20/09/11

A má fortuna



Perdoem a imodéstia de falar de mim aqui. É que foi um envolvimento emocional grande com a obra deste homem, com a sua pessoa, com a incompreensão a que foi sujeito. A Presença pediu-me que escrevesse um texto de apresentação para uma nova edição, agora traduzida a partir do italiano, do seu "Príncipe", a obra que nunca viu editada em vida. Envolvi-me com o estudo da sua biografia, a partir da má fama em que caiu. Convivi com o seu teatro, a poesia, as cartas. Acompanhei-o na tragédia existencial que foi a sua vida, nos seus amores, na rotina do "Secretário" florentino.
O estudo que entreguei à editora e esta editou há quatro anos e serve de introdução ao livro foi, porém, praticamente ignorado. Devo à Casa Veva de Lima ter podido falar sobre ele ante um pequeno mas muito amigo auditório. Tempos depois a Faculdade de Direito organizava um colóquio sobre o assunto e eu fui convidado para "assistir". Não fui. Não por vaidade de me sentir com direito a púlpito, sim porque quis poupá-los a terem-me como "público" para a hora das palmas.
E, no entanto, tenho consciência de ter escrito um ensaio inovador, apresentando um outro Maquiavel que nunca fora apresentado em Portugal. Para isso estudei horas a fio, apliquei-me no que tantos ignoraram, li-o no original! Recusei-me a entrar na diabolização fácil da personagem. Talvez por isso. Estive contra a corrente. Vi o Homem onde outros inventaram a Besta.
Se não fossem as obrigações legais que me ligam à editora que me pediu o estudo, publicava-o aqui. Ao menos para que fosse lido e não desprezado. Se não fosse o pudor, pedia autorização para isso.
Escrevo estas linhas com um sentimento de raiva e de vergonha. Tudo isto porque estive a ver aqui reflexos do seu pensamento. Vieram memórias, veio a luta contra a adversidade que tem sido tanto da minha vida.
Não sou melhor que os outros. Gostaria de ter tido a oportunidade de ser insultado pelos erros, pela estupidez, pelas insanidades que pudessem estar naquele meu escrito, mas ao menos tido em conta. Não por mim mas pelo que fiz, pela reabilitação póstuma de um homem, que é tratado como se de um primário fosse. Porque como aí escrevi: «Maquiavel ainda hoje causa paixões. São os que o reduzem ao que escreveu neste livro, contra os que exigem que se leia tudo o que há dele. Junto-me a estes, pois urge ler o Maquiavel republicano para que se entenda este tratadetto, rir com o Maquiavel obsceno de La Mandragola para compreender o poético autor dos sonetos de delicado enamoramento, descobrir o todo para entender a parte. São os que vêem nesta obra um manual de instruções para tiranos, contra os que nela vêm um manual de sobrevivência para que os tiranizados sobrevivam à tirania. Não me juntei a nenhum deles, pois acho que O Príncipe foi apenas uma tentativa de mostrar aos que eram aquilo que tinham de ser, para continuarem a sê-lo. São os que encontram aqui doutrina e ciência no campo da política contra os que só acham pragmatismo e oportunismo no mundo do governo. Percebi que Maquiavel escreveu este texto misturando um interesse a muita observação e rematou com uma proclamação; uma obra destas corre o risco de ir do zero ao infinito das categorias dos que vivem a dissecar pensadores à falta de pensarem sobre o que eles pensaram. Niccolò Machiavelli é, sobretudo, mais diverso do que aqueles que, com estupidez militante, o reduzem ao homem unidimensional».
Enfim, nada disso sucedeu. O desprezo, por isso, dói. O desinteresse. O fazer-se de conta que não existe. Por isso aqui fica um excerto do que foi esse meu escrito. Completei-o tinha 58 anos, a idade com que morreu Maquiavel. Tenho 62 de idade, 20 de esperanças. A felicidade dá-me forças contra a má fortuna.

«Esta apresentação é a narrativa de uma tragédia existencial, O Príncipe visto como um produto de amargura, de grandeza agónica, de desespero mas, também, nas sucessivas interpretações que concitou, um espelho das doridas contradições sociais, políticas e religiosas dos vários séculos de História durante os quais a obra sobreviveu até chegar, como um clássico, aos nossos dias. Tudo convergiu para que o acaso não pudesse gerar diferente destino. A verdade do escrito é a do efeito que produziu.
Descobri que para ler este pequeno livro e entender a complexidade que se esconde por detrás da sua vulgar linguagem importaria conhecer o seu autor, retirá-lo do imaginário colectivo, que ora o transformou numa espécie de cortesão alcoviteiro de tiranos, com eles partilhando os arminhos do poder, ora em republicano desprezado pela República, amigo do povo e dele seu discreto defensor, e ir buscá-lo ao momento de exílio, «res perdita», sofrido o desemprego, sujeito à prisão e à tortura, o dia gasto em convívio com gente boçal, a noite esgotada em fantasias delirantes em companhia dos Antigos, a dura modéstia do quotidiano e a ânsia de obter «qualche cose» dos de ‘Medici ou do Papa, um de ‘Medici também[1], algo que lhe devolvesse o sentido de utilidade e algum rendimento, como nos tempos idos em que era o Secretário da Segunda Chancelaria da cidade de Florença.
Filho de advogado literato e por isso pobre, Nicolau Maquiavel, cultor das letras, pobre morreu também. Legou-nos, inédita, uma obra que é um sonho fantasioso de grandeza, tal como o estranho sonho que terá tido, segundo consta, antes de morrer[2].
Mas não basta conhecer o homem e a sua circunstância, importa também ter a percepção dos variados contextos pelos quais a obra passou ao longo do tempo e as mais antagónicas leituras que proporcionou, sempre sem esquecer em que estado se encontrava a península itálica onde foi escrita e encontrada a crueza do poder e a malícia interesseira generalizada, afinal o cenário desta encenação, «O Grande Teatro do Mundo».
Estamos no reino da complexidade. Sente-se isso vendo, por exemplo, o modo como a Cúria romana recebeu a obra, com a naturalidade, primeiro, de quem observa coisa sua, para depois a condenar ao catálogo dos livros proibidos.
O livro foi aceite primeiro com indiferente contemporização por um Papado corrompido e em promíscua relação com o poder temporal, destinatário natural de muitos destes pensamentos; no capítulo XI, dedicado aos principados eclesiásticos[3], o Papa Leão X vê o seu pontificado retratado como «potentíssimo» e Maquiavel a augurar que, erigido «com armas» pelos seus «santíssimos» antecessores, seja agora «grandíssimo e venerando» através da sua «bondade e infinitas outras virtudes». Não poderia haver maior lisonja.
Pouco mais de quarenta anos volvidos, em 1559, por decreto do Papa Paulo IV [nascido Gian Pietro Caraffa][4], O Príncipe entrava, porém, na lista dos livros amaldiçoados pela doutrina católica e, a partir daí, ler Maquiavel passou a significar estar em pecado de heresia, o autor queimado em efígie, os teólogos a clamarem pela fogueira como argumento final contra o seu pensar.
Mas foi no campo da política que a obra sofreu as mais diversas interpretações e serviu para legitimar as mais distintas ideologias: caucionou tiranias e foi tida como expoente de democracia, apontada como exemplo de realismo político e como manifesto de resistência amarga de uma vítima do poder. O marxista Antonio Gramsci [1891-1937][5] leu apreciativamente o livro na frieza do cárcere, o fascista Benito Amilcare Andrea Mussolini [1883-1945] citou-o[6], como exemplo, nos seus histriónicos discursos. O Príncipe é, pois, uma excelente demonstração de que cada coisa contém em si própria o seu contrário.
Livro herético, ele moveu, logo desde o século dezasseis, uma cruzada anti-maquiavelista, que levantou pendão nos campos de batalha do pensamento filosófico, histórico, político e ético, mobilizando forças para o enfrentar, como se contra o próprio Demónio se travasse esse combate.
Curiosamente, parte substancial dessa peleja passou por Portugal como uma decorrência do mandato ingente da propagação do Império através da Fé.
«Espanha e Portugal colocam-se desde a primeira hora em oposição política a O Príncipe», escreveu, em 1939, Vergílio Taborda, professor da Faculdade de Letras de Coimbra[7], quatro anos depois de ter surgido, pela mesma editora, a primeira versão do livro em língua portuguesa. E porquê? Porque, escreve Taborda, «defendendo a cidadela da fé em todos os campos, a Península não deixaria de fazê-lo também no da política. O maquiavelismo era a expressão máxima da política nova, realista e pagã: combatendo-a, as nações peninsulares não se afastavam do caminho que se haviam proposto percorrer».
Eis, encontrada no espírito do seu tempo, a bandeira intemporal de um exército que ainda hoje se não desbaratou e cuja linha da frente é encabeçada pela defesa da moral religiosa enquanto conceito ético do poder justo, contra a «visão pessimista da realidade humana», contra a «política de força», a «política de dissimulação e de perfídia».

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[1] Duas notas interessantes. Primeira, para referir que o «de ‘», sempre minúsculo é a abreviatura de «dei», antes da consoante e do «degli», antes da Vogal para fazer referência à família de que se trate; segunda, que por falar em Papas, os de ‘Medici deram origem a três. O próprio Papa Pio IV pretendeu ser membro da família, sem o ser!
[2] Circula, entre a lenda e o possível, a narrativa do sonho blasfemo de Maquiavel que, no leito de morte teria, em onírica fantasia, visto um mundo em que a turba dos pobres e dos simples caminhava para o Céu, os filósofos antigos – Platão, Plutarco, Tácito – e outras «graves figuras» da cidadania condenadas ao Inferno, porque estava escrito: «Sapitentia huius saeculi inimica est Dei». Posta em dúvida a sua autenticidade, o sonho tem servido como instrumento de cristianização do «ímpio» Maquiavel», que ante o momento de prestar contas ante um Deus que, com a sua obra ofendera, blasfemando-o pelas conveniências da política, terminara a vida mandando os políticos, de que fora conselheiro, arder nas fogueiras infernais. Trata-se de um sonho análogo, embora de sinal diverso, ao sonho de Cipião, que Cícero relata no seu Tratado sobre as repúblicas: «para todos os que conservaram, ajudaram e engrandeceram a Pátria, está guardado no Céu um lugar especial».
[3] O modelo monárquico do Papado, com a transformação do chamado «património de São Pedro» num principado, tendo à cabeça um Sumo Pontífice foi levada a cabo a partir da segunda metade do século VX quando o Papa Eugénio IV se estabelece definitivamente em Roma, em 1443, vitorioso sobre quantos pretendiam a supremacia da autoridade dos Concílios sob os concílios. A queda de Constantinopla em 29 de Maio de 1453, às mãos do Turco Maomé II, veio a abrir a porta para a supremacia da Igreja Católica, Apostólica, Romana. Dotado de exército próprio, de cerca de dez mil homens, a que acresciam mercenários, o Estado Pontifício em pouco se distinguia das outras potências temporais.
[4] Paulo IV procedeu à reorganização do Tribunal do Santo Ofício, incumbido da polícia da fé e do combate às heresias, criando a Congregação da Sacra Romana e Universal Inquisição e lançou o Index dos Livros Proibidos, por decreto de 30 de Dezembro de 1558, publicado no ano seguinte. Nele todas as obras de Maquiavel, de Rabelais e de Erasmo de Roterdão eram referidas como de leitura vedada. Com o Concílio de Trento, em 1564, foi elaborado um segundo catálogo de livros proibidos [Index librorum prohibitorum a Summo Pontifice] e mantida a interdição sobre obra de Maquiavel.
[5] Antonio Gramsci, Note sul Machiavelli sulla Politica e sullo Stato Moderno, Torino : Editori Riuniti, 1971. A visão apreciativa de O Princípe havia sido considerada criminosa na União Soviética: Lev Kamenev [1883-1936] traduziu em 1934 o livro para russo, citando-o como um percurso das análises de Marx, Engels, Lénine e Stalin. Tal ousadia e outras afins custar-lhe-iam a vida, acusado em 22 de Agosto de 1936 por Andrei Vyshinsky, o Procurador soviético, quando do seu julgamento no quadro das grandes purgas estalinistas. «Que os cães enraivecidos sejam mortos a tiro!» pediu Vyshinsky, nas suas alegçaões finais! E foi.
[6] Benito Mussolini, Preludio al Machiavelli, revista Gerarchia [órgão oficial do movimento fascista italiano], Abril de 1924.
[7] Falecido com pouco mais de trinta anos, Vergílio Taborda escreveu, ainda como estudante, um estudo intitulado Maquiavel e Antimaquiavel, que a editora Atlântida editaria em 1939 e que mereceria uma nota prévia de Francisco Morais, Manuel Lopes d’Almeida e Paulo Quintela. Citando como seu mestre Gonçalves Cerejeira, Cardeal Patriarca desde 1929, e que é um dos mais lídimos pensadores da doutrina católica, Taborda regista que desde a segunda parte do século XVI e por todo o século XVII «os contraditores de Maquiavel são aqui legião, da rosa-dos-ventos do saber: teólogos, canonistas, filósofos, políticos, juristas, diplomatas, clérigos, laicos, nobres e plebeus».

18/09/11

O céu estrelado

Há muito tempo que não lia, salvo por razões obrigatórias. Por isso esta manhã escolhi um desses livros que estão para acabar de ler, e que amontoam em cima da mesa do quarto, pela estante que ladeia a cama, na pequena saleta agora escritório e por lugares incógnitos. E levei-o comigo, apesar de volumoso e sobretudo pesado, devido a ser encadernado, o das memórias do Rómulo de Carvalho, que mais se conhece como António Gedeão, o livro que ele compilou para os seus tetranetos, retrato do seu tempo e foi um tempo extenso, rico mas sobretudo mansamente vivido, com bondade e amor ao próximo.
Não consegui ler muito, porque ser pai e ser filho hoje cruzaram-se e o tempo encurtou. 
Mas li ainda e falava ele, numa folha que lia ao acaso, do hábito alfacinha e já perdido de as pessoas ao entardecer ou depois do jantar abrirem janelas de suas casas e nas sacadas ou nas improvisadas varandas olharem o distante nada, conversarem com os seus vizinhos, a sentirem o sabor e o cheiro das noites mais o céu estrelado. E perguntava-se onde estariam hoje as pessoas porque todas as janelas estavam fechadas e não havia assomo de quem fosse. E respondia que diante da televisão. E em frente do computador digo eu, tal como eu. 
E agora que o dia acaba e estou enfim comigo aqui pergunto-me porque não abro janelas, mesmo não havendo vizinhos, nem estrelas que o céu poluído permita ver, mesmo que seja para olhar o distante tudo. E tenho saudades que doem.

07/09/11

Talvez ao fim dos meus dias

Lembrei-me do "Às Sete no Sa Tortuga" o livro que o Luís Amorim de Sousa escreveu com o «retrato de Alberto de Lacerda». E fui buscá-lo à estante e fiquei hesitante pois não o terei lido, pois, a lê-lo, tê-lo-ia sublinhado, que é uma forma de eu vincar em grafite o que se me vinca na alma. 
E tudo isto porque no penúltimo exemplar do JL vem um excerto de diário daquele que foi «poeta, pintor, professor, coleccionador, raro homem de cultura».
Interessam-me os diários, porque sublimam vidas que não vivemos e nos substituímos na vida alheia No dia 20 de Outubro de 1996, em Londres, ao fazer a arrumação da extensa bagagem que trouxera dos Estados Unidos, Lacerda trazia uma "pochade" da Sonia Delaunay. 
Li isso e lembrei-me de quanto me interessei por ela, essa invulgar pintora ucraniana, quanto me empenhei por conhecer a sua pintura, a sua vida, de, por causa dela ter ido a Vila do Conde ver a "Vila Simultânea", ter procurado na Biblioteca local o que haveria mais sobre a sua pessoa, ter imaginado uma ficção que seria um ensaio onírico em torno da circularidade hipnótica da sua Arte. E estar tudo isso adiado, como malas por arrumar e eu sentado no chão, adivinhando-lhes o conteúdo e fantasiado o dia em que fossem obra. 
O "diário" que o JL edita chama-se "Até ao Fim dos Meus Dias". Talvez assim eu consiga.
 
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