14/11/10

Myra, uma história íngreme

Acabei de o ler há momentos.
Se a plausibilidade de uma narrativa fosse critério, talvez Myra, o romance de Maria Velho da Costa, devesse ser revisto em alguns dos seus momentos. Sobretudo o final, que soa forçado, a introduzir na história ingredientes que lhe tentam trazer, com excesso, o clímax dramático: Gabriel assaltado por meliantes num carro de polícia roubado, morto e abandonado numa valeta de uma auto-estrada, tudo com muitos palavrões de todos, e Myra, a rapariguinha russa de destino viandante, jogada num bordel onde um casalinho de criancinhas são prostituídos à mercê de «poderófilos» e tudo a terminar em suicídio, em salto da janela, ela e o cão, porque os «suicidas são sempre assassinados» e assim também se morre às mãos dos outros. 
Descontando isto, e muito do que tem um hálito a paráfrase de acontecimentos recentes, e uma lógica de caracterização anti-macho na configuração dos personagens, em que o único que na aparência se salvaria é capado e impotente e morre não sem antes aflorar quão sádico seria no sexo e instrumentalizador até ao vómito na fantasia do amor, trata-se de excelente Literatura.
A leitura prende, os quadros sucessivos da exposição daquele destino humano, de esperança em desespero, criam uma galeria de horror de que o leitor é, afinal, o mais exposto, deixando ver as chagas que abre cada linha na sensibilidade de quem lê. Além disso, a manha e a tenacidade, criando aquela única força de sobrevivência que são na tragédia, «rumo à atrocidade», o mínimo que resta, comovem, miúda e animal à mercê da carnificina que é o mundo de todos os outros.
«Nada é mais contagioso do que o mal», diz-se num momento do livro e por isso Myra talvez seja a história da malignidade, feita ficção.
O crime por receio do qual Myra inicia na página 56 a sua viagem, que é a viagem da sua fuga, resolve-se na página 136 com um não ter morto. «Matara e não matara. Não fazia dela menos assassina, o que conta é a intenção».
Livro sobre a alma russa, vivido suburbanamente em Portugal, livro de «criaturas íngremes», tudo visto, vencidas as minhas antipatias, digo: um excelente livro.

 
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