15/08/13

Izas, rabizas...


Talvez seja esta a verdadeira vida, aquela em que a beleza surge, insólita, no pântano da sordidez, a magnificência sobre a generalizada insignificância, a bondade a romper no interstício de um mundo de ferocidade cruel. Feio, dolorosamente muito feio e, no entanto, real.
Peguei no livro porque não estava a entender-me com a sua escrita, porque me magoava as nódoas negras da sensibilidade, porque o Verão quando não atordoa, cegando até ao crime com a sua luminosidade estonteante, supõe, ido o suor, os insectos e a multidão, doçura para o corpo e o fresco de uma sesta depois de um sol ainda temperado pela névoa uma noite que se prolonga pela manhã. 
E, entretanto, negando-se-me a leitura pela incompreensão, o fantasma de que era um dos melhores trechos em língua castelhana e prodígio de um Prémio Nobel da Literatura perseguia-me pela culpa de não estar a ser capaz. de progredir pelas folhas do breve La Familia de Pascual Duarte.
E empapado na sua repugnância lodoso surgiu com outro livro o carinho e a ternura e sobretudo a sua profunda humanidade. Vida de rua, Izas, Rabizas y Colipoteras, aquela outra obra de Camilo José Cela, é uma oportunidade para a genialidade ter voz. 
Quase como num excerto de teatro grego em que a voz do narrador dá o trecho e o tom, também aqui vem ao proscénio o mundo das mulheres que alugam de si o necessário gerando a ilusão de que se dão todas a quem por vezes não ousa querer mais.
Estão todas, em friso e pelas esquinas, cada uma mais trágica e mais patética do que a anterior, arrumadas como se na taxonomia de um compêndio de botânica, espinhosas, carnívoras, de traiçoeira flor, ensarilhadas por um matagal doentio. 
Tudo no livro, desde o léxico ao lançamento da frase é a evidência do sublime em Arte. Dir-se-ia que o tema não, não fosse naquela funda valeta por onde jorra, inútil já, o farto despejo do sémen vital, estar, inutilizada a própria vida que não sucede. A alma aperta-se ao cheiro da retrete em que tudo se torna, já não grita de horror quando um feto despedaçado é encontrado por uns miúdos por entre o lixo. Ali, naquele caudal de amor venal, não há vida para gerar vida.
 
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