26/10/09

Até ao Fim, de Vergílio Ferreira



Deve haver um qualquer momento em que um autor, cansado de dar corda às histórias dos outros, se intromete na própria narrativa. Não apenas como o Alfred Hitchcock, que autenticava cada um dos seus filmes fazendo-se filmar, como numa piscadela de olhos ao espectador, num canto da cena, discreto mas perceptível, mas a aparecer sim de modo ostensivo, por vezes fulgurante, de dedo no ar, a dizer «pára tudo agora, que aqui estou eu!».
Sucede assim até com o sorumbático Vergílio Ferreira que se esvaíu, paciente, em favor das personagens a que deu vida, escritor sacrificado, ao serviço do seu dom, a letra miudinha, a tábua nos joelhos. Notei isso esta manhã de nevoeiro. É no capítulo XXVIII do Até ao Fim, umas das suas obras finais:
«- Mas os pinheiros tiram-nos o sol da casa - diz a mulher do V. F. - Já cortei alguns, mas tenho de cortar mais. Nem posso ter um canteiro de flores.
« - Mas um pinhal é bonito - disse eu.
- Não são precisos tantos pinheiros - disse ela. -E estes aqui em cima da casa estragam-na e tiram a luz».
- É inútil - disse V. F. - Minha mulher é pinheiricida».
Eis. Não será um momento de grande literatura, com estes «ele» e «ela» a simplificarem o texto, mas é uma  página de indesmentível verdade e essa vale mais, quando surge, assim espontânea, que o melhor instante de estilo que ali estivesse.
Nem sempre é bela e raramente é trabalhada a verdade da existência, mesmo vivida através da escrita.
«Mas V. F. deve ter-se imaginado diante dos alunos e disparou. E disse que sempre disse que escrevia para estar vivo. Mas já outros vieram a dizar o mesmo e portanto já não e verdade».
A casa com os pinheiros era em Fontanelas. Ainda lá está. Fui visitar a sua verdade há uns anos, num mau momento. Reecontrei-a hoje na forma de literatura e parece ficção.

25/10/09

Que Cavalos São Aqueles..., de António Lobo Antunes


Violento-me para ser justo, porque o acho detestável de tão vaidoso, voyeur do seu próprio exibicionismo, a tentar seduzir pela decadência e a consegui-lo, mas, admito, a sua escrita é admirável, mesmo quando é o leitor a construir, lendo, o que ele não escreveu mas sabe-o e intromete-se na própria escrita para confessá-lo e nisso é sério porque não tem ilusões quanto ao que anda a fazer da nossa paciência e diz «eis o António Lobo Antunes a saltar frases não logrando acompanhar-me».
Comecei esta manhã a ler Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?e julgava que era o último livro dele até me assustar ao ver que tinha menção a que era a 4ª edição, mas depois compreendi que ele edita muito ou a editora chama nova edição ao que é uma reimpressão e manda reimprimir muitas vezes para parecerem mais as edições e já estou a dizer mal por não gostar dele, «a detestá-lo por me desarrumar o passado» mas tenho de ser justo mesmo que me violente.
E é, dizia, uma escrita admirável, em que o edifício das palavras e das frases e dos períodos e dos parágrafos implodiu e o leitor caminha, semi-cego pela poeira «poeira que demorava a cair ocultando-nos de nós mesmos e ao ocultar-nos de nós mesmos não éramos», em que entre os escombros verbais e o desabar gramatical surgem, densos e a escorrer, os sentimentos e as recordações a ensarilharem-se na leitura e um mundo que já foi de «escadas dos cartórios quase tão gastas como a minha mãe», e há uma mãe que morre e um notário para os ossos da família roídos e nele «uma empregada de aliança, mas viúva no coração».
A frase «cavalos fazendo sombra no mar» vem na página 19 e daí o título do livro e eu vou na página 46, parei agora para tomar fôlego, entre toiros «farejando a própria urina e as próprias fezes não as reconhecendo, farejando o próprio cheiro e investindo contra si mesmo porque o cheiro mudara» e vim aqui escrever o que estou a sentir.
Deus te perdoe a arrogância, mesmo que sejas neste livro o Francisco, irmão da Beatriz, António Lobo Antunes que eu lerei tudo quanto escreveste, e escreveste já muito, lerei juro se tiver tempo mas falta-me tempo ante tanta escrita - e ainda há os outros, que também há outros escritores - e «tanta angústia nos relógios, tanta vontade de alcançar o tempo», mas angustiado embora, lerei.

Alcateia, de Carlos de Oliveira - conclusão


Acabei, enfim, a Alcateia do Carlos de Oliveira. É um livro brutal, que nos atinge com uma violência tão grande como a do Venâncio, saído da cadeia, acompanhado pelo Troncho, a exumarem em noite fatal o cádaver do Capula, traidor, só mesmo para o agredirem a murro, despejando nele sobre a forma de vingança a justiça por haver, a mesma justiça que os fizera sofrer na carne o longo cárcere e o degredo. Não há podridão do corpo que purgue as manchas da alma. É sobre essas que o livro se constrói no ignoto lugar de Corgos, afinal no lugar de cada um de nós.

24/10/09

Ludwig Wittgenstein



O Ludwig Wittgenstein era homossexual, o que importa pouco, mas era um génio, o que importa muito. Escreveu filosofia nas trincheiras, o que ajuda a formar uma lenda, na sua foto mais conhecida aparece a envergar um flying jacket o que compõe sobremaneira a imagem. Além disso, trocou a comodidade de filho de um magnate do aço por professor de escolas primárias em aldeias pobres na Áustria, o que dá uma certificação política que, tudo junto, é um autêntico «laissez passer».
Bertrand Russel abriu-lhe as portas em Cambridge, a sua obra abriu-lhe as portas do reconhecimento da comunidade inteligente do planeta. Diz-se que a sua última frase foi a de pedir que espalhassem que tinha tido uma vida maravilhosa. Escreveu o Tractatus Logico Philosophicus em 1921 para demonstrar que o que se sabe tem como limite o que se diz. Mesmo assim há aporias, como quando se diz algo que não existe, salvo como conceito matemático pois que estatístico. É o caso da magnífica frase «um homem médio tem 2,6 filhos». Coitado daquele que for o 0,6 !
Escrevo isto com ironia mas tenho uma viva admiração por ele, mesmo quando não o compreendo e talvez por isso. O modo risonho deste escrito nocturno resulta de ter encontrado há pouco um interessante blog chamado A Namorada de Wittgenstein. Está aqui.

O Livro do Chá, de Okakura Kakuzō


Okakura Kakuzō estudou na Universidade Imperial de Tóquio sob a direcção de Ernest Fenollosa. Li há uns anos o seu Livro do Chá editado pela Cotovia em 1997. Escrito amorosamente é quase um texto sagrado sobre uma religião que a ter nome se chamaria - e ele assim a chamou - o Cháismo.
A leitura revolucionou-me o espírito, convocando-me para uma muito outra visão das coisas. ««O Cháismo é um culto baseado na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária (...). Consiste essencialmente numa adoração do Imperfeito, já que é uma tentativa terna de atingir algo possível nesta coisa impossível a que chamamos vida». Assim abre esta formidável descrição, de exaltação da assimetria porque só ela abre a porta enigmática ao que equilibra e completa, um saber líquido feito de enamoramento da Sala de Chá enquanto Domicílio da Fantasia.
Lê-se e inicia-se. A verdadeira sabedoria está no não repetir, na proibição da reiteração inútil. No um encontra-se o uno por uma única vez. Entra-se na Arte quando se aprende «a subtil utilidade do inútil». O Cháismo transforma-nos preparando-nos. «Na religião, o Futuro está atrás de nós. Na Arte, o Presente é o Eterno».

Martin Heidegger, por Emmanuel Faye


Quando a Segunda Guerra terminou os aliados passaram certificados de «desnazificação». Passou a haver os bons e os maus nazis. Alguns nazis úteis passaram a ser bons alemães. Depois houve a vista grossa em relação a muitos activistas e colaboracionistas, porque eram intelectuais de renome, mestres-cantores na Kultur ou pessoas sedutoras na Arte. Na música, no cinema, nas letras, os exemplos abundam. De quando em vez há um que tem de entrar em explicações ante o tribunal da opinião pública.
Lembro isto por causa de um notável artigo que se pode ler aqui sobre o filósofo Heidegger, hoje laureado e com honras de acolhimento nos respeitáveis meios culturais e académicos, mas outora um proeminente adepto das doutrinas expansionistas e racistas do III Reich. Trata-se da recensão à tradução inglesa do livro de Emmanuel Faye, Heidegger: The Introduction of Nazism Into Philosophy, a publicar em breve pela Yale University Press [sobre a versão original e sobre o autor em geral, consulte-se aqui].
A linha geral do livro, que o artigo ressalta, é que um autor que coloca as suas ideias ao serviço do nazismo não pode ser considerado um filósofo. A tese é discutível e a ser verdadeira mina os fundamentos filosóficos de todos os que alinharam filosoficamente pelos totalitarismos. Poder-se-á sim pensar que não é filosofia mas ideologia todo o pensamento que visa a legitimação de uma política. A ser assim, estaríamos entre propagandistas refinados, construindo como se sistema fosse, aquilo que seria uma prática agressiva, como se de razão se tratasse, a expressão violenta do irracional. Engenheiros de almas, moldariam a política do espírito, gerando a submissão da mente ao triunfo da vontade.
Nisso, as ideias de Matin Heidegger, os filmes de Lenni Riefensthal e  a música de Herbert von Karajan, são uma e a mesma realidade: para além dos nazis que, como bodes, expiaram em Nuremberg, só são hoje nazis os pequenos alemães que se não conseguiram empregar na indústria cultural subsequente aos Acordos de Potsdam.
Na cultura, há sempre uma forma de uma pessoa se justificar: é a teoria da cebola e suas cascas. Also Spracht SS-Mann Günter Grass.


Dormir al Sol, de Bioy Casares



Enganei-me. E como sou superticioso, acredito no valor simbólico do engano.Tinha comprado dois livros de Bioy Casares. Ainda não acabei de ler um deles e hoje, com a vista ainda meia turva de sono, peguei no que julgava ser esse e levei-o para continuar a leitura, com o propósito, aliás, de acabá-la, porque deve haver uma qualquer lei do consumo de literatura que define a quantidade máxima de livros que simultâneamente se estão ainda a ler sem chegar ao fim.
Tarde demais dei pelo erro. Já não podia voltar atrás para o reparar, porque é dia de preguiça e ao mesmo tempo arrisquei seguir o trilho que o destino me assinalara. Agora está inevitavelmente inciado, o que é irritante por aumentar a minha dificuldade em reduzir as pendências literárias e ainda por cima, estou seduzido pelo que leio e vou ser vítima da inevitabilidade.
Assim foi que iniciei o Dormir al Sol. É uma narrativa contada num contexto de um matrimónio quesilento, no território azedo dos mal-entendidos e das zangas, em que é falso que as pessoas se entendam a conversar, por ser precisamente a conversar que se irritam e o silêncio equivaler à paz.
Diana, cavilosa e desconfiada, qualquer boa notícia a entristece, porque dá a supor que, para compensá-la, virá uma má. Para si a frase «se não queres entristecer-me, não estejas nunca triste» tem como resposta razoável «então, não venhas com a história de que é por minha causa que te preocupas». E abre-se a cena do ódio e da recriminação.
É o mundo do «descontentamento geral», das indispostas e queixosas senhoras do «grémio das esposas». Haverá seguramente livros sobre maridos contentes e mulheres felizes, na base do era uma vez. Este está-me a parecer que trata da teoria geral da indisposição e seus fantasmas.
«Peripécias inusitadas», diz-se na contra-capa a anunciar a obra. Ou talvez não. Depois digo se não são, afinal, modos extraordinários de contar lugares comuns.

22/10/09

8-8-8: a luta pelos três tempos



A cultura tem muito a ver com a política, se bem que a política não se importa muito com a cultura. No século dezanove o ideal reformador eram os três oito, oito horas para trabalhar, oito para descansar, oito para uma pessoa se cultivar. Era o homem integral, trabalhador, lúdico, sabedor. Hoje temos pela frente uma multidão de ensonados, porque o tempo mal chega para dormir e mal conseguem ler um livro porque passam horas no trabalho ou no vai-vém que os leva e traz do trabalho.
Encontrei hoje por acaso uma expressão dessa velha reivindicação operária: um blog sobre os três oitos, aqui, ainda a tempo, diga-se.

21/10/09

Cartas, de Manuel Laranjeira



Quando fui a Manhufe ver a casa do Amadeo de Souza Cardoso perguntei em Amarante onde era Manhufe e o residente da terra de Pascoaes não sabia. Depois lá me informei, fui pela estrada fora e passei pela casa sem dar conta, porque não estava assinalada. Voltei para trás e lá a descobri. Estava fechada e não admitia visitas. Não voltei. Vi então alguns quadros do Amadeo no museu local e confesso não tive coragem para ir à Gulbenkian, que é aqui em frente, quando tout Lisbonne decidiu que o homem que deu escândalo quando da sua primeira exposição na Liga Naval era, enfim, um génio.
Vem isto a propósito de ter descoberto esta noite que o Manuel Laranjeira, esse místico laico que achava que os misticismos eram patologias do espírito e ele era um profundo neurasténico, se correspondeu com o ímpar pintor. Encontrei-as, essas desesperadas missivas no pequeno livro que Ramiro Mourão, que com ele viveu os últimos dez anos de vida, editou, em 1942, pela Portugália, com um prefácio de Miguel de Unamuno.
Leio: «Lisboa é um símbolo, o resumo da torpeza nacional: aos que não corrompe, enoja-os», gritava numa o solitário escritor.
Mas não foi por isso que eu vim aqui. É que tendo encontrado aqui uma caricatura em que Amadeo se retrata com Laranjeira pedalando numa bicicleta, o primeiro abatido  o segundo iracundo, encontrei também a carta de 24 de Abril de 1906 que Laranjeira escreve ao pintor: «V. tem falhado em todas as vezes que tenta caricaturar-me, meu amigo, e vou dizer-lhe. É porque você ainda está na idade em que se ri das coisas tristes».

20/10/09

José Saramago: ateu e a-meu



O José Saramago, porque é Prémio Nobel da Literatura, diz coisas e o País ouve. Devia ser o mundo a ouvi-lo mas ele não tem, reconheçamos, dimensão para ser escutado pelo mundo, porque o Saramago é cada vez menos Prémio Nobel e o Prémio Nobel é cada vez menos prémio. Agora, pelo que vejo, escreveu sobre Deus e a Bíblia e essas coisas que dão sarilho porque mexem em sensibilidades íntimas e para cuja defesa há igrejas organizadas e vigilantes.
Neste intervalo, em que já houve eleições mas não há governo, a boutade em forma de livrito serviu para animar os calores nacionais. Ele e a Maitê Proença que disse mal dos portugueses e que o Miguel Sousa Tavares veio defender, talvez porque raramente diga bem do quer que seja.
É um mundo de tricas e de baldrocas. Nada disso tem a ver com a Literatura, sim com a mediocridade do meio literário. Que Saramago não goste de Deus e a Proença dos portugueses, seja. Ao menos que valha a pena ler porquê. Sem que isso tenha importância, vim aqui dizê-lo e explicar que escolhi esta foto do Levantado do Chão: não porque abre os braços em cruz, sim porque se abraça a si próprio. Significativamente. E pronto, está feita a terapia hepática.

19/10/09

Onde o homem acaba...,por Emídio Santana



Emídio Santana, militante anarco-sindicalista. A cabeça patrícia, uma farta cabeleira como a de Álvaro Cunhal, o semblante a lembrar o José Gomes Ferreira.
Em 4 de Fevereiro de 1937 planeou um atentado contra António de Oliveira Salazar, colocando uma bomba num colector na Avenida Barbosa du Bocage. Planeava matar o Presidente do Conselho de Ministros e assim pôr termo ao jovem Estado Novo. O engenho explodiu, mas mal colocado porque mal calculado, não matou quem pretendia liquidar. Salazar escapou. Santana foi condenado a 16 anos de prisão.
Profundo conhecedor da alma humana, cinzelado pelo sacrifício da militância e pelo sofrimento da repressão, condensou num livro os seus escritos do cárcere. A Assírio e Alvim editou-os em 1989. Chama-se a pequena obra Onde o Homem Acaba e a Maldição Começa. São narrativas sobre a realidade carcerária dos anos quarenta, mas são histórias actuais, de «ex-homens», limitados pelo confinamento celular, orientados ao único objectivo que é o de sobreviver, resistir, aguentar, chegar ao fim da pena.
Li esta noite a história do Varandas, condenado da velha guarda, veterano inconformista, irreverente, a odiar por igual a autoridade, que tinha por opressora, e a religião, que julgava supersticiosa. Cumpriu parte da sentença porque o mandado de soltura foi a certidão de óbito.
Entrou na enfermaria, ante-câmara do cemitério, roído de padecimentos. Sofreu a insónia, a agonia, a angústia, a solidão, o estretor e já no fim, alta a madrugada, a alma a libertar-se, foi.
«O Varandas já não era um recluso; deixara de ser o 174...porque já era um cadáver. Libertara-se no silêncio da noite, fechado numa cela, a sós com o seu sofruimento, os seus sonhos e as suas quimeras». Veio o capelão encomendar quem não lho pedira. «Era uma filoxera a menos na vinha do Senhor, uma unidade da trista conserva humana carcerária que expiava uma sentença». Finara.
Ressuma bondade a escrita deste homem que, por amor à sua Pátria, quis matar o Estado em nome da Nação.

18/10/09

La Invención de Morel, de Bioy Casares



São livros de formato pequeno, que cabem precisamente num bolso, artigos de uma colecção em cuja selecção se percebe ter havido critério. Edita-os a Alianza Editorial. Publica-se nessa forma todo o Borges e qualquer dia já li assim todo o Borges editado. Agora comecei o Adolfo Bioy Casares que era amigo do Borges e que o Borges prefaciou e que em certas fotografias parece o Borges e que se divertiu com o Borges na sublime arte da risota inteligente. Chama-se La Invención de Morel. O dito Morel só surge na página 49, inesperadamente. Tive de voltar atrás para confirmar se o autor não tinha falado dele anteriormente. Mas não tinha, de facto.
No prefácio que referi o Jorge Luís Borges fala do que chama com notável capacidade de sugerir «a novela de peripécias». A maior parte das narrativas são assim baseadas no suceder de coisas que sucedem. Nesta são ocorrências. Surgem exteriores ao narrador, o leitor ganha a ilusão que têm a ver com ele e, por via disso, que têm a ver consigo.Surge assim «a casa infestada de ecos», as «bibliotecas inesgotáveis e deficientes», e, para animar quem vive «em ruína incómoda» o acicatante «bordel de mulheres cegas». Faz sentido porque o amor é cego, os escritores são loucos e os russos demonstaram que em Literatura já não há impossíveis.

17/10/09

Geschlecth in Fesseln, de Wilhelm Dieterle



São títulos enganadores e classificações idiotas. «Geschlecth in Fesseln», um filme alemão realizado e protagonizado por Wilhelm Dieterle e realizado em 1928 aparece em algumas fontes sobre cinema classificado sobre a homossexualidade nas prisões. É tudo menos isso ou quase.
A narrativa prende-se com a fidelidade de uma mulher a um marido preso. Toca de modo mais do que subtil uma possível carícia entre o preso e um outro companheiro de cela.
Desenvolvendo-se numa lógica de angústia, culpa e expiação, num contexto social em que o desemprego e as dificuldades financeiras dão um ligeiro contexto, a narrativa termina com um suicídio do casal, morte conjunta como a de Stefan Zweig e sua última mulher.
Película ingénua, em cinema mudo, a viver dos efeitos visuais e da melhor expressão - o seu realizador trabalhou com Murnau - , não há nele nada de importante a contar.
O título em português Sexo Acorrentado, que vem, aliás, na peugada da titulação em outras línguas - Sex in Chains na versão inglesa - sugere algum fetiche sado-maso. Mas no fundo trata-se da história convencional de uma questão séria, em que com boa vontade se pode ver um perfume freudiano.
Púdico o que nele se conta é o efeito da ausência de carinho e de companhia. Nele, a palavra sexo está a mais. Mas o título alemão já é assim, a falar de carne e não de alma. Foi esta noite, na Cinemateca.

O Chão dos Pardais (ii), de Dulce Maria Cardoso



Acabei. Fantástico. Houve um momento a meio em que hesitei. Julguei-o pior do que os livros anteriores. Para uma escritora premiada seria penoso. Mas prossegui. Caminhei como Elizaveta, a mala na mão em busca do corpo de Clara,  porque «o amor faz bem a quem o sente. Aos amados nem por isso. Tolhe-os. Endivida-os» e eu desejava a familiaridade desta escrita.
Talvez eliminasse no livro os momentos que são o espaço virtual em conversação, esse quarto-escuro de alucinações, ainda por cima impressos a corpo menor, a dar um ar de improvisação tipográfica a uma obra que exigia ter sido impressa em oitavo, para um formato mais íntimo, um livro que se aconchegasse junto de quem o lê.
É uma escrita de risos também, mas sobretudo uma escrita dorida. Caminha «contra aquilo que o corpo quer», como os papagaios verdes que não pertencem àqueles céus. Uma escrita feita da desistência de matar, em que todos sobrevivem como personagens, mesmo os mortos como pessoas, porque ninguém rejeita o futuro, mesmo as irrealidades humanas feitas de cólera quase inhumana.
É um modo de escrever «com relâmpagos na cabeça» em que «o mal era capaz de sorrir de uma forma mais sedutora do que o bem». Uma bela escrita.
«A distância é uma morte temporária». Dulce Maria Cardoso ainda não pode parar de escrever.

16/10/09

As noites brancas, de Fiódor Dostoiévski



Traduzido do russo e não do francês - como tantas outras versões - por Nina Guerra e Filipe Guerra, o livro As Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski a si mesmo se chama «romance sentimental, das memórias de um sonhador». A obra foi publicada pela primeira vez em 1848. Como nota o tradutor, o herói, tal como o dos Cadernos do Subterrâneo, do mesmo autor, é um desadaptado que perdeu o talento de viver «na vida real».
Logo nos primeiros diálogos, aliás, a desconhecia, a «querida Nástenka», com quem contracena ao longo da narrativa, percebe-o porque ele «faz de si um inimigo» e é essa inimizade que o arrasta e ele persegue, sonhador e o sonhador «não é uma pessoa mas uma categoria intermédia», a vogar, por isso, num mundo feito de criaturas.
Na terceira noite ela está contente e trava-se a conversa que é a chave dos sentimentos de que a obra é a a ficção:
«Sabe por que estou tão contente? - disse ela. - Porque me agrada tanto vê-lo? Por que gosto tanto de si hoje?
«Porquê? - perguntei e o meu coração tremeu.
«Gosto de si, porque não se apaixonou por mim».

14/10/09

O Chão dos Pardais, de Dulce Maria Cardoso



Há na escrita de Dulce Maria Cardoso uma toada, como se uma ladainha feita de murmúrios antigos, vindos de um tempo interior, intemporal. Feita de frases curtas, algumas com a inocência infantil de serem um modo de escrever tal qual se diz, é uma escrita única na sonoridade, assim a reconheceria quem a visse escrita numa pauta musical em clave de sol.
Reconheço-a, pois, neste seu último romance que me chegou hoje pela manhã e hoje mesmo pela noite comecei a ler.
É difícil ler-se um livro de quem se aprecia a escrita. Neste caso desmesuradamente difícil. «Como é que se pensa uma ideia» pensa Alice cuja ideia no momento em que abro o livro é apenas encontrar uma prenda inesquecível para um marido que há muito a havia esquecido.
Foi assim que, leitor fiel, parti para a leitura e estou na página 56, receoso de que um qualquer momento dessa narrativa a autora falhe, como um cristal que se estilhace porque «não há nada mais imperdoável do que os erros estéticos. Além de incuráveis são contagiosos» e ela não pode errar.
Sigo pelas páginas, como se pelas linhas fora. Passei já pela Clara, substancialmente verdadeira no desejo mesmo quando diferente no acto de desejar, pelo Mc9 tão virtual como possível e um dia deixar-se-á conhecer para além do seu remorso, pela nudez de Sofia, tão apostável como disponível e magnífica. No meio de tudo isso vivi já a dor subrogada pela morte de uma princesa, porque não tem de ser nossa a causa da nossa dor. Vou continuar. Parei agora para vir dizer que estou a ler. Num momento ritual dei uma furtiva olhadela a uma das páginas do fim: «eu acredito que só deveríamos experimentar a juventude se nunca nos fosse tirada», disse Afonso. Talvez tenha melhorado como ser ao longo do romance. No momento em que o leio tem uns horríveis sessenta anos. Odeio-o e «ninguém consegue odiar sem esforço. O ódio exige mais conhecimento, mais prática e mais rotinas do que o amor». Até já.

A cambada de Corgos, de Carlos de Oliveira


Capula vai trair os camaradas de latrocínio. Pouco a pouco «à medida que se fora habituando à ideia de trair os companheiros, invadira-o uma súbita serenidade. Até à frieza completa de agora». É uma narrativa forte, em que a alma se arrepanha pela garra da leitura, chove desapiedadamente na história e no interior de quem lê, uma noite de sangue e de lamaçal, de olhos «cheios do luar pasmoso», de vento, de Natureza e pântano, que «nem chega a ser traição aquilo, é o destino». E, no entanto, um destino que convém às minudências humanas, pequenas misérias de ambição, venalidades pela glória, maldades por vingança. Cosme Sapo que intriga, o Padre Silva, pressuroso, serviçal no púlpito, fugidio porque «ninguém sabe as razões porque padre Silva faz qualquer coisa, nem ele próprio, mas está do lado do Cosme Sapo e é o que importa», todos ali estão, até os amores de Fernando e as ânsias de Hermengarda.
Condenados à grilheta o Leandro, o Venâncio e o Troncho, ladrões do alheio por nada terem de seu, a tristeza que é raiva contra toda a gente, e o povoléu, minguado de meios, em que «ninguém sabe o que deve e o que é seu». Traídos uns pela delação outros pela fatalidade do momento e da origem.
Estou aqui precisamente: Capula trai, compra junto do Administrador a impunidade, mas morre, expiando com a vida a venda dos outros que entrega sem coração, para se livrar «do peso, da solidão, da angústia, que esmagavam a sua vida». Estou pois no momento em que, presa a quadrilha, volta o sossego e o prestígio ao doutor Carmo, o Administrador. Talvez Presidente de Câmara, quem sabe se Governador Civil eis uma carreira que assim se reforça e soergue nas alturas do pequeno mando do incógnito lugar. É a página 206. Triunfante sobre Cosme Sapo, é o momento em que «a corja começava a saltar para o outro lado, à procura da boa sombra». Soberbo, Carmo sente subir-lhe o desprezo pela «cambada de Corgos». Perpetua-se o poder à força da vitória sobre a quadrilha. É a Alcateia de Carlos de Oliveira. O livro que ele negou. Um excelente livro.

13/10/09

Mars Attacks!, de Tim Burton


Talvez por provocação repetidas vezes fiz saber que Marte Ataca! é uma das mais geniais criações que o espírito humano gerou. Claro que ironizo quando o digo e divirto-me com a seriedade dos outros, aqueles que se enfurecem quando há riso, se zangam quando não estamos no território da densidade e da profundidade. Restam aqueles que não perderam a capacidade infantil de ouvir histórias.
Génio, sim, Tim Burton que sobre o original de Jonathan Gems construiu o insólito, o bizarro, o surreal, mas, afinal, uma paródia sobre a condição humana e sobre os tiques lunáticos da sociedade americana.
Riso largo sobre as crenças e sobre as ilusões, gargalhada sobre o poder e a miséria, o filme é mais denso de perspectivas do que a superficialidade de algumas das simplificações a que o sujeitam os espectadores do trivial. Esta noite estava no TVCine-3. Tim Burton iniciou-se a ler Edgar Allan Poe. Walt Disney contratou-o. O oculto abria então portas ao profundo.

12/10/09

Cuntas de la Tierra de las Faias, de António Bárbolo Alves


Acho que a editora Campo das Letras acabou. Ficou um catálogo interessante como as obras em mirandês a que deu vida. É uma língua estranha, antiga, do grupo asturo-leonês. Sente-se nossa, fonética, próxima. A palatização de alguns dos seus sons fá-la surgir como se entranhada no corpo e alma, não como aquelas línguas tagarelantes e superficiais, antes uma língua que se respira, gargareja e regurgita. «Yê ua nuite de Eimbierno. L cielo de un azul alto i strellado cubre la preinada. L algodon an rama ampeçou lhougo pula manhana i todo I santo die fui bê-lo caer. Parecie sembrado a manadas. Num era I purmeiro nebon de l anho mas era de certeza i mais fuorte».
Magnífica, gutural, bucal, mastigada língua. «La tierra parecie drumida. Ancantada por aquel ancanto».

Der Vorleser, de Bernhard Schlink


Um blog sobre livros pressupõe que se leia, assim como um blog sobre a vida exige que se viva. Há, porém, aqueles intervalos em que se não lê porque se está a viver uma vida fora dos livros. No filme Der Vorleser ela é analfabeta. Lê através dos olhos de outrem. O amor e o ódio surgem através da leitura, os sentimentos vão-se acumulando como livros e, tal como eles, há um momento em que exigem arrumação. Nesse momento ela está presa.
O autor do romance é jurista e professor de Direito. A história transforma-se numa reflexão sobre o que é justo, num mundo em que a pergunta é saber apenas o que é possível.

10/10/09

The Comedians, por Graham Greene



Porque é que Graham Greene é um grande escritor? Porque o leitor vai virando folha sobre folha, conduzido pela sua narrativa, sem esforço, seduzido; porque há enredo nas suas histórias e contexto; e porque há densidade humana nas personagens, humanidade; e porque, não havendo trivialidade, há senso comum, vida reconhecível.
Comecei a ler The Comedians, a novela, escrita em 1965, que se passa no Haiti, com todos os elementos reconhecíveis do que era e em parte ainda é aquele desgraçado país, incluindo a miséria, a repressão, o voodoo, a atracção turística, a Natureza indiferente ao que dói.
Irónico, no prefácio o autor explica que o narrador «apesar de o seu nome ser Brown, não é Greene». No mesmo registo acrescenta que muitos o tomaram já como sendo alguma das suas personagens, supondo-o, por exemplo, o amante ciumento da mulher de um funcionário público. Lendo The End of the Affair e comparando-o com a biografia de Greene, o leitor sorri-se.Deveria, porém, penalizar-se, pois os seus mais íntimos e magoados sentimentos escondem-se em cada linha, por vezes quase imperceptíveis a quem não conheça o que viveu: «this is onde of the pains of illict love: even your mistress most extreme embrace is a proof the more that love doesn't last».

06/10/09

1984, de George Orwell


Labiríntico, orwelliano, é o Palácio da Cultura. Vê-se da janela do hotel, imponente na larga avenida. Quando escreveu sobre o Ministério da Verdade na Oceania, George Orwell imaginou-o assim, gigantesco, piramidal, 300 metros de altura e 3 000 salas de extensão. No livro 1984 havia também o Ministério do Amor, o Ministério da Fartura e o Ministério da Paz. No primeiro trata-se de prender os dissidentes. Naturalmente, porque a fidelidade é um dever e quem ama o Estado, ama-o indiscutivelmente.
Eis o pensamente tornado aqui arquitectura. Li o livro através da minha janela em folhas de betão.

05/10/09

A República e o darwinismo


A República aboliu a fatalidade hereditária. Se vigorasse a lei do aperfeiçoamento das espécies seria um fantástico regime. Hoje, ausente da Pátria, e sem livros de que me possa socorrer, resta-me apenas recordar os intervalos dinásticos e aquele em que, pela regra da sucessão, perdemos a independência, e mais as leis do banimento. Ou então, para tentar estar contente, os momentos equívocos e embaraçosos em que se contrapõem na política  legitimidade e conveniência: É o caso do Rei Carol, da Roménia, deposto. Um dia apareceu em Portugal, vindo de Espanha, fugido. Estávamos em 1941. A propósito, um jornal grego noticiava: «O ex rei da Roménia, Carlos, que há pouco tempo chegou a Lisboa com a sua mulher a ex senhora Lupesco (sic), pode em breve, se o quiser, candidatar-se ao trono de Portugal, que permanece vago desde a morte do rei D. Manuel II. Com efeito Carlos é e o ante neto da Rainha Maria de Portugal que pelo seu casamento com o príncipe alemão Fernando teve três filhos: Pedro V, que morreu quando da peste, Luís I, herdeiro de Pedro e uma filha D. Maria Antónia. Maria Antónia casou com Leopoldo de Hoenzollern e teve dele um filho, Fernando da Roménia, pai de Carlos. Dado que o ex rei Carlos é o descendente do ramo da dinastia portuguesa que permaneceu fiel à Constituição, ele tem, de acordo com certos historiadores mais direitos do que o actual pretende D. Duarte Nuno que é descendente do ramo que se opôs à Constituição e foi por isso expulso de Portugal. Por isso vários se perguntam em Lisboa se no fim Carlos irá reivindicar a Coroa portuguesa sobre a qual tem tantos direitos ou se, pelo contrário, preferirá ser restaurado no trono da Roménia, porque correm rumores de que Carlos está em vias de substituir o seu filho Miguel, que não goza da simpatia dos comunistas romenos».
E se o Rei, em vez de se ter refugiado na linha do Estoril, tivesse tomado em mãos o Palácio da Ajuda? Seria Rei. E hoje adeus feriado!

04/10/09

O tempo e as nuvens



Hoje é domingo e estou a viajar. Aqui há uns anos assisti a um encontro onde os escritores que se reuniam falavam de literatura de viagens. Alguns viajaram muito e falavam de tudo, incluindo a Amazónia que já passou a banalidade burguesa. Outros, mais confinados, ou menos exuberantes falavam das viagens à volta do seu quarto e das viagens interiores, estas às profundezas do eu.
Ao chegar aqui tinha um email que me dizia assim: quando eu era pequena e viajei de avião não queria que o avião estragasse as nuvens. Ora quem viaja assim viaja no Céu, sentada ao lado de quem viaja apenas pelos céus.
Aterrei aqui vinte minutos antes da hora, com a sensação de estar a ganhar pontos ao decurso do tempo. Na revista que vim a ler, oferta da TAP incluída no preço do bilhete, um professor explicava: se passar aleatoriamente o conteúdo de um DVD, baralhando tudo, onde está o tempo dentro do DVD? Confesso que não sei. Não é por ter acabado de chegar, é porque a inteligência vai escasseando com a passagem do tempo. É que já são sessenta anos.

03/10/09

Pântano da Morte, de Cândido de Oliveira



Um sábado recolhido a preparar uma comunicação sobre as redes clandestinas do SOE em Portugal durante a 2ª Guerra. O SOE foi o organismo que coordenou a guerra subversiva nos países ocupados. Teve também actuação em países neutrais como no nosso.
Organizadas por um advogado, oriundo da reputada firma Slaughter & May, delas fez parte uma figura lendária no desporto, chamado Cândido de Oliveira, o agente «Pax».
Descobertas devido a uma infiltração da PVDE e ao descuidado relacionamento com a Legião Portuguesa, a sua existência ia causando um grave incidente diplomático.
Salazar salvou a face à nossa mais velha aliada, apanhada em contra-mão, evitando o escândalo. Quem sofreu a parte pior foram os portugueses, internados no Tarrafal, para que o seu julgamento não fosse a demonstração pública de algo que os interesses da política queriam esconder. Nisso o sofrimento individual é sempre pequeno ante as razões de Estado.
Cândido de Oliveira escreveu um livro sobre o que viu. Chama-se Pântano da Morte. Foi editado em 1974, pelo jornal República, de Raul Rego.

02/10/09

Lobo Antunes



Houve um jornal que publicou hoje uma entrevista minha. Não sei por que pudor me abstenho de a reproduzir aqui, mesmo em parte, e mesmo esta referência já me parece algo atrevida.
Há na escrita este desdobramento que leva a que sinta o autor (alguns autores, já lá vamos) alguma timidez em falar extensamente de si. Não sendo propriamente um escritor - acho que é preciso alguma coragem para alguém se julgar isso sem durante muitos anos ser apenas aquele que escreve - sinto algo parecido.
Em excepção contida à regra fica aqui, porém, apenas uma pergunta e uma resposta dessa entrevista: «O que faz para se divertir? Basicamente, leio e escrevo. Hoje, a escrita é a minha grande ocupação. E leio muito, por vezes os livros de um autor todos seguidos. Fiz as pazes com a complexa Agustina, com o labiríntico Borges, qualquer dia até com o Lobo Antunes, fingindo que ele não existe como pessoa insuportável de vaidade. Há alturas para tudo na vida. Até para se fazerem pazes com o mundo».
A que propósito vem isto? De ter visto nas montras mais um livro de conversas com o Lobo Antunes e andar cheio de engulhos quanto a comprá-lo. Não há dúvida que a criatura tem o condão de irritar a paciência por causa da soberba. Talvez em atenção ao João Céu e Silva me decida. Mas sempre a lembrar-me o que dizia, ensarilhado nas suas angústias, o Vergílio Ferreira: que o homem tem entradas de Lobo e saídas de Antunes. Subiu-lhe a fama à cabeça! A culpa é de quem lhe atura a arrogância.

01/10/09

O Mundo não pode dormir, de Stefan Zweig



«Há hoje no mundo pouca gente que durma; as noites são mais longas, mais longos os dias». Assim começa Stefan Zweig a sua poderosa narrativa sobre o tenso ambiente de uma Europa em guerra, a vigília como sentinela. «Em todos os países, por essa Europa fora, em todas as cidades, em cada rua, cada casa, cada aposento, tornou-se mais curta e febril a tranquila respiração do sono».
Li este texto há uns anos, no mesmo estado de exaltação que o escasso descanso traz ao organismo, a inquietação tornada constante insónia. «Toda a humanidade tem agora febre de dia e de noite; esse terrível, pavoroso, estar deperto transparece nos sentidos sobreexcitados de milhões de criaturas».
Lá pelas quatro da manhã virá não o sono mas o cansaço.Umas horas depois a luz do dia e o ruído da vida irrompem. O sentido do dever aguilhoa a resistência. No mais é a inércia do movimento, essa lei da dinâmica do que acaba por suceder.

30/09/09

À Sombra, de Jerónimo Negrão Buisel


Imagine-se que se compra um livro num alfarrabista. Um livro pequeno, brochado, mas ainda com os fólios cosidos, que pertenceu a uma qualquer biblioteca, talvez particular, de quem o numerou com uma vinheta, daquelas que se colavam com goma arábica. Um livro impresso - e cito tal e qual está no seu frontespício - na «Typographia Editora José Bastos», que era no número 100 da Rua da Alegria em Lisboa.
Um livro que saiu sem data, mas que tem um prefácio datado de 17 de Outubro de 1915. Um livro que se chama À Sombra e  tem como subtítulo e de novo a grafia da época «versos colligidos em 7 mezes de preso político no Limoeiro».
Imagine-se ainda um livro que tem aposto no verso da capa um ex-libris, que é coisa do tempo em que a propriedade dos livros se assinalava assim, um ex-libris que tem o logotipo de uma caravela, ornado com uma pedra de armas cujo lema é «tole lege». Um ex-libris que nos diz que pertenceu ao contra-almirante João Correia Pereira. Um livro autografado pelo autor.
Imaginem-me agora à procura de saber quem é o autor desse livro e descobrir que «natural de Portimão. A profissão de empregado comercial era complementada com a prática da escrita, que cedo desenvolveu. Foi colaborador de vários jornais e revistas, fundador e director da revista "O Algarve". «À Sombra» foi o seu único contributo literário. A nível político, continuava a defender os ideais monárquicos, o que o levou a ser perseguido e preso no início do actual regime. Membro do Partido Regenerador. Fazia parte do conjunto de figuras políticas notáveis de Portimão na segunda metade do século XIX».
Só mais um esforço. Imaginem-me, só para terminarmos, à procura de quem foi o almirante João Correia Pereira e descobrir que publicou um estudo chamado A Marinha de Guerra e o Império  na Revista do Ultramar, em 1948.
Voltemos à realidade, deixando a imaginação. É este o prazer dos livros, a teia que se urde em torno deles, fios de vida que se espalham entre as paredes da biblioteca, pelos quais passeia a aranha da fantasia.
Ah! O autor chama-se «Jeronymo Negrão Buisel». E os versos, coitadinhos dos versos que são tristes suspiros de uma alma agrilhoada. Cito um, por amigável compaixão: «Amas a Nosso Senhor/que morreu por toda a gente,/e a mim não me tens amor, que morro por ti somente». Chama-se Ciúme.



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29/09/09

Estilhaços, um livro de...



Quando se arrumam livros descobrem-se neles coisas extraordinárias: são os que tiveram importância e hoje já não sabemos porquê, aqueles que nunca tiveram qualquer espécie de relevo e que comprámos sabe-se lá a razão, aqueles que de súbito ganham um momento de atenção no nosso quotidiano.Eis o caso.
Não sei como classificar o livro Estilhaços. Sei que foi escrito por um advogado que nasceu em Luanda e exerceu advocacia até 1999. À data da publicação era consultor jurídico do Instituto da Conservação da Natureza. Segundo a badana do livro «na qualidade de especialista de Direito do Ambiente foi orador convidado em diversos congressos e seminários, portugueses e estrangeiros, e professor em cursos de formação, de pós graduação e de mestrado». O seu autor chama-se Adolfo Morais de Macedo.
Tudo faz sentido, tudo é lógico. Agora a surpresa. Em 1981 fundou o grupo de rock Auaufeiomau, em 1984 os Mão Morta. O seu nome artístico é..Adolfo Luxúria Canibal! Voilá!
E ora bom dia! Aprendamos a ser um outro. Não Somos Aqueles é o nome de um dos seus escritos: «Somos aqueles contra quem a televisão nos preveniu». Exactamente. Ainda ontem à noite, solenemente.
 
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