11/04/10

A pedra de toque

«A eternidade repetitiva pode parecer atroz ao espectador; é satisfatória para os seus indívíduos». Disse-o Adolfo Bioy Casares no seu incomum livro La invención de Morel. É uma legitimação inteligente da angústia de Sísifo. Redigida meticulosamente a frase resiste a uma aprimorada hermenêutica. Note-se que não há nela sequer um «porém» adversarial que torne o seu segundo segmento uma contradição ou uma excepção ao primeiro. Aqui a satisfação é como uma realidade tão regra geral como atrocidade. Repare-se que o que é atroz está relativizado por um «parece» que degrada a asserção pela desvalorização do observar que a afirma, enquanto que a satisfção «é». Constata-se, enfim, que a rude e dolorosa atrocidade corresponde a medíocre e quase insensível satisfação: a eternidade repetitiva «é satisfatória».
Eis a grande literatura, cinzelada em pedra polida até que o remate final e o polimento total tornam cada frase a pedra de toque de uma magnífica construção.
 
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