07/11/09

Käthe Kolwitz e Álvaro Cunhal



Teria de ir buscar, não o tenho aqui e ele ainda é volumoso, o exemplar evocativo da revista Vértice. Saíu em Coimbra o primeiro número em 1942, no simbólico mês de Maio. Foi uma frente de combate pelo «neo-realismo», uma palavra de ordem cunhada por Joaquim Namorado para esconder da Censura uma outra, historicamente perigosa, porque militante: «realismo socialista». E teria de o ir buscar porque foi lá que descobri a já antes ouvida mas nunca até então lida polémica sobre a forma e o conteúdo, que era o modo indirecto de então se discutir o binómio arte/ideologia, no ambiente activista da «missão social do artista».
E foi lá precisamente que me apercebi que um dos intervenientes na contenda, assinando sob o nome de António Vale, era afinal, Álvaro Cunhal, filho do advogado e escritor Avelino Cunhal.
Encontrei-os todos esta tarde ao ler a Autobiografia do Mário Dionísio, que trouxe comigo depois de visitar a Casa da Achada, à Mouraria.
Escritor, Dionísio aventura-se pela iniciação à pintura. Companheiro de arte, aquele que seria o mais lendário Secretário-Geral do Partido Comunista Português, «o partido que não é preciso dizer-se qual é», no qual o autor de A Paleta e o Mundo, militaria até 1952; outro, Huertas Lobo e a juntar-se ao grupo, António Augusto de Oliveira, o AAO, ambos esquecidos. Presente o próprio Avelino, ele também pintor.
Eram tardes de domingo, em que no improvisado atelier se fabricavam tintas, misturando com os meios os pigmentos, atestando bisnagões de estanho. Tempo de penúria em que fabricavam as próprias telas em que se «escrevivia» e pintava. Tempo de uma paixão comum: Álvaro Cunhal apresenta a Mário Dionísio a obra de Käthe Kolwitz. É dela a imagem deste post. Tempo em que «não sabia onde começava e onde acabava o amor, a luta pela liberdade e pela transformação do mundo, a criação poética».
 
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