02/11/09

A Rapariga que Brincava com o Fogo, de Stieg Larsson


Disseram-me que eu deveria ler o Stieg Larsson, mas eu ainda não tive tempo para o ler. Mas hoje porque acordei cedo vi no Diário de Notícias que «A família do falecido escritor sueco Stieg Larsson - autor da trilogia Millennium, êxito de vendas em todo o mundo - anunciou ontem ter proposto um acordo à ex-companheira do autor, Eva Gabrielsson, envolvendo uma quantia de cerca de dois milhões de euros para pôr um ponto final no conflito que os opõe. Recorde-se que até ao momento é o pai e o irmão de Larsson que estão a receber os direitos de autor, o que tem sido contestado pela ex-companheira».
E agora, até se desfazer esta sombra funerária e seus abutres hereditários, como irei lê-lo quando, mesmo sem tempo, me apetecer ler?
Talvez os direitos de autor devessem fugir às regras das heranças e suas vergonhas. Em nome do respeito ao criador, a propriedade e suas sequelas envergonhavam-se ao menos por um instante. Há muito quem precise, autores tantos que, antes do Panteão da Glória, em vida comem o pão que o Diabo amassou.

01/11/09

António Alçada Baptista



Acho que o jornal acabou. Publicava-se em Cascais. Era gratuito e eu tinha lá uma crónica sobre o que me apetecesse, que é a melhor expressão que há para a liberdade de imprensa. Chamei-lhe O Jardim dos Passarinhos em homenagem a um lugar próximo. Aqui fica a última que ali se editou. Será que agora estou sem lugar onde escrever, porque nas paredes é proibido?

«O António Alçada Baptista era advogado. Fartou-se, pois isto é profissão que dá para uma pessoa se fartar vivendo diariamente os problemas dos outros e a fazer disso modo de vida. Segundo confessou num dos seus apontamentos de memórias foi um maldito processo de inventário, em que sentiu que um dos contendores queria fazer dele um porrete tentando assim, através do tribunal, agredir um cunhado, que o trouxe para a Literatura. Bom homem, tornou-se militante das letras, fazendo-se editor através da Moraes. Militante católico, inspirado pelo personalismo cristão, um dos que João Bénard da Costa chamou «os vencidos do catolicismo», criou a revista O Tempo e o Modo e a Concilium. Derreteu em tudo isso o dinheiro que havia. Sofreu a preocupação das dívidas. Escritor, acabou por ser adoptado pela Presença. O seu amigo Francisco Espadinha compôs-lhe um livro de homenagem há dois anos. São coisas que se fazem quando se torna evidente que uma pessoa não é imortal. Publicara-lhe o primeiro livro em 1985. Falando do seu delicado ser Leonor Xavier sublinhou dele o «entendimento não contábil com o mundo em que vivemos, a descrença no trabalho como valor absoluto». Invulgar observação, esta, notável espírito. António Alçada Baptista tinha uma escrita amável, mesmo quando angustiada, até quando falava com Deus. Um neto escreveu um dia numa redacção a propósito da família, tomando dele a parte de escritor e do pai o trabalhar numa editora: «A Família. O meu avô é escritor e o meu pai emenda os enros». Tal qual assim, com enros. Lembrei-me disso esta manhã. Não são os que se dizem escritores que afinal o são. São aqueles que têm uma história para contar, mesmo quando na fase da «preguiça ostensiva». Os leitores esperam, pacientes. São pequenos enros da vida estes gloriosos momentos. Sem eles estava tudo completamente errado».

O Som da Frente, de António Sérgio


Conhecia-lhe a voz, cava, rouca, gutural, vinda não das cordas vocais, mas de muito mais fundo, mais íntimo, do interior do coração e foi o coração que lhe falhou. Há pouco chegava a notícia, funcional, prática: «o radialista António Sérgio faleceu na noite de sábado, vítima de um problema cardíaco, aos 59 anos».
Conhecia-lhe os programas o Sinais de Fumo, o Lança-Chamas, O Som da Frente, A Hora do Lobo.
Fui ao Blitz buscar-lhe a fotografia.Ninguém associaria este semblante àquela voz. É esse o mistério da rádio e o encanto da sua fantasia.
Foi ele quem editou o primeiro álbum dos Xutos e Pontapés.
Caramba, que domingo triste!

La Invención de Morel, de Bioy Casares - finis



Livro pequeno mas que esgota muito tempo a ser lido, como quando se caminha pela areia de uma praia, as pernas pesadas a arrastarem-se, os olhos postos no mar, o horizonte móvel parecendo fixo.
A invenção de Morel é uma máquina que anula a ausência, tornando o presente eterno através da «conservação indefinida das almas em funcionamento», ilude a distância e gera o aparente instantâneo.
É uma forma de «dar perpétua realidade a uma fantasia sentimental» numa ilha povoada, afinal, de reproduções vivas, espécie da caverna platónica com a diferença de que as sombras do reflexo ganham forma e corpo como o de Cristo pelo mistério da transubstanciação, mas aqui num mundo desertificado em que os seres não são pessoas mas apenas a possibilidade de serem sonhadas.
No final o herói sobrevive, dá-se por morto para não morrer. Um livro extraordinário.

Nunca confiando em versos


Permito-me citar, deste companheiro de ciber-espaço, um blog que vai gerando o bom hábito de o ler:

«Dizias que gostavas de poemas.
«Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
«São muito bonitos, disseste,
«hei de mostrá-los ao meu namorado.
«Nunca mais confiei nos versos
«nem no gosto feminil».
 
Os versos são de José Miguel Silva [Vista para um Pátio Seguido de Desordem, Relógio D’Água, 2003], o blog é O Funcionário Cansado. Ao primeiro porque escreveu, ao segundo pois que citou, muito obrigado. É uma forma risonha de ser domingo de manhã.

Um Buraco na Sombra, de Almada Negreiros



O mundo é circular. Cansado de livros, talvez passear. Eu bem sei que melhor que viajar é ler livros de viagens. Disse-o o Somerseth Maugham, sabe-se lá com que convicção. Mas ao menos um passeio à próxima esquina, debaixo de braço este meu guia:
«Terminada em 1969, pouco antes da sua morte, Almada trabalhou incansavelmente nesta obra. No entanto, quase podemos acrescentar que o fez a vida toda. A lição que se poderia adivinhar em O Número está aqui, tal como o artista procurou, “sem opinião” e “sem texto” no frio da pedra. Os diferentes motivos geométricos que durante décadas tomaram o seu pensamento são aqui apresentados. Por exemplo, a relação 9/10 no ponto mais à esquerda da obra ou, logo à sua direita, a figura superflua ex-errore de Leonardo Da Vinci. E até o título, de poeta, tem ressonâncias noutro momento da sua vida quando n’A Cena do Ódio diz “põe-te a nascer outra vez”».
É a Igreja de Fátima. Fica aqui ao lado. Os sinos tocam como nas aldeias. É a minha aldeia e eu nela. Sucedeu que antes de partir cruzei-me «porque hoje é domingo» com esta menção precisamente ao Almada, o autor dos vitrais da Igreja de Fátima. Um poema: «Mãe! Vem ouvir a minha cabeça contar histórias ricas que ainda não viajei!». São os Dias que Voam, o tempo que passa, a lembrança que fica.

31/10/09

Smile, por Charlie Chaplin


«Life is a tragedy when seen in close-up, but a comedy in long-shot». A frase é de Charlie Chaplin. Disse-o e escreveu-o através da música para este tema. Viveu uma desgraçada vida sentimental. Foi descrendo em tudo menos na vida. Sobreviveu-lhe, por isso. Um bom sábado que hoje está sol. Obrigado.

A Lebre, de Álvaro Guerra



Já tinha lido o livro, já tinha escrito sobre o livro, mas lembrava nada. Conheci fugazmente o Álvaro Guerra quando eu escrevinhava pelo jornal República. Não li o Café República. Mas li A Lebre o tal livro de que me esqueci e hoje fui reencontrar na estante. Revi os sublinhados para tentar encontrar o fio condutor da narrativa, se tal faz falta, porque na Literatura podemos prescindir da história contada para melhor se apreciar o modo de a contar.
É um livro de exílio e de memória, de perseguição e despedeçar de corpos, livro de universidade e de remorso colonial: «sim, minha querida, Sou realmente um negro civilizado, não há dúvida, mas acontece que me corre nas veias o sangue dos massacres do meu povo», porque Guerra veio marcado pela guerra em África, trouxe-a para a literatura e «já passou mais do que o tempo necessário para ter morrido na boca dos cães e cada parcela desse tempo transcorrido é uma vitória».
Estreou-se como escritor com Os Mastins. Foi publicado em 1967. Tem um prefácio de Alves Redol, seu conterrâneo. Hei-de lê-lo e a tudo o mais.

A génese


A proporção perfeita é o número de ouro da criação. Depois, tudo de desequilibra até uma próxima estação. A música do Cosmos é apenas o intervalo da sua probabilidade. Sobre o muro o construtor edifica a sua catedral. Nesta representação está contida a reflexão e o acto, a eventualidade e o ser. Há uma biblioteca Hermética por desfolhar. Adivinhe-se o sentido oculto.

30/10/09

Leituras incompletas...


É um dos livros que deixei incompleto, ainda na página 160... [Clarice Lispector...], para ler todo, retomado o fôlego que a paixão esgota.

29/10/09

Mulheres escritoras



Já se foi o tempo em que os blogs floresciam como cogumelos e eu me relacionava com eles como com gavetas, em cada um arrumando partes diferenciadas da minha vida. Depois ficou a jura de que não mais haveria escrita intimista na blogoesfera. Nasceu o blog que tomou como título parte do meu nome, António Rebelo da Silva. Dedicado a livros e a leituras não tendo pretensões, que seriam estultas, a blog de crítica literária nem de tesoura e cola de escritos alheios.
Recuperei hoje três outros blogs que são dedicados e cujas vidas não me pertenciam. Cada um deles é dedicado a uma mulher escritora, cuja escrita me marcou profundamente a sensibilidade: Clarice Lispector, Maria Ondina Braga, Irene Lisboa. Todas morreram já o que não morreu foi o sentimento que me une ao seu modo de ser.

28/10/09

O Príncipe com Orelhas de Burro, de José Régio


Eu acho que voltamos sempre aos mesmos livros e mesmo quando lemos o que julgamos serem outros livros eles são a continuação de um qualquer livro que ficou eternamente por ler num momento passado da nossa vida, um arquétipo de flagrante que queremos eternizar, ou uma ânsia irrealizada que queremos prosseguir, agora através da Literatura.
Sucedeu-me uma dessas variantes esta noite, ao ir à estante procurar as Páginas do Diário Íntimo do «José Régio», para me lembrar o que nele me impressionou, a confissão dolorosa das suas pulsões intestinas, que tinha por sórdidas e como tal escondia dos seus próprios olhos e o apelo da castidade como reduto final da pureza de alma que, afinal, nunca foi capaz de encontrar. E tudo isso com Cristos antiquíssimos e uma vida de antiquário, e A Velha Casa, mesquinhamente selada, num mundo de velharias, roufenho de silêncios e envelhecimento, povoado de rancores irresolutos e de amigos particulares a rabujar com os seus livros. Neurasténico, «vivo demais fora de mim», dizia e sabia em Coimbra, em 1923 - caramba e eram os loucos anos vinte para tantos outros! - que «querer ser feliz é ajuntar probabilidades de desgraça», e queria, muito depois, «desprezar, e até combater, todas as formas do mundanismo literatizante que me persegue», mas a entregar-se, sempre, «plenamente ao vício» apesar de a doença lhe ter atenuado as obsessões do sexo e do prazer.
E provocador, porque foi sempre, apesar de frágil figura e timorata aparência, pois «antes de tudo, ainda considero mais perigosos para a cultura o comunismo e o cabotinismo do que a tirania salazarista - por sua própria natureza efémera». Isto dizia o cidadão José Maria dos Reis Pereira, enquanto escritor José Régio, atrevido. «Participou activamente na vida pública, fazendo parte da comissão concelhia de Vila do Conde do Movimento de Unidade Democrática (MUD), apoiando o general Nórton de Matos na sua candidatura à Presidência da República e, mais tarde, a candidatura do general Humberto Delgado. Integrou ainda a Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD), nas eleições de 1969», reza uma sua biografia. Consequentemente. «Era uma vez um casal no reino da Traslândia (...)». Eis «algumas circunstâncias que precederam o nascimento do Príncipe Leonel, presumível herói desta verídica história».

A história inscrita


Compreendo os que sentem algum pudor em serem chamados «escritores» apenas por escreverem. Hoje tiveram a gentileza de me chamarem «inscritor». Fantástica ideia escondida em tão invulgar palavra! Talvez seja essa a intenção, nem sempre o que se alcança, inscrever na pele dos outros e no coração de alguns a nossa história que é, algumas vezes, a versão escrita dos nossos sentimentos. Com o estilete que se inscreve rasga-se e por isso ler tem de doer.

27/10/09

Sebastião da Gama



Não tenho razão, nem posso ter razão, é imperdoável este modo de pensar, mas é assim que sinto. Não consigo encontrar na poesia do Sebastião da Gama nada que hoje me apeteça referir. Nem no Diário de professor. Fico com a sensação que fui buscar os livros à estante para dizer isso. Mas ainda folheei para evitar dizê-lo.
Talvez amanhã, ou outro dia, com a Arrábida em fundo, seja possível encontrar-se nas quadrinhas populares ou nas estrofes sentimentais e mesmo na adoração poética ao Senhor Deus e ao Menino Jesus algo para referir. Hoje seguramente não. E não há poesia que resista a um mau momento para a ler, mesmo a excelente poesia.
Sebastião Artur Cardoso da Gama. Morreu em 1952 no Hospital de São Luís. Como Almada Negreiros e antes dele Fernando Pessoa. Fui tentar fazê-lo reviver. Hoje, porém, não consigo.

Still Walking, de Hirokazu Kore-eda


«Esta é um típica família disfuncional unida pelo amor, por ressentimentos e segredos», diz aquele horrível anúncio, prático e sociológico, desalmado, mas está aqui o trailer para sugerir que há mais poética no filme do que por vezes resulta da boçal prosa que o anuncia. Realizado por Hirokazu Kore-eda, é um momento magnífico sobre a universalidade dos sentimentos e dos ressentimentos, sobre a mesquinhez da vida e sobre a grandeza de vivê-la.
Um Japão moderno, utilitário, feito de electrodomésticos e de outras tantas impaciências contemporâneas, irrompe aqui continuamente, para ser imperceptivelmente absorvido, diluindo-se o feio na comovente beleza do cenário interior em que tudo se move. No fim, a assinalar-nos o eterno retorno da vida que vai, o mar. Até lá apenas uma borboleta amarela, a simbólica alma que a memória faz renascer. Se ainda vai ao cinema, não perca.

26/10/09

Até ao Fim, de Vergílio Ferreira



Deve haver um qualquer momento em que um autor, cansado de dar corda às histórias dos outros, se intromete na própria narrativa. Não apenas como o Alfred Hitchcock, que autenticava cada um dos seus filmes fazendo-se filmar, como numa piscadela de olhos ao espectador, num canto da cena, discreto mas perceptível, mas a aparecer sim de modo ostensivo, por vezes fulgurante, de dedo no ar, a dizer «pára tudo agora, que aqui estou eu!».
Sucede assim até com o sorumbático Vergílio Ferreira que se esvaíu, paciente, em favor das personagens a que deu vida, escritor sacrificado, ao serviço do seu dom, a letra miudinha, a tábua nos joelhos. Notei isso esta manhã de nevoeiro. É no capítulo XXVIII do Até ao Fim, umas das suas obras finais:
«- Mas os pinheiros tiram-nos o sol da casa - diz a mulher do V. F. - Já cortei alguns, mas tenho de cortar mais. Nem posso ter um canteiro de flores.
« - Mas um pinhal é bonito - disse eu.
- Não são precisos tantos pinheiros - disse ela. -E estes aqui em cima da casa estragam-na e tiram a luz».
- É inútil - disse V. F. - Minha mulher é pinheiricida».
Eis. Não será um momento de grande literatura, com estes «ele» e «ela» a simplificarem o texto, mas é uma  página de indesmentível verdade e essa vale mais, quando surge, assim espontânea, que o melhor instante de estilo que ali estivesse.
Nem sempre é bela e raramente é trabalhada a verdade da existência, mesmo vivida através da escrita.
«Mas V. F. deve ter-se imaginado diante dos alunos e disparou. E disse que sempre disse que escrevia para estar vivo. Mas já outros vieram a dizar o mesmo e portanto já não e verdade».
A casa com os pinheiros era em Fontanelas. Ainda lá está. Fui visitar a sua verdade há uns anos, num mau momento. Reecontrei-a hoje na forma de literatura e parece ficção.

25/10/09

Que Cavalos São Aqueles..., de António Lobo Antunes


Violento-me para ser justo, porque o acho detestável de tão vaidoso, voyeur do seu próprio exibicionismo, a tentar seduzir pela decadência e a consegui-lo, mas, admito, a sua escrita é admirável, mesmo quando é o leitor a construir, lendo, o que ele não escreveu mas sabe-o e intromete-se na própria escrita para confessá-lo e nisso é sério porque não tem ilusões quanto ao que anda a fazer da nossa paciência e diz «eis o António Lobo Antunes a saltar frases não logrando acompanhar-me».
Comecei esta manhã a ler Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?e julgava que era o último livro dele até me assustar ao ver que tinha menção a que era a 4ª edição, mas depois compreendi que ele edita muito ou a editora chama nova edição ao que é uma reimpressão e manda reimprimir muitas vezes para parecerem mais as edições e já estou a dizer mal por não gostar dele, «a detestá-lo por me desarrumar o passado» mas tenho de ser justo mesmo que me violente.
E é, dizia, uma escrita admirável, em que o edifício das palavras e das frases e dos períodos e dos parágrafos implodiu e o leitor caminha, semi-cego pela poeira «poeira que demorava a cair ocultando-nos de nós mesmos e ao ocultar-nos de nós mesmos não éramos», em que entre os escombros verbais e o desabar gramatical surgem, densos e a escorrer, os sentimentos e as recordações a ensarilharem-se na leitura e um mundo que já foi de «escadas dos cartórios quase tão gastas como a minha mãe», e há uma mãe que morre e um notário para os ossos da família roídos e nele «uma empregada de aliança, mas viúva no coração».
A frase «cavalos fazendo sombra no mar» vem na página 19 e daí o título do livro e eu vou na página 46, parei agora para tomar fôlego, entre toiros «farejando a própria urina e as próprias fezes não as reconhecendo, farejando o próprio cheiro e investindo contra si mesmo porque o cheiro mudara» e vim aqui escrever o que estou a sentir.
Deus te perdoe a arrogância, mesmo que sejas neste livro o Francisco, irmão da Beatriz, António Lobo Antunes que eu lerei tudo quanto escreveste, e escreveste já muito, lerei juro se tiver tempo mas falta-me tempo ante tanta escrita - e ainda há os outros, que também há outros escritores - e «tanta angústia nos relógios, tanta vontade de alcançar o tempo», mas angustiado embora, lerei.

Alcateia, de Carlos de Oliveira - conclusão


Acabei, enfim, a Alcateia do Carlos de Oliveira. É um livro brutal, que nos atinge com uma violência tão grande como a do Venâncio, saído da cadeia, acompanhado pelo Troncho, a exumarem em noite fatal o cádaver do Capula, traidor, só mesmo para o agredirem a murro, despejando nele sobre a forma de vingança a justiça por haver, a mesma justiça que os fizera sofrer na carne o longo cárcere e o degredo. Não há podridão do corpo que purgue as manchas da alma. É sobre essas que o livro se constrói no ignoto lugar de Corgos, afinal no lugar de cada um de nós.

24/10/09

Ludwig Wittgenstein



O Ludwig Wittgenstein era homossexual, o que importa pouco, mas era um génio, o que importa muito. Escreveu filosofia nas trincheiras, o que ajuda a formar uma lenda, na sua foto mais conhecida aparece a envergar um flying jacket o que compõe sobremaneira a imagem. Além disso, trocou a comodidade de filho de um magnate do aço por professor de escolas primárias em aldeias pobres na Áustria, o que dá uma certificação política que, tudo junto, é um autêntico «laissez passer».
Bertrand Russel abriu-lhe as portas em Cambridge, a sua obra abriu-lhe as portas do reconhecimento da comunidade inteligente do planeta. Diz-se que a sua última frase foi a de pedir que espalhassem que tinha tido uma vida maravilhosa. Escreveu o Tractatus Logico Philosophicus em 1921 para demonstrar que o que se sabe tem como limite o que se diz. Mesmo assim há aporias, como quando se diz algo que não existe, salvo como conceito matemático pois que estatístico. É o caso da magnífica frase «um homem médio tem 2,6 filhos». Coitado daquele que for o 0,6 !
Escrevo isto com ironia mas tenho uma viva admiração por ele, mesmo quando não o compreendo e talvez por isso. O modo risonho deste escrito nocturno resulta de ter encontrado há pouco um interessante blog chamado A Namorada de Wittgenstein. Está aqui.

O Livro do Chá, de Okakura Kakuzō


Okakura Kakuzō estudou na Universidade Imperial de Tóquio sob a direcção de Ernest Fenollosa. Li há uns anos o seu Livro do Chá editado pela Cotovia em 1997. Escrito amorosamente é quase um texto sagrado sobre uma religião que a ter nome se chamaria - e ele assim a chamou - o Cháismo.
A leitura revolucionou-me o espírito, convocando-me para uma muito outra visão das coisas. ««O Cháismo é um culto baseado na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária (...). Consiste essencialmente numa adoração do Imperfeito, já que é uma tentativa terna de atingir algo possível nesta coisa impossível a que chamamos vida». Assim abre esta formidável descrição, de exaltação da assimetria porque só ela abre a porta enigmática ao que equilibra e completa, um saber líquido feito de enamoramento da Sala de Chá enquanto Domicílio da Fantasia.
Lê-se e inicia-se. A verdadeira sabedoria está no não repetir, na proibição da reiteração inútil. No um encontra-se o uno por uma única vez. Entra-se na Arte quando se aprende «a subtil utilidade do inútil». O Cháismo transforma-nos preparando-nos. «Na religião, o Futuro está atrás de nós. Na Arte, o Presente é o Eterno».

Martin Heidegger, por Emmanuel Faye


Quando a Segunda Guerra terminou os aliados passaram certificados de «desnazificação». Passou a haver os bons e os maus nazis. Alguns nazis úteis passaram a ser bons alemães. Depois houve a vista grossa em relação a muitos activistas e colaboracionistas, porque eram intelectuais de renome, mestres-cantores na Kultur ou pessoas sedutoras na Arte. Na música, no cinema, nas letras, os exemplos abundam. De quando em vez há um que tem de entrar em explicações ante o tribunal da opinião pública.
Lembro isto por causa de um notável artigo que se pode ler aqui sobre o filósofo Heidegger, hoje laureado e com honras de acolhimento nos respeitáveis meios culturais e académicos, mas outora um proeminente adepto das doutrinas expansionistas e racistas do III Reich. Trata-se da recensão à tradução inglesa do livro de Emmanuel Faye, Heidegger: The Introduction of Nazism Into Philosophy, a publicar em breve pela Yale University Press [sobre a versão original e sobre o autor em geral, consulte-se aqui].
A linha geral do livro, que o artigo ressalta, é que um autor que coloca as suas ideias ao serviço do nazismo não pode ser considerado um filósofo. A tese é discutível e a ser verdadeira mina os fundamentos filosóficos de todos os que alinharam filosoficamente pelos totalitarismos. Poder-se-á sim pensar que não é filosofia mas ideologia todo o pensamento que visa a legitimação de uma política. A ser assim, estaríamos entre propagandistas refinados, construindo como se sistema fosse, aquilo que seria uma prática agressiva, como se de razão se tratasse, a expressão violenta do irracional. Engenheiros de almas, moldariam a política do espírito, gerando a submissão da mente ao triunfo da vontade.
Nisso, as ideias de Matin Heidegger, os filmes de Lenni Riefensthal e  a música de Herbert von Karajan, são uma e a mesma realidade: para além dos nazis que, como bodes, expiaram em Nuremberg, só são hoje nazis os pequenos alemães que se não conseguiram empregar na indústria cultural subsequente aos Acordos de Potsdam.
Na cultura, há sempre uma forma de uma pessoa se justificar: é a teoria da cebola e suas cascas. Also Spracht SS-Mann Günter Grass.


Dormir al Sol, de Bioy Casares



Enganei-me. E como sou superticioso, acredito no valor simbólico do engano.Tinha comprado dois livros de Bioy Casares. Ainda não acabei de ler um deles e hoje, com a vista ainda meia turva de sono, peguei no que julgava ser esse e levei-o para continuar a leitura, com o propósito, aliás, de acabá-la, porque deve haver uma qualquer lei do consumo de literatura que define a quantidade máxima de livros que simultâneamente se estão ainda a ler sem chegar ao fim.
Tarde demais dei pelo erro. Já não podia voltar atrás para o reparar, porque é dia de preguiça e ao mesmo tempo arrisquei seguir o trilho que o destino me assinalara. Agora está inevitavelmente inciado, o que é irritante por aumentar a minha dificuldade em reduzir as pendências literárias e ainda por cima, estou seduzido pelo que leio e vou ser vítima da inevitabilidade.
Assim foi que iniciei o Dormir al Sol. É uma narrativa contada num contexto de um matrimónio quesilento, no território azedo dos mal-entendidos e das zangas, em que é falso que as pessoas se entendam a conversar, por ser precisamente a conversar que se irritam e o silêncio equivaler à paz.
Diana, cavilosa e desconfiada, qualquer boa notícia a entristece, porque dá a supor que, para compensá-la, virá uma má. Para si a frase «se não queres entristecer-me, não estejas nunca triste» tem como resposta razoável «então, não venhas com a história de que é por minha causa que te preocupas». E abre-se a cena do ódio e da recriminação.
É o mundo do «descontentamento geral», das indispostas e queixosas senhoras do «grémio das esposas». Haverá seguramente livros sobre maridos contentes e mulheres felizes, na base do era uma vez. Este está-me a parecer que trata da teoria geral da indisposição e seus fantasmas.
«Peripécias inusitadas», diz-se na contra-capa a anunciar a obra. Ou talvez não. Depois digo se não são, afinal, modos extraordinários de contar lugares comuns.

22/10/09

8-8-8: a luta pelos três tempos



A cultura tem muito a ver com a política, se bem que a política não se importa muito com a cultura. No século dezanove o ideal reformador eram os três oito, oito horas para trabalhar, oito para descansar, oito para uma pessoa se cultivar. Era o homem integral, trabalhador, lúdico, sabedor. Hoje temos pela frente uma multidão de ensonados, porque o tempo mal chega para dormir e mal conseguem ler um livro porque passam horas no trabalho ou no vai-vém que os leva e traz do trabalho.
Encontrei hoje por acaso uma expressão dessa velha reivindicação operária: um blog sobre os três oitos, aqui, ainda a tempo, diga-se.

21/10/09

Cartas, de Manuel Laranjeira



Quando fui a Manhufe ver a casa do Amadeo de Souza Cardoso perguntei em Amarante onde era Manhufe e o residente da terra de Pascoaes não sabia. Depois lá me informei, fui pela estrada fora e passei pela casa sem dar conta, porque não estava assinalada. Voltei para trás e lá a descobri. Estava fechada e não admitia visitas. Não voltei. Vi então alguns quadros do Amadeo no museu local e confesso não tive coragem para ir à Gulbenkian, que é aqui em frente, quando tout Lisbonne decidiu que o homem que deu escândalo quando da sua primeira exposição na Liga Naval era, enfim, um génio.
Vem isto a propósito de ter descoberto esta noite que o Manuel Laranjeira, esse místico laico que achava que os misticismos eram patologias do espírito e ele era um profundo neurasténico, se correspondeu com o ímpar pintor. Encontrei-as, essas desesperadas missivas no pequeno livro que Ramiro Mourão, que com ele viveu os últimos dez anos de vida, editou, em 1942, pela Portugália, com um prefácio de Miguel de Unamuno.
Leio: «Lisboa é um símbolo, o resumo da torpeza nacional: aos que não corrompe, enoja-os», gritava numa o solitário escritor.
Mas não foi por isso que eu vim aqui. É que tendo encontrado aqui uma caricatura em que Amadeo se retrata com Laranjeira pedalando numa bicicleta, o primeiro abatido  o segundo iracundo, encontrei também a carta de 24 de Abril de 1906 que Laranjeira escreve ao pintor: «V. tem falhado em todas as vezes que tenta caricaturar-me, meu amigo, e vou dizer-lhe. É porque você ainda está na idade em que se ri das coisas tristes».

20/10/09

José Saramago: ateu e a-meu



O José Saramago, porque é Prémio Nobel da Literatura, diz coisas e o País ouve. Devia ser o mundo a ouvi-lo mas ele não tem, reconheçamos, dimensão para ser escutado pelo mundo, porque o Saramago é cada vez menos Prémio Nobel e o Prémio Nobel é cada vez menos prémio. Agora, pelo que vejo, escreveu sobre Deus e a Bíblia e essas coisas que dão sarilho porque mexem em sensibilidades íntimas e para cuja defesa há igrejas organizadas e vigilantes.
Neste intervalo, em que já houve eleições mas não há governo, a boutade em forma de livrito serviu para animar os calores nacionais. Ele e a Maitê Proença que disse mal dos portugueses e que o Miguel Sousa Tavares veio defender, talvez porque raramente diga bem do quer que seja.
É um mundo de tricas e de baldrocas. Nada disso tem a ver com a Literatura, sim com a mediocridade do meio literário. Que Saramago não goste de Deus e a Proença dos portugueses, seja. Ao menos que valha a pena ler porquê. Sem que isso tenha importância, vim aqui dizê-lo e explicar que escolhi esta foto do Levantado do Chão: não porque abre os braços em cruz, sim porque se abraça a si próprio. Significativamente. E pronto, está feita a terapia hepática.

19/10/09

Onde o homem acaba...,por Emídio Santana



Emídio Santana, militante anarco-sindicalista. A cabeça patrícia, uma farta cabeleira como a de Álvaro Cunhal, o semblante a lembrar o José Gomes Ferreira.
Em 4 de Fevereiro de 1937 planeou um atentado contra António de Oliveira Salazar, colocando uma bomba num colector na Avenida Barbosa du Bocage. Planeava matar o Presidente do Conselho de Ministros e assim pôr termo ao jovem Estado Novo. O engenho explodiu, mas mal colocado porque mal calculado, não matou quem pretendia liquidar. Salazar escapou. Santana foi condenado a 16 anos de prisão.
Profundo conhecedor da alma humana, cinzelado pelo sacrifício da militância e pelo sofrimento da repressão, condensou num livro os seus escritos do cárcere. A Assírio e Alvim editou-os em 1989. Chama-se a pequena obra Onde o Homem Acaba e a Maldição Começa. São narrativas sobre a realidade carcerária dos anos quarenta, mas são histórias actuais, de «ex-homens», limitados pelo confinamento celular, orientados ao único objectivo que é o de sobreviver, resistir, aguentar, chegar ao fim da pena.
Li esta noite a história do Varandas, condenado da velha guarda, veterano inconformista, irreverente, a odiar por igual a autoridade, que tinha por opressora, e a religião, que julgava supersticiosa. Cumpriu parte da sentença porque o mandado de soltura foi a certidão de óbito.
Entrou na enfermaria, ante-câmara do cemitério, roído de padecimentos. Sofreu a insónia, a agonia, a angústia, a solidão, o estretor e já no fim, alta a madrugada, a alma a libertar-se, foi.
«O Varandas já não era um recluso; deixara de ser o 174...porque já era um cadáver. Libertara-se no silêncio da noite, fechado numa cela, a sós com o seu sofruimento, os seus sonhos e as suas quimeras». Veio o capelão encomendar quem não lho pedira. «Era uma filoxera a menos na vinha do Senhor, uma unidade da trista conserva humana carcerária que expiava uma sentença». Finara.
Ressuma bondade a escrita deste homem que, por amor à sua Pátria, quis matar o Estado em nome da Nação.

18/10/09

La Invención de Morel, de Bioy Casares



São livros de formato pequeno, que cabem precisamente num bolso, artigos de uma colecção em cuja selecção se percebe ter havido critério. Edita-os a Alianza Editorial. Publica-se nessa forma todo o Borges e qualquer dia já li assim todo o Borges editado. Agora comecei o Adolfo Bioy Casares que era amigo do Borges e que o Borges prefaciou e que em certas fotografias parece o Borges e que se divertiu com o Borges na sublime arte da risota inteligente. Chama-se La Invención de Morel. O dito Morel só surge na página 49, inesperadamente. Tive de voltar atrás para confirmar se o autor não tinha falado dele anteriormente. Mas não tinha, de facto.
No prefácio que referi o Jorge Luís Borges fala do que chama com notável capacidade de sugerir «a novela de peripécias». A maior parte das narrativas são assim baseadas no suceder de coisas que sucedem. Nesta são ocorrências. Surgem exteriores ao narrador, o leitor ganha a ilusão que têm a ver com ele e, por via disso, que têm a ver consigo.Surge assim «a casa infestada de ecos», as «bibliotecas inesgotáveis e deficientes», e, para animar quem vive «em ruína incómoda» o acicatante «bordel de mulheres cegas». Faz sentido porque o amor é cego, os escritores são loucos e os russos demonstaram que em Literatura já não há impossíveis.

17/10/09

Geschlecth in Fesseln, de Wilhelm Dieterle



São títulos enganadores e classificações idiotas. «Geschlecth in Fesseln», um filme alemão realizado e protagonizado por Wilhelm Dieterle e realizado em 1928 aparece em algumas fontes sobre cinema classificado sobre a homossexualidade nas prisões. É tudo menos isso ou quase.
A narrativa prende-se com a fidelidade de uma mulher a um marido preso. Toca de modo mais do que subtil uma possível carícia entre o preso e um outro companheiro de cela.
Desenvolvendo-se numa lógica de angústia, culpa e expiação, num contexto social em que o desemprego e as dificuldades financeiras dão um ligeiro contexto, a narrativa termina com um suicídio do casal, morte conjunta como a de Stefan Zweig e sua última mulher.
Película ingénua, em cinema mudo, a viver dos efeitos visuais e da melhor expressão - o seu realizador trabalhou com Murnau - , não há nele nada de importante a contar.
O título em português Sexo Acorrentado, que vem, aliás, na peugada da titulação em outras línguas - Sex in Chains na versão inglesa - sugere algum fetiche sado-maso. Mas no fundo trata-se da história convencional de uma questão séria, em que com boa vontade se pode ver um perfume freudiano.
Púdico o que nele se conta é o efeito da ausência de carinho e de companhia. Nele, a palavra sexo está a mais. Mas o título alemão já é assim, a falar de carne e não de alma. Foi esta noite, na Cinemateca.

O Chão dos Pardais (ii), de Dulce Maria Cardoso



Acabei. Fantástico. Houve um momento a meio em que hesitei. Julguei-o pior do que os livros anteriores. Para uma escritora premiada seria penoso. Mas prossegui. Caminhei como Elizaveta, a mala na mão em busca do corpo de Clara,  porque «o amor faz bem a quem o sente. Aos amados nem por isso. Tolhe-os. Endivida-os» e eu desejava a familiaridade desta escrita.
Talvez eliminasse no livro os momentos que são o espaço virtual em conversação, esse quarto-escuro de alucinações, ainda por cima impressos a corpo menor, a dar um ar de improvisação tipográfica a uma obra que exigia ter sido impressa em oitavo, para um formato mais íntimo, um livro que se aconchegasse junto de quem o lê.
É uma escrita de risos também, mas sobretudo uma escrita dorida. Caminha «contra aquilo que o corpo quer», como os papagaios verdes que não pertencem àqueles céus. Uma escrita feita da desistência de matar, em que todos sobrevivem como personagens, mesmo os mortos como pessoas, porque ninguém rejeita o futuro, mesmo as irrealidades humanas feitas de cólera quase inhumana.
É um modo de escrever «com relâmpagos na cabeça» em que «o mal era capaz de sorrir de uma forma mais sedutora do que o bem». Uma bela escrita.
«A distância é uma morte temporária». Dulce Maria Cardoso ainda não pode parar de escrever.

16/10/09

As noites brancas, de Fiódor Dostoiévski



Traduzido do russo e não do francês - como tantas outras versões - por Nina Guerra e Filipe Guerra, o livro As Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski a si mesmo se chama «romance sentimental, das memórias de um sonhador». A obra foi publicada pela primeira vez em 1848. Como nota o tradutor, o herói, tal como o dos Cadernos do Subterrâneo, do mesmo autor, é um desadaptado que perdeu o talento de viver «na vida real».
Logo nos primeiros diálogos, aliás, a desconhecia, a «querida Nástenka», com quem contracena ao longo da narrativa, percebe-o porque ele «faz de si um inimigo» e é essa inimizade que o arrasta e ele persegue, sonhador e o sonhador «não é uma pessoa mas uma categoria intermédia», a vogar, por isso, num mundo feito de criaturas.
Na terceira noite ela está contente e trava-se a conversa que é a chave dos sentimentos de que a obra é a a ficção:
«Sabe por que estou tão contente? - disse ela. - Porque me agrada tanto vê-lo? Por que gosto tanto de si hoje?
«Porquê? - perguntei e o meu coração tremeu.
«Gosto de si, porque não se apaixonou por mim».
 
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