20/12/13

João Medina: a cissiparidade sem Amor


Retornado do intervalo, voltei a ler. Desta feita um pequeno livro, agora editado pelas Edições Colibri, junção de dois textos separados por mais de quarenta anos de distância, escritos por João Medina, ser de plural cultura, autor da autobiografia ficcionada Memórias do Gato que Ri.
Impressionou-me talvez mais o segundo à medida que nele progredia. Toma como tema um diálogo que fere, ao abrir-se, por ser ingénuo e esperar-se, ante o tema, a grandeza tonitruante e não o a singeleza quase doméstica e pueril com que o escrito surge. 
Trata-se de um insólito diálogo entre van Gogh e a orelha esquerda que amputou num gesto de desespero, cena dramática a que se segue uma reflexão que é toda ela uma convocatória para o que pela teologia une o humano ao sagrado, a angústia existencial que povoa ambos.
Impressionou-me pelo que é a dimensão máxima do humano «coisa tão espantosa e irregular», «mísero ser que veio ao mundo por uma fenda carnal que fica entre o orifício das urinas e o das fezes», mas, afinal aquele que «pode crer em juízos sintéticos a priori ou no dogma da Imaculada Conceição, fabricar pontes, inventar divindades, escrever tratados de finanças e compor sonetos».
Impressionou-me pelo que é o prenúncio do êxtase, na verdade o de quem escreve, o êxtase procurado em toda a parte, naquela vilória provençal, local do seu exílio, «a dormir um sonho imortal à sombra das oliveiras, árvores imortais», procurado «na devoção religiosa», «na entrega total ao serviço dos outros, no Puro Amor dadivoso, no sacrifício de mim», «na Arte, oficiando com pincéis, tela e óleo«, «na visão ardente», mas sempre só, irredutivelmente só «sempre dentro de mim, prisioneiro de duas datas, o do meu nascimento e a da minha morte futura, caminhando isolado entre duas fendas, a da vulva que me expulsou e o túmulo que me há-de engolir de novo».
Chegado ao fim da leitura sente-se que é tempo de parar e reflectir. Não se presenciou a crueldade de uma amputação, algo ficou ali, definitivamente estripado, nas entranhas do leitor, incapaz de se reintegrar na mágica divisão/unidade, essa  cissiparidade dos seres que se multiplicam sem amor, sem união, na pura mecânica do eu.
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Fonte da foto aqui
 
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