07/10/09
06/10/09
1984, de George Orwell
Labiríntico, orwelliano, é o Palácio da Cultura. Vê-se da janela do hotel, imponente na larga avenida. Quando escreveu sobre o Ministério da Verdade na Oceania, George Orwell imaginou-o assim, gigantesco, piramidal, 300 metros de altura e 3 000 salas de extensão. No livro 1984 havia também o Ministério do Amor, o Ministério da Fartura e o Ministério da Paz. No primeiro trata-se de prender os dissidentes. Naturalmente, porque a fidelidade é um dever e quem ama o Estado, ama-o indiscutivelmente.
Eis o pensamente tornado aqui arquitectura. Li o livro através da minha janela em folhas de betão.
05/10/09
A República e o darwinismo
A República aboliu a fatalidade hereditária. Se vigorasse a lei do aperfeiçoamento das espécies seria um fantástico regime. Hoje, ausente da Pátria, e sem livros de que me possa socorrer, resta-me apenas recordar os intervalos dinásticos e aquele em que, pela regra da sucessão, perdemos a independência, e mais as leis do banimento. Ou então, para tentar estar contente, os momentos equívocos e embaraçosos em que se contrapõem na política legitimidade e conveniência: É o caso do Rei Carol, da Roménia, deposto. Um dia apareceu em Portugal, vindo de Espanha, fugido. Estávamos em 1941. A propósito, um jornal grego noticiava: «O ex rei da Roménia, Carlos, que há pouco tempo chegou a Lisboa com a sua mulher a ex senhora Lupesco (sic), pode em breve, se o quiser, candidatar-se ao trono de Portugal, que permanece vago desde a morte do rei D. Manuel II. Com efeito Carlos é e o ante neto da Rainha Maria de Portugal que pelo seu casamento com o príncipe alemão Fernando teve três filhos: Pedro V, que morreu quando da peste, Luís I, herdeiro de Pedro e uma filha D. Maria Antónia. Maria Antónia casou com Leopoldo de Hoenzollern e teve dele um filho, Fernando da Roménia, pai de Carlos. Dado que o ex rei Carlos é o descendente do ramo da dinastia portuguesa que permaneceu fiel à Constituição, ele tem, de acordo com certos historiadores mais direitos do que o actual pretende D. Duarte Nuno que é descendente do ramo que se opôs à Constituição e foi por isso expulso de Portugal. Por isso vários se perguntam em Lisboa se no fim Carlos irá reivindicar a Coroa portuguesa sobre a qual tem tantos direitos ou se, pelo contrário, preferirá ser restaurado no trono da Roménia, porque correm rumores de que Carlos está em vias de substituir o seu filho Miguel, que não goza da simpatia dos comunistas romenos».
E se o Rei, em vez de se ter refugiado na linha do Estoril, tivesse tomado em mãos o Palácio da Ajuda? Seria Rei. E hoje adeus feriado!
04/10/09
O tempo e as nuvens
Hoje é domingo e estou a viajar. Aqui há uns anos assisti a um encontro onde os escritores que se reuniam falavam de literatura de viagens. Alguns viajaram muito e falavam de tudo, incluindo a Amazónia que já passou a banalidade burguesa. Outros, mais confinados, ou menos exuberantes falavam das viagens à volta do seu quarto e das viagens interiores, estas às profundezas do eu.
Ao chegar aqui tinha um email que me dizia assim: quando eu era pequena e viajei de avião não queria que o avião estragasse as nuvens. Ora quem viaja assim viaja no Céu, sentada ao lado de quem viaja apenas pelos céus.
Aterrei aqui vinte minutos antes da hora, com a sensação de estar a ganhar pontos ao decurso do tempo. Na revista que vim a ler, oferta da TAP incluída no preço do bilhete, um professor explicava: se passar aleatoriamente o conteúdo de um DVD, baralhando tudo, onde está o tempo dentro do DVD? Confesso que não sei. Não é por ter acabado de chegar, é porque a inteligência vai escasseando com a passagem do tempo. É que já são sessenta anos.
03/10/09
Pântano da Morte, de Cândido de Oliveira
Um sábado recolhido a preparar uma comunicação sobre as redes clandestinas do SOE em Portugal durante a 2ª Guerra. O SOE foi o organismo que coordenou a guerra subversiva nos países ocupados. Teve também actuação em países neutrais como no nosso.
Organizadas por um advogado, oriundo da reputada firma Slaughter & May, delas fez parte uma figura lendária no desporto, chamado Cândido de Oliveira, o agente «Pax».
Descobertas devido a uma infiltração da PVDE e ao descuidado relacionamento com a Legião Portuguesa, a sua existência ia causando um grave incidente diplomático.
Salazar salvou a face à nossa mais velha aliada, apanhada em contra-mão, evitando o escândalo. Quem sofreu a parte pior foram os portugueses, internados no Tarrafal, para que o seu julgamento não fosse a demonstração pública de algo que os interesses da política queriam esconder. Nisso o sofrimento individual é sempre pequeno ante as razões de Estado.
Cândido de Oliveira escreveu um livro sobre o que viu. Chama-se Pântano da Morte. Foi editado em 1974, pelo jornal República, de Raul Rego.
02/10/09
Lobo Antunes
Houve um jornal que publicou hoje uma entrevista minha. Não sei por que pudor me abstenho de a reproduzir aqui, mesmo em parte, e mesmo esta referência já me parece algo atrevida.
Há na escrita este desdobramento que leva a que sinta o autor (alguns autores, já lá vamos) alguma timidez em falar extensamente de si. Não sendo propriamente um escritor - acho que é preciso alguma coragem para alguém se julgar isso sem durante muitos anos ser apenas aquele que escreve - sinto algo parecido.
Em excepção contida à regra fica aqui, porém, apenas uma pergunta e uma resposta dessa entrevista: «O que faz para se divertir? Basicamente, leio e escrevo. Hoje, a escrita é a minha grande ocupação. E leio muito, por vezes os livros de um autor todos seguidos. Fiz as pazes com a complexa Agustina, com o labiríntico Borges, qualquer dia até com o Lobo Antunes, fingindo que ele não existe como pessoa insuportável de vaidade. Há alturas para tudo na vida. Até para se fazerem pazes com o mundo».
A que propósito vem isto? De ter visto nas montras mais um livro de conversas com o Lobo Antunes e andar cheio de engulhos quanto a comprá-lo. Não há dúvida que a criatura tem o condão de irritar a paciência por causa da soberba. Talvez em atenção ao João Céu e Silva me decida. Mas sempre a lembrar-me o que dizia, ensarilhado nas suas angústias, o Vergílio Ferreira: que o homem tem entradas de Lobo e saídas de Antunes. Subiu-lhe a fama à cabeça! A culpa é de quem lhe atura a arrogância.
01/10/09
O Mundo não pode dormir, de Stefan Zweig
«Há hoje no mundo pouca gente que durma; as noites são mais longas, mais longos os dias». Assim começa Stefan Zweig a sua poderosa narrativa sobre o tenso ambiente de uma Europa em guerra, a vigília como sentinela. «Em todos os países, por essa Europa fora, em todas as cidades, em cada rua, cada casa, cada aposento, tornou-se mais curta e febril a tranquila respiração do sono».
Li este texto há uns anos, no mesmo estado de exaltação que o escasso descanso traz ao organismo, a inquietação tornada constante insónia. «Toda a humanidade tem agora febre de dia e de noite; esse terrível, pavoroso, estar deperto transparece nos sentidos sobreexcitados de milhões de criaturas».
Lá pelas quatro da manhã virá não o sono mas o cansaço.Umas horas depois a luz do dia e o ruído da vida irrompem. O sentido do dever aguilhoa a resistência. No mais é a inércia do movimento, essa lei da dinâmica do que acaba por suceder.
30/09/09
À Sombra, de Jerónimo Negrão Buisel
Imagine-se que se compra um livro num alfarrabista. Um livro pequeno, brochado, mas ainda com os fólios cosidos, que pertenceu a uma qualquer biblioteca, talvez particular, de quem o numerou com uma vinheta, daquelas que se colavam com goma arábica. Um livro impresso - e cito tal e qual está no seu frontespício - na «Typographia Editora José Bastos», que era no número 100 da Rua da Alegria em Lisboa.
Um livro que saiu sem data, mas que tem um prefácio datado de 17 de Outubro de 1915. Um livro que se chama À Sombra e tem como subtítulo e de novo a grafia da época «versos colligidos em 7 mezes de preso político no Limoeiro».
Imagine-se ainda um livro que tem aposto no verso da capa um ex-libris, que é coisa do tempo em que a propriedade dos livros se assinalava assim, um ex-libris que tem o logotipo de uma caravela, ornado com uma pedra de armas cujo lema é «tole lege». Um ex-libris que nos diz que pertenceu ao contra-almirante João Correia Pereira. Um livro autografado pelo autor.
Imaginem-me agora à procura de saber quem é o autor desse livro e descobrir que «natural de Portimão. A profissão de empregado comercial era complementada com a prática da escrita, que cedo desenvolveu. Foi colaborador de vários jornais e revistas, fundador e director da revista "O Algarve". «À Sombra» foi o seu único contributo literário. A nível político, continuava a defender os ideais monárquicos, o que o levou a ser perseguido e preso no início do actual regime. Membro do Partido Regenerador. Fazia parte do conjunto de figuras políticas notáveis de Portimão na segunda metade do século XIX».
Só mais um esforço. Imaginem-me, só para terminarmos, à procura de quem foi o almirante João Correia Pereira e descobrir que publicou um estudo chamado A Marinha de Guerra e o Império na Revista do Ultramar, em 1948.
Voltemos à realidade, deixando a imaginação. É este o prazer dos livros, a teia que se urde em torno deles, fios de vida que se espalham entre as paredes da biblioteca, pelos quais passeia a aranha da fantasia.
Ah! O autor chama-se «Jeronymo Negrão Buisel». E os versos, coitadinhos dos versos que são tristes suspiros de uma alma agrilhoada. Cito um, por amigável compaixão: «Amas a Nosso Senhor/que morreu por toda a gente,/e a mim não me tens amor, que morro por ti somente». Chama-se Ciúme.
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29/09/09
Estilhaços, um livro de...
Quando se arrumam livros descobrem-se neles coisas extraordinárias: são os que tiveram importância e hoje já não sabemos porquê, aqueles que nunca tiveram qualquer espécie de relevo e que comprámos sabe-se lá a razão, aqueles que de súbito ganham um momento de atenção no nosso quotidiano.Eis o caso.
Não sei como classificar o livro Estilhaços. Sei que foi escrito por um advogado que nasceu em Luanda e exerceu advocacia até 1999. À data da publicação era consultor jurídico do Instituto da Conservação da Natureza. Segundo a badana do livro «na qualidade de especialista de Direito do Ambiente foi orador convidado em diversos congressos e seminários, portugueses e estrangeiros, e professor em cursos de formação, de pós graduação e de mestrado». O seu autor chama-se Adolfo Morais de Macedo.
Tudo faz sentido, tudo é lógico. Agora a surpresa. Em 1981 fundou o grupo de rock Auaufeiomau, em 1984 os Mão Morta. O seu nome artístico é..Adolfo Luxúria Canibal! Voilá!
E ora bom dia! Aprendamos a ser um outro. Não Somos Aqueles é o nome de um dos seus escritos: «Somos aqueles contra quem a televisão nos preveniu». Exactamente. Ainda ontem à noite, solenemente.
28/09/09
Lendo jornais
Dia sem possibilidade de ler nada, salvo o jornal da manhã. A Capital, de que o Sousa Tavares (pai) foi director, chamava-se «o seu vício diário». Como nunca me rendi a vícios - sou capaz de fumar um cigarro e deixar de fumar os outros dezanove - porque tenho outros graves defeitos, leio de quando em vez um jornal, nem sempre o mesmo. Outro dia uma jornalista dizia-me «não leio esse jornal, porque... (...)». E eu pensava: «se seguisse esse critério não lia nenhum. Sobretudo o Diário da República».
Maria Ondina Braga, um blog
A edilidade de Braga descerrou um busto de homenagem a Maria Ondina Braga. A câmara patrocina um prémio literário com o seu nome. Já tinha dado o seu nome àquela rua que se vê na fotografia. É o possível reconhecimento local de uma grande escritora. A verdadeira homenagem ainda está, porém, por fazer-se, a edição completa das suas obras. Estão esgotadas, nem pelos alfarrabistas se encontram. Soube outro dia que a Maria Ondina deixou um romance inédito. Sei que entregou para edição o segundo volume da obra Mulheres Escritoras.
Criei um blog que lhe era dedicado. Um dia abandonei a escrita pessoalizada na net, e o blog ficou inerte. Lembro isto porque me lembro também da sua escrita, fina, de interior, a sua alma delicada a esvair-se em cada página. Maria Ondina deu-se em livro. Talvez haja razão para que eu recupere aquele blog. Ele, afinal, não me pertence.
27/09/09
A República dos Corvos, de José Cardoso Pires
Há quem leia para seguir a narrativa, outros o modo de dizer. No meu caso acabei por seguir de linha em linha ao encontro de uma expressão feliz. Li a história de Vicente, o corvo de taberna, o Corvo Taberneiro, o corvo que está na heráldica de Lisboa, Lisboa a República dos Corvos. É um conto triste, que termina com uma morte e com a sua tristeza desesperada, crucitante, ele «que até e lisboeta de nascimento é com grasnar de reguilas e tudo», agora, morta a galinheira, que era a sua companhia e o seu sustento «mantém-se à cabeceira da defunta, não consentindo que ninguém lhe toque e lançando, num crácrá aflitivo, a mais íntima e pessoal de todas as suas vozes».José Cardoso Pires escrevia com sumptuosidade. Uma sumptuosidade pesarosa, mesmo quando revoltada.
26/09/09
A Orelha de Deus, de Jenny Schwartz
É como o raio verde, aquele momento magnífico e único em que o sol se afunda no mar, e é o pôr do sol: o teatro tem também aquela permanente possibilidade de o milagre quebrar o seu efeito, surgir, feio, desdentado, indesfarçável, o desastre.
Sozinho no palco cada actor enfrenta o medo constante de uma má expressão, uma falha de memória, uma deixa que se perdeu: representa na boca de cena do precipício.
Acabo de chegar da Culturgest. A peça chama-se A Orelha de Deus. Escreveu-a Jenny Schwartz. Encenou Cristina Carvalhal. Representam Cucha Cavalheiro, Diana Sá, Emílio Gomes, Luísa Cruz, Manuel Wiborg, Pedro Carmo e Sandra Fiadeiro.
Há no teatro aquele momento em que está em palco a representação da personagem de que costumamos ser nós os intérpretes. O receio de falhar cola-nos ao palco, as ribaltas como testemunhas, os seus longos olhos a seguirem-nos cada passo, cada gesto, cada fala.
25/09/09
Amor e Dedinhos de Pé, um filme de Luís Filipe Rocha
Sentava-se atrás de mim no anfiteatro três. Deu em cineasta como eu dei em advogado e outros em tanta outra coisa. Nele vê-se que é um dom. No Cénico de Direito foi o Senhor Corvino na peça Volpone de Ben Johnson. Digo isto mas não vi a peça. Rodou o Amor e Dedinhos de Pé, que estreou em 1993. Não fui à estreia mas ele convidou-me. Fui hoje reparar esse erro. Numa das cenas, dono da casa, estava o Henrique Sena Fernandes. Tinha-o visto uns dias antes na mesma Cinemateca a falar com o Paulo Rocha sobre o Wenceslau de Moraes. Foi ele quem escreveu o livro. Não o li apesar de ter estado em Macau. Confesso a vergonha. Hei-de ler. Aos poucos um homem encontra-se consigo próprio. É esse o tema da narrativa contada em filme por Luís Fiipe Rocha. Magnificamente.
24/09/09
Clepsydra, de Camilo Pessanha
Fui hoje à Biblioteca Nacional porque se apresentava o acesso on line ao espólio de Camilo Pessanha. O acesso é por aqui. Autor de um só livro, o autor da Clepsydra desinteressou-se, porém, da sua publicação. Devemo-la a Ana de Castro Osório, a mulher que o amava e não o quis para marido.
Hoje, Daniel Pires encarregou-se de lhe resumir a biografia. Por várias vezes se referiu a seu filho, depreciativamente: a propósito do desinteresse pela obra do pai, a propósito da venda, por puro intuito mercantil, da sua colecção de arte chinesa, que se pode ver hoje no Museu do Oriente, depois de ter sido recusada por vários museus.
Esta noite, já em casa, abri o livro que Danilo Barreiros dedicou em 1961 ao testamento de Camilo Pessanha: «Crescendo num ambiente alheio às convenções normais, quase desprezado pelo pai, que o adoptava de "Malau" (macaco), teve João Manuel formação deficiente, Camilo Pessanha não sentia por ele grande afecto e nunca se empenhou em orientá-lo na vida. Tratava-o com excessiva severidade e, uma vez, aos surpeendê-lo a namoriscar Ngan Ieng, expulsou-o de casa, deixando-o entregue a perigosa vadiagem».
Caramba, que dor para quem se embevece ante o simbolimso florido da sua escrita, para quem, sabendo-o maçon, o imaginava fraterno e solidário.
Nunca fantasies em Literatura. Lê.
23/09/09
Suspiria, de Dario Argento
Uma academia de dança alemã que encombre um areópago de bruxas e se chama Erasmus de Roterdão. Uma vaga reminiscência do oculto que se vai intensificando. Uns quantos símbolos esotéricos entre os quais o inevitável olho no triângulo. Um odor a morte e a perigo.
Suspiria vale a pena pelo modo como Dario Argento gere o suspense, pela beleza de algumas imagens.Tem primarismos quando tenta alguns efeitos especiais, ingenuidades de representação, quebras de sequência. No final coloca-se a questão filosófica da verdade do Maléfico, do transcendente pagão como ramo da psiquiatria.
Lendo a explicação técnica percebe-se que a coloração muito contrastada resulta da junção de uma película de baixíssima sensaibilidade a um excesso de iluminação dos décors. Tipicamente alemães, aliás, bizarros.
O filme, rodado em 1976, seduz para além da história. É o mesmo com a excelente literatura: a narrativa é um incidente.
À saída um jovem dizia: «há uma cena que está cortada». Explicava qual. Fiquei fascinado. Em 1976 ninguém sonhava que ele viria a existir.
22/09/09
A Ilha de Moraes, de Paulo Rocha
Entre 1975 e 1983 o cineasta Paulo Rocha foi adido cultural na Embaixada de Portugal em Tóquio. Não sabia. Estudou a obra de Wenceslau de Morais, o que foi tema em 1982 da sua longa metragem A Ilha dos Amores, em que Rocha protagoniza Camilo Pessanha e Luís Miguel Cintra o próprio Wenceslau. Ainda tentarei ver.
Vi sim este fim de tarde na Cinemateca Portuguesa um documentário seu que aproveita o trabalho de base desse estudo: A Ilha de Moraes. Foi produzido em 1983. São basicamente conversas sobre o biografado, em Macau, primeiro, no Japão, depois, seguindo a ordem da sua vida. Paulo Rocha fala japonês com fluência, a côr local torna-se mais vincada.
Cinematograficamente quase não há técnica. Sem efeitos, a câmara frequentemente imóvel, como se preguiçosa a escutar a narrativa, há momentos de alguma monotonia. Além disso a qualidade da imagem é pobre, o som ténue.
Verdadeiramente o filme não capta a essência da sensibilidade de Moraes, se bem que perpasse por ele uma devoção permanente. Mas cumpre a sua função. Ao chegar a casa tenho comigo o Bon-Odori em Tokushima, o livro do último dos lugares onde Moraes viveu, depois de ter renunciado a tudo quanto o ligasse a Portugal. Já o tinha lido e sublinhado, agora quero lê-lo uma outra vez. É isso que nem sempre o bom cinema, o de substância e o que tem técnica, consegue: vontade de mais.
Oficial de Marinha, sobretudo escritor, Moraes é um português triste como tantos portugueses. Sofreu de uma insidiosa doença, a doença de quem ama. Morreu sozinho.
21/09/09
Os Meus Sentimentos, de Dulce Maria Cardoso
Quando conheci a escrita da Dulce Maria Cardoso já ela tinha ganho o prémio Acontece com o seu livro Campo de Sangue, mas eu li primeiro o que foi o seu segundo livro. Segui-lhe o conto que divulgou na revista do jornal Expresso, vivido num farol, em tons de azul, e o livro de contos que juntou esse a outros, o Até Nós. Do que li não gostei de muito pouco. É uma escrita notável. Os Meus Sentimentos magoa a alma, dói. Um livro belo, uma escrita que arrebata a mente. Faz perguntar onde viveu ela tanta vida.
Hoje vejo-a premiada pela Europa e a sua editora a reimprimir-lhe os livros. Fico contente, como aquele que tivesse dito «eu já sabia».
«Quando nos contam uma história ouvimos sempre outra», diz Violeta, de quem os homens riam, mesmo quando lhe gozavam o corpo, apoucando-a, «uma mulher tão gorda, tão gorda que quando caía da cama caía para os dois lados», Violeta que se esvai em agonia, porque ao fim de uma vida «apanhámos o hábito de nos magoarmos» e «os moribundos são mansos que o desespero é coisa de vivos».
Um dia estive em Urbino e encontrei-a, traduzida em italiano. Eu sabia, Violeta «um nome de uma flor que também é uma cor».
Agora é uma questão de tempo e o rancor da crítica ser inferior à inveja dos outros escritores.
Agora é uma questão de tempo e o rancor da crítica ser inferior à inveja dos outros escritores.
20/09/09
Fears, por Zero Mostel
A constipação a ir-se, posso, enfim, rir. Tudo começa quando se sente o nariz preso, como entalado por um livro de rija lombada. Surge o mal estar e surgem os medos. Querem ver como? Espreitem aqui, já agora até ao fim. Boa noite e amanhã há mais.
P. S: A propósito de Zero Mostel: foi em 1977 o grande actor de The Front de Martin Ritt, com Woody Allen.Um filme de saltarem as lágrimas, de tristeza.Um filme contra a paranóia do macartismo, essa doença viral dos polícias da Arte.
P. S: A propósito de Zero Mostel: foi em 1977 o grande actor de The Front de Martin Ritt, com Woody Allen.Um filme de saltarem as lágrimas, de tristeza.Um filme contra a paranóia do macartismo, essa doença viral dos polícias da Arte.
A Metamorfose, de Franz Kafka
Baseado num estudo científico publicado na Psychological Science, a revista norte-americana Miller-McCune divulgou a ideia: a leitura de literatura absurda estimula a mente.
O exemplo é o mesmo que serve de gag a um momento do filme de Mel Brooks que em português teve como absurdo título Por favor não mexam nas velhinhas e que no original se chamou The Producers: um texto de Franz Kafka.
Sabe-se que Brooks deu à cena a história de um produtor teatral, Max Bialystock, que consegue evitar a falência lançando uma peça que julga ser um fracasso garantido, o que lhe permitirá lucrar com o dinheiro das suas anciãs financiadoras que, assim, não terá de remunerar. O guião escolhido acabará por ser o escrito por um nazi refugiado na América, criatura meia tresloucada, ainda a sonhar com o regresso do seu Führer, vivendo numa mansarda miserável, entre pássaros e goles de schnaps: Springtime for Hitler. Mas há o momento em que, envoltos em manuscritos possíveis, entram pelas primeiras linhas de um livro de Kafka: «Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso insecto». «É bom demais», conclui o produtor, enfastiado, na tela o magnífico Zero Mostel. Lembrei-me hoje, da ideia da metmorfose e do fracasso garantido como causa de sucesso, altamente estimulantes, diga-se.
19/09/09
Tenho uma grande constipação, de Fernando Pessoa
«Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.»
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.
Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.»
18/09/09
Saber Viver, da Baronesa X (Adelaide Bramão)
Abriu uma secção na revista Modas Bordados, de Maria Lamas, a que chamou Vida Feminina. Depois dedicou-se à escrita doméstica e social. Um dos seus livros mais famosos chama-se Saber Viver. Em 1944 já ia na 5ª edição. Como o esclarece o sub-título, são «regras de etiqueta». Assinava como Baronesa X. Chamava-se Adelaide Bramão, mulher de Alberto Allen Pereira de Sequeira Bramão.
Há um perfume de aristocracia como toque de finesse: «A Condessa de Marval atravessava, vagarosamente os salões, para se certificar de que tudo estava em ordem. Recebia nessa tarde as suas amigas. As festas que dava tinham sempre um cunho de distinção, presididas pela sua alta competência de requintada artista, a que juntava ainda as grandes qualidades intelectuais», assim abre o capítulo intititulado «um chá de tarde, preparativos para a festa».
Sob a forma de um diálogo romanceado, citando, entre tantos, Lamartine e Montaigne, são conselhos para saber estar. Um homem não deve entregar a uma senhora um bilhete de visita que indique o seu título social; «esses são reservados para as relações entre homens», ensina a Baronesa que, na quinta edição viu o texto ajustado em «um ou outro ponto em que a instabilidade social modificou esta ou aquela forma de cortesia».
17/09/09
A arte de não fazer nada
São verdadeiros actos de amor e de dedicação, quase um serviço público. Claro que muitas vezes são «picados», os seus textos, as imagens que editam, pura e simplesmente copiados sem ao menos a gentileza de uma menção. Conhecia os Dias que Voam, agora outro chamado Ilustração Portuguesa que me remeteu para um terceiro, o Artistas Portugueses. Publicam material antigo que anda muitas vezes pelos esconsos dos alfarrabistas, que os herdeiros jogam fora, com desprezo, ao esvaziar as casas vazias de quem os coleccionou. Num deles encontrei esta Crónica Feminina de 1964, dedicada à magnífica arte de não fazer nada.
16/09/09
Portugal, que futuro? de Medina Carreira
Medina Carreira publicou um livro. O livro traz na capa o seu nome e também o de Eduardo Dâmaso, que é director-adjunto do jornal Correio da Manhã, porque depois da introdução, escrita pelo primeiro, seguem entrevistas, em que o segundo formula as perguntas, rematando com um texto final.
Claro que as perguntas são extensas, por vezes reflexivas, mas, vistas as respostas, ficam aquém. O entrevistado tem esse condão. «Arrasa» como titulava um blog a propósito de uma sua prestação televisiva em que chegou a pedir ao jornalista que não fizesse de papagaio do senso somum e do discurso do costume. Aqui também o entrevistador não resiste: partiu com optimismo termina a confessar o seu acabrunhamento e a falar de António Guterres e o seu PS.
Refiro isto do título do livro porque antigamente havia no jornalismo uma regra de ouro: entrevistador apagava-se para sobressair o entrevistado; permitir-se pôr as iniciais a assinar a entrevista já era um destaque, ser fotografado ao lado daquele com quem conversava, uma honra. Agora chega-se a ponto em que a entrevista é uma forma de ventriloquismo, em que o perguntado confirma ou é desfeiteado se ousa desmentir.
Talvez esteja a ser injusto, generalizando. Ainda só olhei de soslaio para o livro de Medina Carreira. Chama-se «Portugal, que futuro». Lembra «Portugal e o Futuro», um livro que revolucionou o país. Foi escrito pelo general António de Spínola. Vou ler.
15/09/09
Alcateia, de Carlos de Oliveira
O que leva um autor a renegar um livro? Carlos de Oliveira escreveu o Alcateia em 1944. Retirou-o o do mercado. Em 1945 reeditou-o. Mas no final considerou que o livro não deveria integrar a sua obra. A Assírio & Alvim não lho editou quando foi paulatinamente dando à estampa o seu acervo. A Caminho, quando condensou tudo num só volume, também não.
Encontrei-o, ao livro proscrito, num alfarrabista, em segunda edição, na colecção Novos Prosadores da Coimbra Editora.
É um livro de sangue e morte e luta. «Se choro, é com raiva de não poder matá-lo outra vez», diz Leandro depois de ter mandado o Lourenção para o Inferno, esse «desgraçador maldito» que lhe apoucara a filha. Curioso por lembrar-me o Assis Pacheco e o seu Benito Prada.
Li pouco ainda. Vou na parte em que o povo se barrica na casa desse predador sem escrúpulo nem arrependimento, para que não caia nas mãos do Estado e se devolva aos roubados o que a usura do salafrário lhes roubou. Chega a Guarda e seus fuzis e o Administrador chega fogo ao local da barricada. Fogem como ratos, bravios, à cava.
Pobre livro, enjeitado.Recebo-o como a um órfão, tirado da roda dos expostos ou salvo dos lobos numa mata de urzes.
São maus os autores quando exigem e não perdoam. Perdem o tino do critério e afogam os filhos como gatos numa bacia, perdida a piedade humana e a capacidade de os amar.
14/09/09
Odisseia, traduzida por T. E. Lawrence
Às vezes fica a ideia de que a leitura é o privilégio dos ociosos, o entretém dos desocupados, um luxo para os que podem. Quando uma pessoa se esfalfa um dia a trabalhar, mesmo que o seu trabalho seja ler, há o balanço do fim do dia. Os olhos estão cansados mas a alma anseia. Claro que intervalamos para alimentar o corpo, ainda que seja uma sopa; naturalmente que animamos o cérebro, nem que seja com comprimidos ou álcool ou cigarros. Quanto ao espírito esse definha, esfomeado.Às vezes fica a ideia de que a leitura é um além que castiga os Sísifos deste mundo, rolando calhaus de deveres por escarpas de obrigações, as mãos esfoladas, a multidão insatisfeita, o cume inatingível, o sopé certo da constante montanha.Talvez ainda leia qualquer coisa antes de ir para a cama, pensa ele, nem que seja o prazo de validade de algum iogurte que sobeje.
T. E. Lawrence, mais conhecido como Lawrence da Arábia, traduziu a Odisseia de Homero no tempo livre enquanto oficial da Royal Air Force. Assim o revelou Sir Maurice Bowra no prefácio à edição de bolso, em oitavo, editada pela Oxford University Press que, há uns anos, trouxe de uma estadia em Inglaterra. Tinha terminado Os Sete Pilares da Sabedoria.Estava esgotado. Mas era «um inexorável homem das letras». É assim que eles se conhecem, inexoravelmente.
13/09/09
Julieta Monginho
Gosto de livros mas por vezes é difícil ler publicações que falam de livros.Acontece comprar, abrir uma página, ler umas linhas e ficar só isso. Aconteceu com este número do JL, como sucede frequentemente com o JL. Desta vez ficou-me a 'autobiografia' da Julieta Monginho, na última página do jornal e dela uma frase solta. «Tudo se consumou, tudo se consumiu», escreve, pensando no tempo em que chegou aos trinta anos, o tempo dos balanços. É uma crónica de vida, a quem chamou 'Cidades Habitadas', a síntese de um pai e de uma mãe e de uma história que começou em Verona, por alturas de 1956. O tempo dos amores.
12/09/09
Karl Marx, de Jorge de Sena
Na minha geração o marxismo era a Bíblia. De um dos meus colegas dizia-se que tinha deixado o Das Kapital no seu veloz Porsche, onde a PIDE o apreendera. A esmagadora maioria ia então para a Faculdade a pé. Nessa figuração absurda de um dos dos livros que revolucionou o mundo estar perdido, por displicência, num excepcional automóvel de um abastado estudante, estava contida a semente da contradição do que viríamos a ser quando adultos. A burguesia vive destes insólitos, frutos da crise de crescimento do que são, afinal, os seus filhos pródigos. Mas, enfim, penso que nem ele, patrício, que nos tolerava, nem nós, plebeus, que o desprezávamos, tínhamos lido esse livro monumental, livro publicado que era parte de um livro escrito, livro escrito que era parte de um livro pensado, uma infinita escrita surgida no moto continuum de uma forforescente mente genial.
Karl Marx, em Londres, indissociavemente com Friederich Engels foi um dos mais potentes pensadores de todos os séculos. Escreveu uma crítica à economia política, ao papel redutor do economicismo, em revolta aberta contra a leitura que o bolchevismo faria de si.
Revi isso tudo agora, porque um taxista amável me avisou que havia problemas com o trânsito por causa do enterro de um escritor. Não era enterro mas trasladação, que é uma forma de exumar nas consciência o que o esquecimento sepultou. Mas era escritor, Jorge de Sena. Este seu estudo sobre Marx descobri-o ao ter lido o que escreveu sobre Maquiavel, o genial florentino. Estão os dois estudos num livro da Cotovia, de má tipografia, com as linhas a emaranharem-se para poupar papel. Comprei-o outro dia.
A primeira edição de O Capital, alemã, tem 780 páginas, dedicadas ao processo de produção do capital. Falecido o autor, em 1883, Engels compilou-lhe, nesse ano, o segundo livro, de 500 páginas, sobre o processo de circulação do capital e no ano seguinte as 870 páginas do livro sobre o processo de produção capitalista. Caberia a Karl Kautsky, o renegado Kautsky segundo Lénine, completar a obra em três volumes do que seria um Livro IV, com 480, 380, e 600 páginas. «A metro cúbico de papel» dizia Marx numa carta a Engels, porque é assim que os alemães gostam.
Doutorado em filosofia pela Universidade de Iena, com uma tese sobre a filosofia da Natureza em Demócrito e Epicuro, Marx viveu em Trier. Visitei-lhe aí a casa sombria e inóspita. Revisitei-no no Museu Britânico este Verão, para onde se mudou em 1848. Nesse ano Engels escrevera o Manifesto Comunista. «Proletários de todos os países, uni-vos!». O livro tornava-se o motor da História.
11/09/09
O Camarareiro, de Ronald Harwood
Um actor que regressa representa um actor que termina. Ruy de Carvalho é Sir Donald Wolfit. A história do intérprete e a da personagem são uma e a mesma, a da agonia do desejo, a decadência do sucesso, o dever esgotante, a biografia da grandeza efémera e da solitária incompreensão.
Encenada por João Mota, a peça surge nos bastidores de uma representação do Rei Lear de William Shakespeare, em tempos de Blitz, em Londres, as bombas da Luftwaffe a serem a possível noite de tempestade. Pela 227ª vez o actor tem de se soerguer do desespero, do cansaço, da inquietação, encontrar em si forças e nos outros amparo para que o pano suba e as ribaltas o projectem à noite das estrelas. Restam-lhe sobejos, remedeios de gente, a piedade cruel feita companheira. E o Camareiro, fiel na humilhação, secreto nos sentimentos, nele a servidão é a única forma de expressar amor.
A cena de tempestade é na concepção do genial dramaturgo inglês o momento da inquietação e da loucura, da raiva e da revolta, os elementos e a alma em fúria.Wolfit pela última vez vocifera contra o que é vida e a existência: «Rumble thy bellyful! Spit, fire! spout, rain! Nor rain, wind, thunder, fire, are my daughters:I tax not you, you elements, with unkindness;I never gave you kingdom, call'd you children...»
Fui ao Dona Maria, aplaudir de pé. John Runciman pintou-a a essa cena do ódio. É esta que os vossos olhos contemplam, o humano rei sumido ante a magnitude imperial da Natureza tresloucada. À saída um amigo meu perguntou-me se tinha gostado do Virgílio Castelo. Disse sim. Era ele o camareiro.
10/09/09
Quando eu nasci, de José Régio
Ler é bom. Ler salva e cura e alimenta doenças do espírito. É uma terapia da alma. Ler não é uma alternativa a não ter companhia, ler é a possibilidade de encontrar todas as possíveis companhias. Na esplanada ela refugiava-se num livro como por detrás de uns óculos escuros. Foi por causa desse livro que ele se atreveu a querê-la. Desfolharam-se então, percorrendo-se o abismo de todas as linhas, saltando parágrafos, abraçando capítulos até ao final feliz.
Ler não é uma forma de se viver, ler é nascer todos os dias. «Quando eu nasci, ficou tudo como estava, Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais.. Somente, esquecida das dores, a minha Mãe sorriu e agradeceu». O poema é de José Régio-
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