao mais pequeno/e mais antigo/veio de lágrimas».
Recomeçarei hoje leituras, essa forma de haver mais um livro que eu poderia escrever.
07/12/09
Absolutos-de-algibeira
Esta manhã acordei com a frase do Alexandre O'Neill na cabeça: «num país de poetas que não lê os poetas». É um ecrito que está publicado na colectânea editada em 2008 pela Assírio & Alvim e onde se diz mais adiante na forma de pergunta: «não passará, afinal, a poesia de um absurdo vício, de um roer-unhas, de um falar-só sem destino como o monologar dos tolinhos?».
Para muitos O'Neill, que viveu da publicidade ou melhor na publicidade, é apenas um construtor de frases, algumas nas agências de anúncios, outras em Literatura.
Quanto às primeiras houve momentos de génio como a célebre - que obviamente não passou - «num colchão sumauma não se dá apenas uma» - quanto às Letras acho que há instantes de genialidade. Pena estes serem fugazes repentes de uma escrita vagabunda.
P. S. O título deste post é uma dessas suas frases, refere-se a quantos, da autoria à crítica, se julgam o número ímpar, o um e único.
06/12/09
Conseguir cumprir
Fazendo minha uma velha piada, tenho tanto para escrever que mal tenho tempo para ler. Acabei um livro, revi provas, e já está outro na calha. Desta vez por força de um contrato com um jornal e uma revista para uma pequena obra a sair em Janeiro. O tema o que me levou a escrever já uns livros: a guerra secreta em Portugal (1939-1945). Depois direi mais. Para já é roubar umas horas ao descanso e conseguir cumprir o prometido.
05/12/09
Parabéns
Parabéns! Dois anos de vida! Muitos anos de vida! Chama-se Círculo das Letras. É uma amorosa livraria, das que vão resistindo, com livros que não se encontram em outros locais. Comprei lá os livros em mirandês, da Campo de Letras, raros. Fica ao Campo Pequeno, concretamente aqui, na Rua Augusto Gil que é nome de poeta. No Natal ofereça livros.
03/12/09
Não se brinca com facas - convite
Terminou tudo, a escrita, a revisão, a capa. Falta só o lançamento. Vai ser ainda antes do Natal, no dia 15. Será um duplo lançamento. Da estreia do autor no género romance, depois de ter publicado um livro de contos, editado pela Presença, e de início de uma editora, a Labirinto de Letras, cujo próximo livro, a editar em Janeiro será uma tradução. A seu tempo notícias.
01/12/09
A banalização da escrita
Há assim um fenómeno que acaba por banalizar os escritores... [Clarice Lispector]
The Waste Land, de T. S. Eliot
Perdido em revisão de provas, sem tempo para vir aqui, acredite-se, lembrei-me de ter encontrado há uns anos em Londres a edição facsimile do poema do T. S. Eliot, The Waste Land, com notas de revisão do Ezra Pound. Ao passar pela caixa registadora o empregado, um jovem, lançou-me, guloso, os olhos ao livro. «Onde o encontrou?», perguntou-me subitamente entristecido. Respondi: «ali, atrás de uma pilha de outros, caído».
Coitado dele, sonhava tê-lo há anos e agora era eu quem o tinha na mão e o ia levar. Hesitei. Não fui capaz. Dei-o depois à minha filha para não ser eu ladrão de um livro alheio.
Era dele a obra, pela lei da precedência do desejo sobre a posse.
28/11/09
Rumor Branco, de Almeida Faria
Almeida Faria escreveu-o teria dezanove anos. Foi uma revolução na minha cabeça. Nunca tinha visto um livro com tão poucos pontos finais, um livro em que a seguir aos seus escassos pontos finais a palavra estava escrita com letra minúscula, um livro graficamente provocador. Mas mais, nunca tinha visto, no pequeno mundo das minhas escassas leituras, uma tal torrente verbal a arrastar na sua densa narrativa um revolto aluvião de sentimentos, de ideias, de conceitos, de mundividências.
Vergílio Ferreira arriscou apresentar a obra. Subrogando-se à sede de vingança do grupo neo-realista, de que ele se apartara a partir do seu romance Mudança, Alexandre Pinheiro Torres abriria então fogo sobre o livro e sobre o apresentador nos mesmos termos em que Sócrates foi acusado de ser um corruptor moral da juventude. Era proibida aquela escrita de interiores, expressa numa ladainha de tristeza em que a luta pelo pão e pela paz estava quase ausente. Não se poderia perdoar que, depois de uma vida que dedicara desde então àquele género tido agora dissolvente e reaccionário o autor de Aparição desse a mão, apadrinhando um seu aluno.
Tudo pertence ao ano de 1962 menos um facto: a polícia do gosto.
Rumor Branco seria um sucesso. Depois dele o seu autor encolher-se-ia. Os livros seguintes já não teriam o Daniel João pequeno-burguês «desde antes de nascer» e a sua aprendizagem erótica. Já estava presente a fome, a exploração e a luta dos oprimidos. Editado pela Caminho conheceria o sucesso. Tenho pena de ter perdido ou ter deixado ficar por aí o meu primeiro exemplar. Ele tem dentro o grito de surpresa dos meus quinze anos, quando o li.
Benigno José Mira de Almeida Faria, Nasceu em Montemor-o-Novo. Cursou Direito e Letras. Hoje é professor de Estética. Ganhou com o livro o Prémio Revelação. Graças a esta escrita fiz-me parte do que sou..
25/11/09
Não se brinca com facas
A capa vai ser construída a partir deste quadro, do meu Hugo Bernardo. É estudante de Arte. Vinte anos de esperanças. Mora aqui. O texto é uma narrativa sentimental. Chama-se Não se Brinca com Facas. Abre assim: «Explodira-lhe o sol na cabeça e pela noite choveram estrelas na alma, escorrendo alegria. Acordara nua, o corpo em riso. Nesse dia já não poderia enganar-se. Era amor, por uma forma irrecusável, nunca antes sentida. Se morresse agora, ia-se no acto de nascer, esvaída».
Oxalá o livro tenha sorte. Não gostava que o confundissem comigo. Vai para a gráfica dentro de dias. Começo a organizar-me para o dia do lançamento. Nesse dia lá estarei. Faz parte das normas que o autor apareça, mesmo que encabulado.
23/11/09
O fetiche da mudança
Cansa ler sobre factos, sobre pessoas, é raro encontrar escritos sobre ideias. Por isso quando me assinalaram este sobre a fetichização da mudança não resisti. Vivemos um tempo em que a ideia do novo está na ordem do dia. Quer for pela intemporalidade, pelas instituições, pela memória colectiva, quer se guiar pelos arcanos, pela Tradição, está condenado às galés. Ser-se «progressista» passou a ser sinónimo e inteligência e bom coração. Claro que às vezes vai-se para pior. O perigo do novo sem sustentáculo no antigo e aceite é esse: cai por si.
A propósito da fotografia: Jacques Tati! Eis a capacidade genial de rir no mito do progresso.
22/11/09
Amadeo, de Mário Cláudio
Ainda não li o último livro do Mário Cláudio, bem sabendo que não é o derradeiro. Mas lembrei-me há pouco de ter lido e estudado ao pormenor a fantasia que ele escreveu sobre o Amadeo de Souza Cardoso. Na altura eu andava embevecido pela Sonia Delaunay e fui mesmo a Vila do Conde fotografar-lhe a casa, a Vila Simultânea, que o Francisco Teixeira da Mota me disse pertencer à família e em cujo quintal - memória inesquecível - havia coelhos.
O livro é curto e é curioso, apesar de na altura me irritar porque eu queria uma biografia de factos e o autor por vezes escapulia-se para uma biografia de sonhos. Mas a vida é também isso mesmo.
Tenho o livro comigo e curiosamente abriu-se, a lombada já forçada, na página 83 onde eu sublinhei - e o pobre está todo sublinhado - aquele excerto, que publiquei na num qualquer blog, em que o Amadeo pergunta em carta: «A Maman sabe o que é a burguezia?». E responde por ela: «Sabe, sim. É a geral sociedade, essa que vive animalmente, isto é, aquella em que os sentimentos animaes é tudo e os espirituaes nada. É uma sociedade de alma animal. Ha tambem bons burguezes, porque a alma animal tambem pode ser altamente virtuosa, mas nunca superior. Ora o tio Chico é uma alma superior. Voila tout».
Jorge Ferreira
Apresentei-lhe um livro, em Faro. Era visita regular dos meus blogs quando eu tinha muitos blogs. Vimo-nos pela última vez quando daquele seu livro sobre os voos clandestinos da CIA. Chegou com os filhos. Impressionou-me. Estavam de mão dada, como se quisessem ter-se cada instante de todo o tempo. Já não havia todo o tempo. Os estigmas da doença estavam todos ali, a assinalarem a posse da morte sobre a sua pessoa. Sorria, porém, um imenso sorriso e a capacidade de saber rir. Morreu e tinha quarenta e oito anos. Morre tanto do que poderia ter vivido que a alegria só pode ser uma revolta contra Deus.
21/11/09
Rua de Anchieta
São sujeitos à mesma lei da Natureza que o camponês segue e respeita e pela qual se orienta, os livros. Há dias em que se sai de casa, olha-se para o céu, vê-se que está a chover e uma pessoa diz: hoje não há livros. Aconteceu hoje e não fui à Rua de Anchieta, a feira de livros usados, lugar de alfarrabistas, martirizados pelo sol e pelo frio e que só a chuva pode afugentar, porque é tudo a céu aberto.
Agora que escrevo pergunto-me se a verdade da vida terá correspondido à verdade do que presumi ou se os estóicos vendedores terão sabido resistir, entre plásticos e guarda-chuvas que também também se chamam sombrinhas. Mas já é tarde, porque o sábado útil acabou com a chegada da noite. E pergunto-me se o nome da Rua é de Anchieta ou da Anchieta, mas embora não seja tarde, sempre há uma legítima preguiça em ir procurar a verdade toponímica, porque com a chegada da noite de sábado inaugura-se o direito a ao menos hoje não, princípio sagrado de liberdade ociosa que é excepção ao mundo afadigado dos deveres e das obrigações. Quanto à foto fui buscá-la a um excelente blog que se chama O Funcionário Cansado e olha que nome mais a propósito! O seu autor gosta de livros, diria que ama livros se não houvesse que poupar por pudor do banal a palavra amor.
P. S. Quem for ao link que cito encontra um texto do Jorge Silva Melo, editado pelo jornal Público. Encontrei-o lá por vezes, na Rua de ou da Anchieta; é a mesma, ao lado da Bertrand, aquela livraria que tem um cheiro adocicado e alguns livros que parecem muitos mas não tantos assim.
20/11/09
Eu Vim para Ver a Terra, de Maria Ondina Braga
É Maria Ondina, fazendo em Angola o caminho de Luanda à então chamada Vila Salazar.. [Maria Ondina Braga]
19/11/09
Irene Lisboa como João Falco
Será a caligrafia de Irene Lisboa... [Irene Lisboa], uma mulher que teve de se travestir literariamente como homem para que a lessem.
18/11/09
O editor impenitente
Anos a fio Fernando Pessoa pensou na criação de uma editora, que foi idealmente a Íbis e depois disso a Olissipo. Concebia tais delirantes projectos como uma via de «rectificação pessoal». Sistematizava o sentimento criador, embalsamando a que se adivinhava um nado-morto. Entretanto escrevia muitíssimo mas publicava quase nada dessa escrita, vadiando a sua genial hesitação.
A editora, concebida grandiloquentemente, seria, no mundo das coisas práticas, sempre ele só, multímodo e omnipresente, desdobrando-se-lhe as personalidades.
Falhou tudo excepto as poucas e geniais edições: A Invenção do Dia Claro, de José de Almada Negreiros e as Canções de António Botto.
Depois fica para a História o que António Mega Ferreira compilou para um livro que a Assírio & Alvim publicou em 2005, sob o tíítulo Fazer pela Vida: um retrato de Fernando Pessoa o empreendedor, no fundo o relato de um mundo que poderia ter sido.
17/11/09
16/11/09
El amigo de los maridos, de Rafael Sender
Às vezes viaja-se e não há tempo para ler: quando se vai a guiar, ou quando de vai de boleia e não é correcto uma pessoa isolar-se, fechado dentro de um livro. É por isso que o comboio é bom, o autocarro um pouco menos, o avião nem tanto.
Ontem tinha pensado escrever e não escrevi e aqui estou, terça a datar de segunda, a redimir o erro.
Deram-mo num hotel em Espanha, penso que em Barcelona. Há hotéis que põem livros nos quartos, como em alguns há quem deixe a Bíblia na mesa de cabeceira. É um livro de contos, pequeno, bem escrito e divertido. A personagem é um médico psiquiátrico a falar das suas experiências humanas e dos seus doentes e onde é que eu já vi isto?
Não importa muito. Interessa sim que, logo a abrir, ante um inquisitivo paciente que lê a Odisseia como uma lírica «de guerreros y navegantes si quiere, pero lírica ya. Una historia de celos, de propriedad privada...de ansias sedentarias de formar hogar, de convertir al nombre proprio en apellido. En definitiva, de familia», o médico refugia-se por detrás de um «silêncio metodológico».
Ora aqui está um instrumento útil não direi de acção, sim de inacção: um silêncio metodológico, que permita, enfim, interferir na identidade alheia.
O autor chama-se Rafael Sender. O conto chama-se El Amigo de dos Maridos. Um história de família, antídoto para ânsias sedentárias.
15/11/09
Dia de rally paper
Talvez se devessem chamar rally paper aquelas gincanas que os livros fazem no circuito de leituras de quem os lê. Ora avança um, ora fica para trás, uns há que se despistam na curva apertada de um passo mais inseguro, poucos são os que cortam a meta da última página, uma minoria vai ao podium. Às vezes são mais as 24 de Le Mans ou, com tantos altos e baixos, a Rampa da Pena.
Aconteceu que tentei recuperar o atraso que está a sofrer o livro do Luís Sepúlveda, Un Viejo que Leía Novelas de Amor, ultrapassado que foi numa das voltas à pista pelo bólide da Rosa Montero.
Não que eu seja um Fangio das leituras - e quem se recorda do velho ás, «O Manco» - o argentino que foi «o único piloto da história da Formula 1 que foi campeão com 4 escuderias diferentes: Alfa Romeo, Maserati, Ferrari e Mercedes-Benz»?
Mas tento dar as minhas voltinhas, literariamente que seja.
Assim, esta manhã recuperei a posição, largando-me a rir. Antonio José Bolívar descobriu que sabia ler, esse antídoto contra o veneno da velhice. Mas não tinha que ler. Foi então que tentou uns jornalecos que davam conta da vida quotidina do seu país equatorial: «La reproducíon de párrafos de discursos pronunciados en el Congreso, en los que el honorable Bucaram aseguraba que a otro honorable se le aguaban los espermas, o un artículo detallando cómo Artemio Nateluna mató de veinte puñaladas, pero sin rencor, a su mejor amigo, o la crónica denunciando a la hinchada del Manta por haber capado a un árbitro de fútbol en el estadio, no le parecían alicientes tan grandes como para ejercitar la lectura». Ah! Ah! Ah! Ah!...
14/11/09
Aquela forma enigmática de sentir
Tenho um blog dedicado a Clarice Lispector. Hoje ela está imensamente na moda. Dei conta da sua existência pela Conta Corrente do Vergílio Ferreira. Depois comecei a lê-la, perdido naquela forma enigmática de sentir gerando sentimentos. Hoje, ao chegarem-me notícias, dela, voltei lá.
Maria Ondina Braga
«Aterrei em Pequim no Ano do Cão de 1982 (...)». Escrevi sobre Maria Ondina Braga, aqui. É um mundo escondido, como o de uma infância que se revisita em que o próprio mal se sublima pela beleza.
La Loca de la Casa, de Rosa Montero
Comecei esta manhã, fascinado. Não gostaria de parar de a ler. Sei que tenho de voltar a outros livros que deixei inacabados, alguns por ser deles o leitor. La Loca de la Casa aprisionou-me. Não é uma reflexão, é um discurso amoroso sobre a paixão literária, a coincidência entre o enamoramento e a escrita. «Ser novelista es conviver felizmente con la loca de arriba. Es no tener miedo de visitar todos los mundos posibles y algunos imposibles». «La novela es la autorización de la esquizofrenia». Rosa Montero escreveu vinte e seis livros. Comecei hoje com este, o dia suspenso.
13/11/09
Tu não és o que tens
Este espaço está destinado ao reflexo das coisas que leio. A verdade, porém, é que também leio as coisas que escrevo. O jornal Correio da Manhã pediu-me uma história para crianças, que editaria na revista de domingo. A história saiu numa página pensada para mulheres. Talvez porque numa vergonhosa medida ainda são as mulheres quem se ocupa das crianças. A jornalista que me recebeu a prosa disse que era uma história para crianças que os pais deviam ler. Escrevi-a a pensar nisso. Arquivo-a aqui com a ilustração que para ela fez Ricardo Cabral.
«Era uma vez um menino que tinha um pai e uma mãe, um menino que estava na escola. E o menino estava na escola e aprendia verbos, porque quando se está na escola tem de se aprender os verbos e os verbos têm de ser aprendidos. Porque os verbos são o que faz com que as coisas andem, são as pernas das palavras. E se não se aprendem as palavras não andam.
E naquele dia era o verbo ter. Começava assim “eu tenho” e depois “eu tinha” e no fim “eu tive”. E o menino ficou a saber o que eram as coisas que estão e as coisas que já se foram embora. E era uma lição muito fácil e o menino lembrava-se que os avós já cá não estavam, e por isso já não tinha avós e só tinha meio pai porque o pai vivia com outra meia mãe.E o menino aprendia, aprendia muito e aprendia sempre, mais verbos, mais maneiras de ser do mesmo verbo, porque os verbos têm muitas maneiras de ser, como as pessoas, algumas maneiras tristes como “eu teria” e maneiras de muita alegria como “eu terei”. E o menino lembrava-se do Natal, que cada ano havia, e de todas aquelas coisas que não tivera por ter ficado de castigo.
Um dia o menino tinha de aprender eu “tinha tido”. Foi um dia muito triste. Nesse dia chovia muito e ele sentiu que um dia seria homem. Começou tudo nesse dia. Com muita pena».
12/11/09
4 & 1 Quarto, de Rita Ferro
Resuma-se numa só frase o último livro de Rita Ferro. Resumo-o: só o sexo pode ser repartido, o amor é indivisível. No booktrailer que divulga a obra diz-se que os quatro corpos que dão história ao romance «gozam até ao fim». Só não é totalmente assim pois há a dor. E há instantes na narrativa onde um gotejar dorido vai esvaindo aquelas personagens, rasgadas na sua intimidade pela luxúria e pelo desejo de posse. O universo é por vezes concentracionário, a vida e a morte contracenam, o amor e o ódio abraçam-se, num swing fatal que prenuncia tragédia. É tudo, porém, demasiado humano. O riso surge, então, desconcertante. É um estudo sobre a alma sem outra filosofia que a das sensações.
É difícil escrever neste contexto, sobre a vereda estreita do erótico e o tema prestava-se, tratando do promíscuo relacionamento e do sexo em comum, mas o livro deixa os voyeurs desapontados, evitando o óbvio, por haver sempre um modo subtil de a realidade ser contada e a imaginação poética poder recriar aquilo que as palavras não têm prosaicamente de dizer com quatro letras.
Diferentemente dos que fizeram carreira literária ao som de palavrões e brejeirices, vinte anos de escrita em Rita Ferro souberam mantê-la em Literatura, mesmo quando crítica, ainda que irónica, dentro dos limites da boa educação.
Lê-se incessantemente este 4 & 1 Quarto, título bem conseguido que a fulgurante capa melhor ilustra. Não há neste modo de screver desagregações do verbo, nem volteios barrocos de forma, a acção surge fluente, o leitor progride, ansioso de antecipação, a escrita não pesa, leve, pesa sim o que é descrito.
Ao comemorar vinte livros, surge-nos a novidade de uma outra autora. Parabéns e longa vida, Rita Ferro!
11/11/09
Porque se escreve com gralhas...
O nosso cérebro é doido !!!
De aorcdo com uma peqsiusa
de uma uinrvesriddae ignlsea,
não ipomtra em qaul odrem as
Lteras de uma plravaa etãso,
a úncia csioa iprotmatne é que
a piremria e útmlia Lteras etejasm
no lgaur crteo. O rseto pdoe ser
uma bçguana ttaol, que vcoê
anida pdoe ler sem pobrlmea.
Itso é poqrue nós não lmeos
cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa
cmoo um tdoo.
Fixe seus olhos no texto abaixo e deixe que a sua mente leia corretamente o que está escrito.
35T3 P3QU3N0 T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4
M05TR4R COMO NO554 C4B3Ç4 CONS3GU3 F4Z3R
CO1545 1MPR3551ON4ANT35! R3P4R3 N155O!
NO COM3ÇO 35T4V4 M310 COMPL1C4DO, M45
N3ST4 L1NH4 SU4 M3NT3 V41 D3C1FR4NDO O
CÓD1GO QU453 4UTOM4T1C4M3NT3, S3M
B3M ORGULHO5O D155O! SU4 C4P4C1D4D3 M3R3C3!
P4R4BÉN5!
Un Viejo que Leía, de Luis Sepulveda
O doutor Rubicundo Loachamín, dentista, verdadeiro tira-dentes no sinistro local de El Idilio, arranjava novelas de amor para Antonio José Bolívar Proaño, casado com Dolores Encarnación del Santísimo Sacramento Estupiñán Otavalo, o velho que sabia ler mas não escrever. «Leía con ayuda de una lupa, la segunda de sus pertenencias queridas. La primera era la dentadura postiza».
Claro que arranjar novelas de amor naquelas paragens equatrorianas não era fácil. «Pensaba en que haría el ridículo entrando a una librería de Guayaquil para pedir: "Déme una novela bien triste, con mucho sufrimiento a causa del amor, y con final feliz". Lo tomarián por un viejo marica, y la solución la encontró de manera inesperada en un burdel del malecón».
É um passo fantástico da notável novela do chileno e Luís Sepúlveda, Un Viejo que Leía Novelas de Amor. Mais de cinco milhões de exemplares vendidos, se isso é critério. Um pequeno grande livro.
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