09/12/17

Bohumil Hrabal, o terno bárbaro

O livro retorce as circunvoluções do cérebro, as ansas das vísceras. Estonteia. Porque, declarando-se livro de lembranças de um pintor checo, Vladimir Boudník [1924-1968], a verdade é que é uma polvorosa sobre o mundo visível, o seu interior e o reverso, a realidade aparente e os seus símbolos reais, as evidências boçais quando sábias e o mistério do óbvio. Está traduzido em português por Ludmila Dismánova, editado pela Teodolito, em 2011. 
Pequeno em formato, é daqueles que não se consegue ler de uma só vez. Levei imenso tempo a chegar ao fim das suas 123 páginas, que encerram com o repto de Jorge Listopad «aprendam checo ó leitores». E quase que, imersos naquele ambiente, se sente a necessidade de, pela língua, ser habitante para ler tudo quanto não está traduzido e ir aos locais e aos sentimentos onde tudo se passou.
Que se pode dizer de uma obra assim que a não reduza? Como usar, sem desfeitear, a palavra surreal quando, em verdade, é de irreal que se trata? Sim, claro, o dadaísmo, a abjecção, presente quase em cada folha, mas também o sublime. Mas tudo isso é somenos.
E a escrita, potente! As associações de ideias e de vocábulos, surpreendentes!
De taberna em taberna, entre litros de cerveja e aguardente, uma galeria insolente de personagens povoa a obra, irrompendo erraticamente, o também pintor Nejedlo que, desde a Escola das Belas-Artes «adorava enforcar-se», «grandes olhos de corça que oscilavam no metrómono do escadote», e que se enforcou, de facto, mas «por engano, na maçaneta da porta».
Há em cada recanto da obra momentos alucinantes de densidade e inteligência, como quando «o regresso de Vladimir, regressus ad originem, é simultâneamente um progressus ad futurum»,  e a inversão da topologia e da cronologia a que nos habituámos, como naquele instante de horror pro inversão da equação espaço/tempo, no flagrante instante «quando ganhar coragem, hei-de perguntar àquele cego se por acaso ao saltarem das órbitas, no último segundo, os seus seus olhos não se teriam virado e pela primeira e última vez não teriam olhado para sua própria cara, dentro das órbitas vazias.»
Livro teológico e escatológico, encontra-se, entre a sordidez, em metamorfose, com a ideia de que «o Deus dos católicos também é capaz de agir directamente sem o elo causal» e  com Vladimir a jogar, entre Spinoza e Kant, «o jogo absoluto; fruitio Dei, mónada das mónadas, cens realissimum, Ding an sich selbst» e nisto a carnalidade em tudo quando «a erecção e a ejaculação de Valdimir tinham um carácter transcendental, a sua semente tinha o poder de fecundar uma virgem», livro de bondade franciscana porque «quem é amigo dos animais é graciosamente amigo de Deus, e assim suma só vez, une e liga o que há de mais baixo com o mais alto, fechando o círculo [...].»
Claro que há aqui Franz Kafka, em cada momento em que o tecto do mundo se abate e nos sufoca, menos o escritório da companhia de seguros, mas mais a volúpia transgressora de George Grosz, o filosofar às marteladas de Friedrich Nietzsche, alma a explodir dentro do mirrado corpo e o símbolo da prensa e da gravura em metal, o anarquismo de um Jaroslav Hasek, rindo para não chorar. Com todos eles me tenho agora envolvido em leituras, como ele «mestre da imaginação táctil, sempre a morrer, a estoirar, mas somente para poder ressuscitar, rejuvenescer, sempre para reencontrar a força, furar a parede com a cabeça, passar para o outro lado e depois, seguindo o cordão umbilical, recuar até ao início de todas as coisas, de regresso à primeira semana da criação do mundo».
Não digo mais. Leiam! De novo Listopad: «Claro, a Bohumil Hrabal devo muito mais. Ponham-no na minha conta».
 
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