23/02/12

Uma vida aumentada

Talvez pudesse dizer em nome da sensatez do que não tenho que não podia, ou do escrúpulo do que não fiz que não devia, mas trouxe-o porque o título Trabalhos de Paixões de Fernando Assis Pacheco se sobrepõe à obra deste, a magnífica narrativa galega Trabalhos e Paixões de Benito Prada, cujo parágrafo de arranque me fulminou. É um livro bonito, como são todos os da Tinta da China, escrito por Nuno Costa Santos que o quis apenas como «crónica biográfica, talvez por pudor. E comecei a lê-lo, minado de tosse e moído de cansaço, mas leio e gostava de ser capaz de o terminar esta noite, assim não me vença o sono ou a morrinha
Não sei porque se escrevem biografias nem porque as leio, vivendo assim, sub-rogada, a vida alheia como se própria fosse. 
Jornalista, escritor, o jornalismo foi a sua profissão dominante, mas viveu-a como escritor, o refinamento da frase, a estrutura do contar. 
Parei na página setenta e seis. São dias difíceis em que um homem se não reconhece e procura-se em tudo quanto há, como nele, que aumentou a vida através do prazer de existir.

18/02/12

Vivamente apurado

Há muito que a procurava. Hoje na Livraria Almedina, do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, encontrei-a, ou melhor, estava à minha espera. «Há que tempos que o não via, ainda está interessado nela?», perguntou-me solícito o empregado, amigo. Era verdade que «há que tempos» e verdade também que «ainda estava interessado». Nunca deixei de estar. 
Comecei a lê-la esta tarde, à biografia de Eça de Queirós escrita por Campos Matos. E a ler,  primeiro a esmo, começando pela sombra da perseguição dos problemas financeiros a que foi sujeito a vida inteira. «Vivamente apurado», no refogado dos apuros, as «atrapalhações de dinheiro» iam-no envelhecendo. Despesas acima dos ganhos, gastos desordenados. Um mês decorrido sobre a sua morte, um dos seus mais dedicados amigos, o Conde de Arnoso, escrevia ao director do Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, a implorar ajuda para a família, que, segundo ele, "havia ficado na mais negra miséria". A 21 de Maio de 1901 a Câmara dos Deputados aprovava uma pensão para a viúva [como vem relatado aqui]. Esta «viria a ser anulada pelo governo da República, devido ao facto de dois filhos de Eça terem participado nas incursões monárquicas do Norte de Portugal em 1912», como confirmei aqui
Vergonha.
 
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