16/08/10

O tradutor

Chegou a casa, vindo de uma interminável rua e de uma infinita tarde. Junto a uma janela, o texto nos joelhos, o pescoço dobrado, as costas doridas, as mãos a enclavinharem-se, a teimosia do dever. A seu lado, num braço de sofá, folhas soltas de um livro desmembrado. Palavra a palavra, revendo frases, articulava um sentido, tentava descobrir uma significação. Por vezes o incompreensível ocupava o seu lugar, desfazendo-lhe a laboriosa construção. Matraqueando teclas, folheando dicionários, hesitando em gramáticas. Por vezes dormitava na ânsia de dormir. Eis o tradutor.
Chegara a casa vindo de um mundo estranho. Uma fímbria de frio surgiu-lhe pelas frinchas da janela que era da vida o modo de a viver. Cada vez mais páginas pareciam amontoar-se por traduzir, cada vez mais o mundo lhe parecia intraduzível.
Houve uma manhã em que se entendeu finalmente com a língua estrangeira. Cegara e o mundo escrito tornou-se por igual incompreensível.
Faltaria depois a revisão das provas. Uma vida em tipografia.

10/08/10

O calor assim em bruto

Encontrei um livro dele um destes dias. Não me lembro onde. Tenho muitos. Estive para comprar mas temi já ter e repetir, como sucede por vezes. Falam de arte, pintura sobretudo, e de música e ao mesmo tempo são literatura pura e tudo isso numa simbiose muito lúcida e densa. «Talvez, pensei, o calor assim em bruto, atenuasse o nosso comum horror ao verão e a temperatura funcionasse como uma vacina», escreveu no conto "No Verão é Melhor um Conto Triste».
Faz sentido hoje porque se sufoca.
João Miguel Fernandes Jorge é difícil, pela inteligência com que diz, pela cultura que o leva a dizer. Caminha-se com ele como por corredores de refinamento e categoria. Refresca o espírito. Estão 38 graus aqui na rua.

08/08/10

Ce e Amorul?

Alarves, incultos, imaginamo-los a todos pedintes de duvidosa razão, espojando-se pelo chão da miséria, mão lancinante, lavando vidros de automóveis que ninguém quer que sejam lavados, elas de crianças dopadas, ao seio, em sonos incompreensíveis, humílimos, corridos pelo nosso desprezo e pela indiferença: romenos.
Acordei esta madrugada com o outro mundo de um país que é um ponto avançado da latinidade em território eslavo.
Não sabia que tinha sido o Carlos Queiroz quem elaborou a primeira revisão da tradução em 1945. Cuidadosa, amorosamente, trabalhando a métrica, a morfologia, a sintaxe, a estética dos poemas. Surgiu assim a edição bilingue de Mihail Eminescu, o grande poeta romeno: "Poezii". Tenho-a aqui comigo como companhia.
Victor Buescu que tantas gerações formou no seu Curso de Língua e Literatura Romena na Faculdade de Letras de Lisboa, dedica-lhe palavras de grato reconhecimento.
Sim, foi José Carlos Queiroz Nunes Ribeiro, funcionário da Emissora Nacional, poeta, ensaista, autor de magnífica Épístola aos Vindouros, tio de Ofélia Queiroz, essa mesma, a de Fernando Pessoa, o que morreu aos 42 anos.
Mircea Eliade, que morou aqui perto de mim, não longe da Igreja de Fátima, deixou em prólogo uma breve anotação à obra e ao homem: «incapaz de ser feliz», «a ventura de todos os dias é-lhe negada». A ele Mircea também. O seu Diário Lusitano faz dó, a mostrar como a vida pode ser cruel.

04/08/10

Vagão J

Porque saiu agora um romance inédito do Vergílio Ferreira, encontrado completo no espólio do autor, chamado A Promessa, escrito em 1947, ou seja antes do Mudança [1949] que como o título o diz marcaria a viragem da escrita do autor para a problemática existencialista, abandonando - rompendo será excessivo dizê-lo reportando-nos a tal momento - com a caminhada na estrada do neo-realismo, achei que para tudo fazer sentido na minha cabeça e não aumentar a desordem que resulta do ler dispersamente como tanta vez sucede, deveria começar pelo princípio. First the first eis-me com o Vagão J entre mãos.
Vagão J, como se sabe é, na nomenclatura ferroviária, o das mercadorias, o da tralha, o do gado, as mercadorias avulsas.
Começou a escrevê-lo em Faro em Maio de 1943, terminou-o em Setembro do ano seguinte. O texto é curto, revoltoso.
Leio nos intervalos. Para já vou ainda na caracterização do «homem da jorna», espécie braçal calcinada a dura vida e talhado à podoa das privações. E sobretudo retinto de ódio. «Toda a gente possuía qualquer coisa para afirmar a sua existência: o homem da jorna tinha apenas o seu ódio». «Porque os homens da jorna sofriam como cães ao verem que trouxera de Lisboa um ar de rufia, um paleio de malandrim. Cavasse como os outros a terra negra, andasse ensebado, fosse como os da sua igualha». Estava perdido o Bogas, à mercê de nas tripas se lhe ferrar a naifa, vingança surda sobre o gingão citadino de mão macia e fala eloquente para quem a fome é apetite e a romaria coito de coitos de fácil sedução.
 
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