14/02/10

Poeticamente exausto, verticalmente só

Tive-o, perdi-o, ficou numa qualquer casa, daquelas em que coabitamos e por vezes só não ficamos nós quando cessa a coabitação. Rasgou-me o peito lê-lo então porque morreu aos vinte e três anos numa guerra que eu não quereria fazer, porque tudo nele prenunciava esse saber dorido de que a vida o iria matar. Esta noite encontrei a frase e soube que há um filme que eu perdi como se perdeu o livro e não fosse este milagre se perderia a lembrança:

«...poeticamente exausto, verticalmente só... lembro memória dum qualquer verão em nenhuma parte. Percorro o suor dos mortos. Acabo em cada boca que começa. E como os mortos suaram antes da guitarra de barro! Kid, companheiro antiquíssimo: pergunto: o desespero já foi jovem? Quem doará seu rosto ao trigo da aurora? Quem, quando a areia crescer nos olhos, resolverá a rosa marítima? ESCREVE! Nada sei da mulher que possuiste em casa da Lena. Sei somente das jovens que a cidade digeriu... Sei todas as cidades do nocturno mapa do esquecimento...


P.S.: Sou aspirante. Não me chames alferes. Sim, não me promovas»


ao Francisco

Agosto de 1963

Mafra
 
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