30/07/11

O sabor da tinta

Há uma literatura infantil para crianças e uma literatura imbecil de adultos que se julgam crianças. Esta última parte do pressupostos que os miúdos são tão idiotas como muitos dos que escrevem julgando que o fazem para eles lerem. Foi ao romper contra este universo que uma obra como Harry Potter, extensa e densa, ganhou de súbito foros de grande empreendimento e sobretudo surpreendeu os editores.
É que as crianças são outra coisa em que a desatenção dos crescidos não repara. Tal como a personagem de "O Bebedor de Tinta", escondido sob uma mesa na livraria do seu pai, aprendendo, através de um libertador pesadelo e os pesadelos libertam, a amar os livros. 
O livro é lindo de texto e de imagens. É um livro para quem conhece o sabor dos livros e sente, táctil, a sensação aliciante do seu papel. Livro draculiano sem ser de vampirismo intelectual ensina os pais a gostarem dos filhos gostando de livros de que eles gostem.

24/07/11

A conversão

Vim para encontrar o meu Eça de Queiroz, controverso, o das Cartas de Inglaterra, certeiro no que observa, o coração dorido ante a miséria e o egoísmo, ante a fome na Irlanda, a depredação no Afeganistão. Não o levei para férias porque a edição é antiga e haveria o risco de o papel de 1945 não aguentar a contemporaneidade da praia, o conteúdo do escrito, esse, resistiu à usura do tempo. «O esforço humano consegue, quando muito, converter um proletariado faminto numa burguesia farta; mas surge logo das entranhas da sociedade um proletariado pior. Jesus tinha razão: haverá sempre pobres entre nós. Donde é a prova que esta humanidade é o maior erro que jamais Deus cometeu».

22/07/11

O ratoneiro

Vi anunciada uma Feira do Livro. Claro que a não perderia. Abriu hoje. Passei, passeando, pelos seus pavilhões, afinal para me entristecer com a penúria. Eu bem sei que não estamos numa grande capital, mas apesar de tudo estamos em Tavira. Eu bem sei que as pessoas lêem pouco, mas não tão pouco. E depois estamos no Algarve e há escritores algarvios e seguramente uma Câmara Municipal com um pelouro de cultura. Mas era o deserto. No meio desta pobreza, sorrateiro, escapulia-se um ratoneiro de livros. Duvido que fosse para ler o que furtava por não ter meios. Talvez haja quem lhos compre. Sempre dá uma réstia de esperança. Mesmo no mercado dos receptadores, que ao menos a cultura triunfe.

02/07/11

Prosas Bárbaras

Encontrar o conhecido quando era desconhecido, eis o encanto da vida. Saber que o que é teve o momento em que estava a ser, eis o mistério do ser e do seu tempo. Encontrei-o ontem no Chaminé da Mota, o alfarrabista do Porto, o livro que veio a chamar-se "Prosas Bárbaras" e que Jaime Batalha Reis convenceu José Maria Eça de Eça de Queiroz, seu autor, a publicar, assim reunisse o que vinha publicando de modo avulso na Gazeta de Portugal, de António Augusto Teixeira de Vasconcelos. E na introdução este momento:
«Repentinamente (em Março de 1866), começaram a aparecer uns folhetins assinados "Eça de Queiroz": ninguém conhecia a pessoa designada por estes apelidos que, por algum tempo, se supôs serem um pseudónimo».
Trouxe-o comigo e esta manhã, retirado para um recanto de paz, estou a lê-lo, tendo ao lado uma ediçãodas "Últimas Páginas", biografias de santos, o livro fantástico que seria póstumo. Daqui a pouco almoça-se e regresso à leitura, enquanto a Natureza se espraia, indolente, em calor.
 
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