12/01/10

Quando eu li Eric Rohmer


Soube esta madrugada que morreu o Eric Rohmer. Há pessoas que, cinéfilas, falarão sobre todos os seus filmes com propriedade e sobretudo com pormenor. Eu lembro-me do Ma Nuit Chez Maud, porque o vi em 1969 numa sala-estúdio e porque nessa altura o cinema era parte do crescimento da alma e do engrandecimento dos sentidos, quando não era um lugar de militância cívica. Tudo isso foi antes de me ter saturado do intelectualismo de algum cinema francês, a sua retórica palavrosa e inconsequente, rendido irreversivelmente à estética da cinematografia italiana.
E lembro-me também porque vi, numa sala de cinema que já fechou, a do Nimas, aqui na 5 de Outubro, L'Agent Triple, um dos seus menos conhecidos filmes, rodado em 2004, e isso ter acontecido em circunstâncias excepcionais.
Na altura escrevia um livro, a biografia de uma russa branca chamada Nathalie Sergueiew, nascida em São Petersburgo em 1912 e que faleceria nos Estados Unidos da América em 1950, depois de uma vida notável. Alguém me avisou que estava em exibição um filme em Lisboa que tinha ingredientes que me poderiam interessar. E estava.
Sucede que para peparar esse livro eu tinha estado em Paris a estudar o ambiente dos russo brancos no exílio, as suas organizações políticas e sociais, as tentativas de infiltração da União Soviética a partir da Finlândia, a luta que, nas condições de maior penúria, todos levavam a cabo para salvar l'honnneur de la Russie, como se exprimiu tão bem Andrei Korliakov. Em Zurique tinha-me encontrado com alguém que me pusera em contacto com a vida do general Dénikin, do general Wrangel. Tinha reconstituído os raptos dos generais Kutiepov e Miller, dirigentes das ROV's, a organização dos antigos oficiais czaristas, perpetrados por um comando da OGPU, o serviço secreto antecessor do KGB, os mesmos que assassinariam Lev Trotski no México.
Imagine-se-me agora sentado no cinema a ver na tela, passo a passo, aquilo que eu conhecia por ter reconstituído com base nos documentos, toda a trama a do rapto do general Evgeny Karlovitch Miller, o envolvimento do general Nikolai Skobline na armadilha, o complot com a Alemanha nazi. Imagine-se mais, o poder notar, ao ver o filme, as pequenas diferenças que na ficção havia relativamente à realidade. Imagine-se ver na tela um capítulo o meu livro ainda por publicar, assinado por Eric Rohmer.
Esta madrugada ele morreu. E o meu livro, que é um dos livros que considero melhores, está quase morto. Um dia destes entrego-o a um alfarrabista ou vendo o papel a peso. A tristeza é a mesma que sinto agora que estou a escrever. Tudo morre.
 
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