07/08/11

O pornógrafo

Há umas semanas atrás irritei-me comigo - que é uma forma de os outros acharem que me irritei com eles - por ter concluído que uma estopada que o Henry Miller escreveu chamada "Os Telhados de Paris", a qual o "Expresso" vende a um euro com o jornal, sendo rasquice ordinária e vulgar nas suas sucessivas narrativas abruptas de fornicação e deboche, reiteradas e sem imaginação estilística, era uma fraude. E um insulto às mulheres tratadas ali abaixo de gente, pior que animais, como se pior que objectos fossem. Mas admito que de facto o livro surgiu para ser uma «novela pornográfica» e nisso não engana ninguém. E é uma «novela pornográfica», excepto ser uma novela. É que pela milésima vez o leitor já sabe onde é que um dos fulanos que se bamboleia pela história vai meter o membro sexual assim como já nem espanta que a miséria da escrita abra com uma criancinha de treze anos em pleno sexo oral.
Claro que o "Expresso" imagina que sendo Verão os leitores precisam de ser aquecidos por aquela forma e claro o nome do autor promete uma sessão de sexo em casa respeitável. O que não muda a natureza do mesmo.
Para quem não tiver medo de dizer que não é a provocação, sexual que seja, que define a boa Literatura, nem a existência de sexo que a torna má, fica tudo dito o que há para dizer.
Vejo agora aqui a menção a uma obra que em breve estará nas bancas. São, segundo leio na recensão crítica, pequenas histórias, numa delas os compositores russos Borodin and Rimsky-Korsakov a usarem os seus sexos para fazer massagem aos pés...nem cheguei a perceber de quem!
Imagina-se. Mais: o autor é o criador de um livro que a menina Levinsky ofereceu ao Presidente Bill Clinton. Um livro sobre sexo telefónico explica o crítico, que cita, em ilustração de um dos seus momentos - porventura o mais vocal - este trecho em que a heroína geme ao bocal: «Oh! Nnnnnnnn! Nnn! Nnn! Nnn! Nnn! Nnn! Nnn!». Que delirante imaginação!
Falta só revelar o título da novel magnificência: chamar-se-à "House of Holes", literalmente "Casa dos Buracos". Compreende-se, numa literatura em que não há lugar para subentendidos, que o título seja este. Tal como nos filmes de cow-boys, antes de ler, o leitor já sabe o que há para saber.
Vista a aparência do autor, e por isso eis ao cimo foto do dito, ele poderia ser místico e eremita. Sucede que em vez de escrever sobre o êxtase optou por escrever sobre o orgasmo. Com redobrada vantagem.
 
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