20/06/14

Naufrágios e lonjuras nas ilhas encantantadas


Eu tenho este horrendo defeito de não gostar, sem ter razão, de certos livros, filmes ou o que seja, desde que sejam gostados por certas e determinadas pessoas que eu detesto. Assim sucedeu com o Jorge Luís Borges até que hoje consegui reunir a obra integral em castelhano e creio que terei já lido a maior parte, transido de admiração. E com tantos outros que até sinto vergonha por ser assim.
Sucedeu o mesmo com o Antonio Tabuchhi.
Mais sucede que todos nós temos uma atávica má-vontade em relação à chamada "Literatura de Aeroporto", até descobrirmos, como eu descobri, ali na Portela, ao começo da manhã, numa viagem de ir e vir no mesmo dia, o chamado voar estafando-se, aquele sobre o que vou hoje escrever e tê-lo lido fascinado, pelo tema, pelo modo de escrever, pelas ondas marítimas de sentimentos que me possuíram nas horas em que lentamente o segui, linha a linha.
É breve na aparência a obra, mas a densidade que provoca na alma, tem um tal peso que o leitor sente atrás de si, como uma embarcação, o rastro da sua navegação.
Tudo se passa em torno dos Açores e das baleias, e da faina que o Mar traz e suas dores.
Se há livros escritos amorosamente este é um deles. Narrativa redigida como se fosse reportagem, com uma pequena estante final, despretensiosa, com o que se pode ler para continuar naquelas águas, tudo nela é desvelo e mimo. A rudeza circundante torna-se beleza dorida.
Que direi eu do que é o livro? Nada, porque peço que o leiam. Ainda por cima a editora está a saldá-los a sete euros e meio o que é uma forma de fomentar a cultura esvaziando armazéns, alegria e tristeza num só gesto.

P. S. Vou comprar o Tabucchi todo! É o costume. Não se é impunemente do signo Carneiro...
 
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