11/02/15

Memorial de Aires: contente de tudo


Não escrever aqui não quer dizer que não tenha lido, sim que nem sempre escrevo sobre o que leio. Desta vez achei que tinha de interromper o ler só para mim sem rasto deixar e  talvez por ter chegado ao fim, lido às braçadas, o Memorial de Aires, de Machado de Assis.
Que direi eu que não tenha sido dito, pergunto-me, aqui - como em relação a todos os outros livros - e respondo: direi o que senti, talvez o que me ocorreu naquela zona penumbrosa do pensamento que ainda não são os raciocínios mas já não são as sensações.
E digo.
Primeiro, ter sido com íntimo júbilo que tropecei nas menções que ali se fazem aos "clássicos" por constatar que são os nossos, ao findar o próprio Bernardim Ribeiro, o João de Barros, Dom Francisco Manuel (de Melo), por ser aquele Brasil o Brasil que nós construímos, aquela língua a que conservou o nosso modo antigo de falar e com beleza natural e requebro local.
Depois, tratar-se de Literatura construída sobre um diário de um vida banal, feita de coisas miúdas e de amores por viúva Fidélia que acaba casadoira, namorada e enfim casada, mais pequenas perfídias e gestos grandes, como a sopa de mana Rita que «vale para mim todas as noções estéticas e morais deste mundo e do outro», ou Osório «que não é namorado feliz, pelo que me disse Aguiar hoje, nem mau advogado, pelo que li nos jornais», «um homem que sabe casar zelo e tristeza», afinal  uma narrativa gotejante a ser a própria magnífica vida, essa «assim mesmo, uma repetição de actos * e meneios», mesmo quando «uma afectação de mágoa, algo parecido com o prazer que se encobre».
Enfim, ser uma narrativa em que o desencanto é apenas o que decorre do tempo, porque «todos os meus dias vão contados», no resto «contente de tudo, palavras e silêncio», e sempre a delicadeza do verbo e da forma como quando, já enamorada de Tristão, «a viúva punha certa moderação na ventura, necessária à contiguidade dos dois ** estados, mas esquecia-se algumas vezes, e totalmente no fim» ou o final tristonho dos dois velhos, privados da filha, naquela «orfandade às avessas», a expressão a significar quanto «queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos».
O mais, só lendo. É este o propósito do que escrevo: sugerir leitura, dividir encantamento.



* Na edição portuguesa que li, da Cotovia, está, como no original «atos», assim como «umidade» na página 105. A minha relutância ao dito novo Acordo Ortográfico, para não dizer repugnância, hesitou, porque afinal de um escrito brasileiro se trata. Mas triunfou a força da vontade: acrescentei o "c".

** «dous» no original, fórmula antiga e magnífica como noute e que o adelgaçamento em "i" roubou peso e densidade, aflautando a fonética como se para uma outra semântica.
 
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