31/08/09

L'été, de Albert Camus

Longe da solidão populosa das cidades da Europa, em 1939, em Oran, na Argélia, Albert Camus escreve. Um ensaio sobre os lugares sem poesia, em que as amendoeiras florescem, inesperadas, numa certa noite fria de Fevereiro e com elas a renovação prometida da beleza. Cidade sonâmbula e frenética, apetecida por um sol devorador que a calcina, pulvurenta, marítima. Capital do aborrecimento, o lugar do Minotauro, em que Atlas aguarda apenas a sua hora.
Há na potente escrita de Camus a presença sensível da luz e da cor, do odor de tudo quanto é humano, de tudo o que é a Natureza. Sente-se, trágico, o deserto a entranhar-se na alma e com ele o absoluto e o nada infinitos e por isso um mesmo ser.
Obstinados, o mar e as pedras prosseguem ali o seu diálogo de milénios, indiferentes ao irrequietismo pobre dos miseráveis humanos.
Voltando a este seu escrito de juventude, o autor de O Estrangeiro escreverá em 1953: Oran já não precisa de escritores; aguarda a chegada de turistas.

30/08/09

Cartas, de António Botto


Será que a palavra desgraçado ofende se aplicada a uma pessoa? E é lógica pensando em António Botto?
Sabe-se que nele a pederastia foi uma estrela amarela ao peito, pretexto para a infâmia. Além disso tinha contra si a diminuição estatutária da linhagem, o pai fragateiro, da origem, no Casal da Concavada, do emprego, ajudante de livraria primeiro e funcionário amanuense.
Sena o crónico maldizente pintou-lhe a personalidade como tinginda de «megalomania mórbida e destituída candidamente de escrúpulos».
Os seus livros foram cremados no Governo Civil. Os militantes da Ordem Nova, Marcello Caetano e Pedro Teotónio Pereira congratularam-se então com o facto.
Escrevendo à memória de Fernando Pessoa, Botto ironiza o lamento: «Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses/Voltávamos à mesma: Tu lá onde/Os astros e as divinas madrugadas/Noivam na luz eterna de um sorriso;/E eu, por aqui, vadio da descrença/Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...».
Em 1932 Botto publicou o volume Cartas Que Me Foram Devolvidas. Em estudo sobre a sua obra José Régio diria: «Em quase toda a nossa poesia amorosa, o amor aparece sobretudo como um entusiasmo do coração e um enlevo da alma (...). Ora leia-se alguns dos mais característicos poemas de António Botto: Quando muito, revela-se neles um enlevo do corpo. A carne dá-se e pede avidamente. Mas a alma reserva-se. E a cabeça interroga, espia, analisa, debruça-se sobre o coração».
Claro que uma tal poética traria dissabores. A substanciação do amor é a grande ousadia para o espírito enamorado. Ainda hoje.

29/08/09

O criador e a criatura

Durante uns anos escrevi assinando com o meu próprio nome. Vários blogs. Chegou a ser facto notado o serem muitos. Respondi várias vezes quanto a saber como tinha tempo para tantos, pergunta feita por quem não notava que havia dias em que não escrevia nalgum deles. Arrumei esses blogs, recortando o que em jornalismo seria o lead de cada post.
Um dia decidi parar. Fiz disso uma questão de honra, para não me deixar tentar pelo desejo de regresso: não mais haveria exposição pública sob o meu próprio nome.
Criei entretanto um blog que corre sob um nome literário: este. O seu título junta um dos meus nomes próprios ao meu apelido materno. É apenas um aparente pseudónimo.
Qual a diferença, perguntei-me já? Significativa. Até aqui, assinando com o meu nome, era possível dizer-se: ele é aquilo que escreve. Sendo outro o nome do autor, vale a escrita pelo que significa em si. Foi-se a pessoalização. Não mais será legítimo dizer-se que está triste quem escreve sobre tristeza, contente o que escreve alegremente.
Os voyeurs, os que fazem da fulanização método, desapontados, dirão que isto é um artifício. Talvez seja. Mas não é uma manobra artificiosa. Quando assinava com o meu próprio nome cada blog era também uma pessoa diferente a escrever. Chegámos a ser muitos. Cansei-me deles.
Hoje o Eduardo Pitta teve a gentileza de uma referência, aqui, mostrando quem é o criador do António Rebelo da Silva. Digo bem, o criador não a criatura. Obrigado pela amablidade.

27/08/09

Lénine e o Museu Britânico

Em Abril de 1902 usando o pseudónimo de Jacob Richter, um dos que se servia para iludir as autoridades tsaristas simultaneamente com o de Lénine, o advogado Vladimir Illitch Oulianoff, motor teórico da revolução soviética, estudou na Biblioteca do Museu Britânico. Foi a sua casa de trabalho, o seu escritório. Deixou ali a sua pegada. Ainda cheguei a conhecê-la, com a sua sóbria beleza. Agora poderia fazê-lo a partir de São Pertersburgo, ou da Finlândia, de onde partiu num comboio selado, artilhado com dinheiro alemão, para lançar a revolução bolchevique. Chega-se lá on line. Dir-se-ia o mundo literário ao alcance de qualquer PC.

The End of the Affair, de Graham Greene

Em 1941 o escritor Graham Greene trabalhou nos serviços secretos britânicos, na Secção V do MI6, colocado no departamento português do desk ibérico, sob as ordens de «Kim» Philby. Philby revelar-se-ia, com escândalo, uma «toupeira» do KGB. Tendo escapado para a União Soviética escreveria dali um livro de memórias intitulado My Silent War, que em Portugal foi editado pela Bertrand com o título erróneo de A Guerra do Silêncio. Greene escreveu o texto de apresentação e nele fez constar uma frase que se tornou notória: quantos de nós traímos algo de bem mais importante do que um país.
The End of the Affair é a magnífica narrativa dessa problemática, da fidelidade a um amor, a uma crença, a uma religião. O livro está dedicado a «C» mas sob esta letra consegue-se reconstituir o nome de Catherine Waltson, um dos muitos amores adúlteros do escritor. A edição americana menciona mesmo «para Catherine».
Catherine Compton Walston era mulher de um homem de negócios britânico. Uma manhã, em 1946, o seu avião particular aterra perto da casa do escritor. Tímida Vivienne Greene recebe-a, na ausência do marido. A visita traz um inesperado pedido. Americana de origem, decidira converter-se ao catolicismo e pretende que o autor de The Lawless Roads seja o seu padrinho de baptismo. Um ano depois, padrinho e afilhada envolvem-se num relacionamento que traria assim, pela natureza do sacramento que os une, um travo incestuoso.
Sexo clandestino, a princípio, aquele que os atrai, recebe, para o dissimular, um nome de código, que ambos combinam como o santo e a senha para os encontros íntimos: «onions». No romance o encontro amoroso entre Sarah e Maurice começara com um jantar de bife de cebolada.
União decadente, esta dava ao escritor a possibilidade de ver realizadas as suas mais negras fantasias. Com ela se transpuseram os limites do convencional. Odisseias inconfessáveis foram então atingidas entre ambos. Em 1950, estando Greene em Veneza a filmar The Stranger's Hand tê-la-á feito acompanhá-lo a um bordel, vestida de homem e caracterizada como tal, ambos com um amigo comum, que relataria quanto ela «gozara como um homem» o que ali se podia fruir. Sexo insano e demencial mas profundo amor, terminaria em 1948. «Uma história não tem começo nem fim», assim começa o livro. Eis a narrativa da intemporalidade.

19/08/09

Os dias loucos do PREC

Em Outubro de 1975 o então Conselheiro da Revolução Canto e Castro definia Portugal de então como um «manicómio em auto-gestão». A 19 de Outubro, um domingo, o Sindicato dos Trabalhadores da Panificação definia: qualquer que seja a linha política governamental, os operários da panificação deixavam de trabalhar de noite.
Daí que, noticiava a imprensa, papos secos ao pequeno almoço era coisa que deixaria de haver. «Quem está interessado no trabalho nocturno? São aqueles que se aproveitam da escuridão da noite para poder livremente roubar ao peso do pão e falisificar as farinhas que nele são utilizadas», era o argumento utilizado pela comissão de trabalhadores em luta.
Leio isto no livro Os Dias Loucos do PREC, de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, editado pelos jornais Expresso e Público, em Abril de 2006. Leio e lembro-me de ter visto alguém comentar então com humor o que era afinal o leitmotiv dos padeiros: «queremos dormir com as nossas carcaças! Ora aí está uma razão mais do que legítima, revolucionária ou não! Mesmo nos anos loucos do «processo revolucionário em curso», que triunfe o amor sobre o pão nosso de cada dia. Ri-te, ri-te, riri.

18/08/09

Teoremas de Filosofia

Ao arrumar livros, ou melhor, ao continuar em arrumações, estive a ordená-los os Teoremas de Filosofia, de que se editaram doze cadernos, dirigidos por Joaquim Domingues e Pedro Sinde.
O último arquiva intervenções que tiveram lugar em Sesimbra, nos primeiros dias de Março de 2005, em torno do colóquio A Filosofia Portuguesa de Álvaro Ribeiro. Folheei o texto inicial, a conferência de António Telmo, para recordar um excerto que me tinha trazido a alegria breve de um riso. Refere-se a Álvaro como «(com Agostinho da Silva) o mais notável discípulo de Leonardo Coimbra». Na verdade aquele no seu livro Memórias de um Letrado, saído em três pequenos tomos, pela Guimarães, já havia confiado esse sonho de vir a ser assistente do autor de A Rússia de Hoje, o Homem de Sempre. Mas tudo começou num exame, o último do Curso de Letras da entretanto extinta Faculdade de Letras do Porto. Do júri fazia parte Leonardo. Conta Telmo: «Durante o interrogatório feito por Leonardo Coimbra o jovem estudante praticamente pouco disse. Não encontrava as palavras para o seu pensamento, hesitava, tartamudeava, fazia gestos». Terminado o exame, faltava a nota. Os três professores conferenciaram. Dois sugeriam uma negativa. Leonardo propôs: «vinte valores!». Claro que a ideia daria brado. «Vinte valores!, exclamaram eles. - Mas o rapaz não disse praticamente nada!». Mas Leonardo Coimbra tinha uma razão: «Não disse com palavras! E então os gestos?».
Á consideração dos espíritos superiores, já que, pelos vistos, o gesto é tudo.

17/08/09

O Borda d'Água de 2007

Ao arrumar estantes encontrei o Borda de Água de 2007, dirigido pelo Pedro Teixeira da Mota. Num dos cantos em que alberga conselhos úteis explica que para se dormir bem deve tirar-se o excesso de energia dentro da cabeça. Para tal aconselha o andar consciente dos budistas: sentir o pé que se levante, a perna que se move, o pé que assenta. O Borda d'Água tem isto de magnífico: ser um «reportório útil a toda a gente». É o que diz ser: o verdadeiro almanaque.

16/08/09

Borges, de Jason Wilson

Tenho uma biografia do Jorge Luís Borges, extensa, profunda, erudita, escrita por um professor de Oxford especialista em Cervantes, Edwin Williamson. Tenho outra feita com base em depoimentos da sua criada de mais de trinta anos, Epifania Uveda de Robledo. Acho que são ambas fundamentais. E tenho a fotobiografia que a Teorema traduziu, escrita por Alejandro Vaccaro onde estão rostos e expressões, tudo aprisionado para a posteridade, entorpecidos pela pose do instante. E sei que hoje há troupes que se digladiam em Buenos Aires pela posse da memória deste homem e uma viúva que se bate, herdeira, pelas edições do que o indefeso morto não quis que se reeditasse. E sei que é chic dizer-se agora à esquerda «sim, Borges» como ontem era politicamente correcto detestá-lo, porque era de direita.
Foi por isso um bem ter nas mãos a pequena biografia que Jason Wilson escreveu em 2006 e a editora Fio da Palavra Editores traduziu este ano. Por ser um livro inteligente.
Vou a meio e aprendi que, esgotado por pulsões inconsequentes, sempre apaixonado e desgraçado em amores, este homem soube ser uma realidade permanente independentemente da sua provisória pessoa. Viveu a vida através da literatura, antes de ser cego. Aconteceram-lhe muitas coisas, porque leu.
A sua vida exterior é monótona, as entrevistas repetitivas, não há biografia possível da aparência. Há a obra.
Uma vez, na rua, perguntaram-lhe se era Jorge Luís Borges. Irreverente, respondeu: «Às vezes». Naturalmente.
Há um passo do livro que me fez parar e pensar e vir escrever já aqui. «Cada momento que vivemos extingue todo o passado, ao mover-se para o futuro». Eis porque o budismo sabe que o passado é incerto. Verdadeiramente «Deus ainda não criou o mundo», escreveu na narrativa Os Teólogos, para o livro El Aleph. Saber isto é descobrir a existência, depois de termos julgado existir.

15/08/09

Eu e Elas, de Maria Archer

Quando em 1945 publicou o livro que hoje encontrei, Eu e Elas, apontamentos de romancista, Maria (Eyrolles Baltazar Moreira) Archer já tinha escrito catorze livros, mas confessava que ainda se via «embaraçada para escrever um romance». Uma enciclopédia literária, chamada não se percebe porquê, Literatura Portuguesa do Mundo, diz que os seus livros «abordaram com ousadia, na sociedade dos anos 30 e 40, o tema da dependência civil, económica e social da mulher (...)»; e que «devido a esta preocupação feminista e de crítica social foi forçada ao exílio no Brasil, em 1954». Confirma-se aqui.
Se é assim, este que leio tem uma tal leveza na ironia e subtileza na crítica que a autora parece insinuante parte da paisagem que descreve. São pequenas notas de observação social, em que abundam meninas casadoiras e viúvas passíveis de casamento, o mundo do «marido vantajoso», da «rapariga de boas famílias», o pano de cena das heranças e dos dotes e onde contracena o ser-se bonito, «bem» e o ter fortuna, para surpresa a inútil inteligência, tudo apoiado em criadas de servir e vivido por pessoas que se servem.
Na prosa de abertura duas senhoras de idade indefinida organizam-se para uma saída em diversão, buscando respeitável homem que atrelem. A alternativa, cruel porque dentro do possível, é que seja «o mais decorativo que se pode imaginar» ou «que nos pague os capilés». Encontrado cavalheiro, acaba por se imiscuir na cena «o Caril», coitado, indiano e milionário, que a juntar-se à mesa, envergonharia o possível aparelhado que encontraram, que na hora da conta, ó cruel vida, não teria correspondência em numerário à vista que fazia. Ódio a um mundo remediado!
Enfim, vinagre e veneno e calda açúcar. Num décor de serão, em que «aquelas senhora criava bobos com palavras e fazia das suas indefesas amigas os seus bobos de salão», alguém se sai com «um homem pode pensar o que quiser, conquanto que não o diga, e uma mulher pode dizer o que quiser, conquanto que não o pense».
O título de uma das crónicas «silogismo da crueldade feminina» talvez merecesse ter sido o nome do livro. Dentro de uma meia-hora acabo-o, ou ele comigo: «porque será que os portugueses me parecem mortos...mortos amáveis?», pergunta uma das personagens. Pois não sei. Talvez nas folhas que faltam venha a solução ou o enigma. Na página 104 estava uma pista: «os meus amigos já parecem gente pobre, de tal forma se civilizaram, se educaram, se apagaram no bom gosto e nas boas maneiras». Riam-se! Foi escrito em 5 de Março de 1943, chama-se Cocktail em Casa de Volframistas.

14/08/09

Andanças para a Liberdade, de Camilo Mortágua

Teria já acabado de o ler se não se tivesse intrometido outro pelo meio e mais os acontecimentos da vida e as obrigações do trabalho e as da manutenção do corpo, a exigirem, por exemplo, dormir. Vou na página 149 das Andanças para a Liberdade, de Camilo Mortágua. É o primeiro volume. Cobre o período de 1934-1961. Interessei-me por ele porque esteve no assalto ao Santa Maria. Confesso que saltei o período em que era pequenino. Faço quase sempre isso com as biografias, como se esse fosse um tempo sem interesse, uma preparação para o momento da vida em que a pessoa verdadeiramente nos interessa. Eu sei que isso é cruel, como se matássemos uma pessoa. Mas é verdade.
O livro é uma história de privações, de uma vida dorida, de um «remetido à condição dos que não contam», ferido pelo «estigma da não existência social». Cedo emigrante, logo na América do Sul, enfim na Venezuela. A política chegará mais tarde. Por enquanto Camilo esgota-se ainda na busca de trabalho, moço de taberna, padeiro, o que seja. É um livro de fome, de uma mais dolorosas fomes, a se viver. Tem 255 páginas. Foi editado pela Esfera do Caos.
Ri-me, por vezes. Em Caracas, os polícias corruptos multavam mesmo os desgraçados «porque sim». É assim mesmo que as coisas nos acontecem: «porque sim».

13/08/09

Bocage Maçon, de Jorge Morais

O livro é pequeno mas, sobretudo, lê-se bem; como dizia alguém, com humor, «deixa-se ler». Esgotei-lhe as páginas em dois fôlegos. Apoiado em sólida bibliografia não cansa com despautérios de exibição erudita. Está, sobretudo, bem escrito. Trata-se do Bocage Maçon, de Jorge Morais, jornalista e escritor, prefaciado por António Valdemar, da Academia das Ciências. Foi editado em 2007 pela Occidentalis. Na capa um óleo figurando o biografado, da colecção do falecido Pisany Burnay.
Essencialmente a obra toma como sólida a filiação maçónica do vate Sadino, irmão «Lucrécio» da loja Fortaleza e dá-nos conta dos poucos sucessos e muitos insucessos decorrentes dessa circunstância . Mas a partir deste território é um ensaio interessante da confluência do iluminismo,do jacobinismo e da influência dos pedreiros-livres na formação do pensamento de Portugal no século dezoito. Além disso, aborda algumas outras problemáticas teimosas da História da pedreiragem no nosso país como a filiação maçónica de Pombal, a execução de Gomes Freire de Andrade e a origem, afinal inglesa, do Grande Oriente antes de o francesismo ter ocupado os ritos e as ideias dos «filhos da viúva».
Perseguido pertinazmente pelo Intendente Inácio Pina Manique, Bocage acabaria «cativo por convicções» por ser julgado pelo Santo Ofício, ao Palácio de Estaus e condenado em 17 de Fevereiro de 1789 a...um curso de doutrinação no Mosteiro de São Bento, onde hoje doutrinam os deputados na Assembleia da República. Aí fica até 24 de Março protegido por um beneditino.
Já para o final da vida, em 1800, Manuel Maria trabalha, em troca de soldada regular, na Oficina Tipográfica, Calcográfica e Tipoplástica do Arco do Cego. Um ano depois está desempregado. Foi enterrado no dia 22 de Dezembro de 1805.

12/08/09

O Império, de Henrique Galvão

«Há dez anos - exactamente quando a Europa começava a debater-se entre as mais escuras dificuldades da desordem política e social - um Homem de raro equilíbrio e profundo saber, um Homem capaz de agir como órgão de acção e de pensar como órgão de ideias, restaura a vida portuguesa, desperta as virtudes adormecidas deste povo, refaz uma doutrina, reconstitui uma força e encaminha de novo Portugal para o cumprimento da sua Missão, no rumo glorioso da sua finalidade histórica: Salazar».
Quem escreveu este panegírico do Chefe? Num opúsculo editado pelo SPN, o Secretariado da Propaganda Nacional? Seguramente uma figura do regime, um seu prócere: Henrique Galvão! Uns anos depois a irrequieta criatura passar-se-ia para o outro lado e entraria na História ao liderar o assalto ao navio Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação. Conquistou assim direito à amnésia de alguns sobre esta parte antecedente da sua biografia.
Escritor prolífico, recolho na Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian a lista dos seus livros. Muitos sobre África. Bastantes bem escritos.
A volubilidade de carácter e a riqueza literária associam-se por vezes nesta língua dúctil e maleável, feita de condicionais e de pretéritos mais do que perfeitos.
É verdade: a citação pertence ao opúsculo, como disse, chamado O Império, sem data, mas talvez tirado em 1938.

11/08/09

A Tragédia do Glória Scott, de Arthur Connan Doyle

O que nos leva a ler um livro? Seguramente o tê-lo à mão.
Ora eu tenho a obra creio que completa em livros de bolso e dois belos tomos encadernados que um dia encontrei em Inglaterra e com que vim ajoujado quase a ter de pagar excesso de carga, a mala já carregada com outros livros. Mas devo ao facto de o Diário de Notícias estar a distribuir gratuitamente livrinhos com as histórias de Sherlock Holmes a possibilidade de o ter lido. Vinham com o jornal da manhã. Calhou esta tarde. A narrativa era breve, como todas, simples como é o estilo de (Sir) Arthur Conan Doyle, cuja complexidade espiritualista e filosófica não passa para a escrita. Acabei há minutos, aproveitando um intervalo, A Tragédia do Glória Scott: um juiz de paz perseguido pelos remorsos de um passado criminoso, de matança e roubo, recebe a visita da sua má consciência. O método dedutivo entra em acção e Watson escuta, da boca do próprio Holmes, os prodigiosos efeitos da inteligência. No meio da trama, surge, ao bom estilo de Edgar Poe, um misterioso bilhete, escrito em código: cada três palavras uma faz sentido. Saltando de três em três percebe-se a mensagem. Esotericamente está lá tudo.

10/08/09

O mocho

Escrevendo da Rua de Buarcos na Figueira da Foz, em 16 de Agosto de 1937, para José Régio, Vitorino Nemésio dava-lhe conta: «(...) eu, há três anos, não sou senhor de mim nem do meu tempo. Disponho dele a medo e sempre com remorsos de o não dar à preparação e cogitação dos meios de não ser esmagado pelos mochos universitários, em cuja companhia infelizmente me meti, e que alegam aos menos desconfiados que eu não sou inteiramente mocho - puro pretexto para me correrem do bando». Fui ler esta carta que vem na Obra Completa de Régio, que a Imprensa Nacional está a editar, talvez por não estar em férias.

09/08/09

L'Envers et l'Endroit, de Albert Camus

Durante vinte anos de vida como escritor recusou a reedição dos escritos de juventude. Ao prefaciar um deles, L'Envers et l' Endroit, para uma edição saída em 1958, dois anos antes do acidente de automóvel que o matou, Albert Camus concluía-o confessando que continuava a viver com a ideia de que a sua obra ainda não tinha começado. Tinha recebido o Prémio Nobel da Literatura um ano antes.
Estou a lê-lo agora, esse livro primordial, escrito na Argélia, nas mais lamentáveis, porque duras, condições de vida. Tinha na altura vinte de dois anos. O texto é um hino à dignidade, o apelo à pobreza sem ressentimentos; filho de pais analfabetos, em breve órfão, foi a vida de privações que o ensinou a dor de não saber possuir, a graça de fruir em plenitude o que não se goza quando começa o excesso de bens.
«Não há amor de viver sem desespero de viver», escreveu nestes ensaios que parecem uma reportagem sobre o que esquecemos da vida, as noites silenciosas, os labirintos do ser, as existências densas mesmo quando silenciosas.
O primeiro chama-se A Ironia. Estão nele três destinos diferentes e no entanto semelhantes, sentidos dolorosamente, sob o sol, naquela pátria tranquila. Num deles, vivendo «um medo ácido e doloroso», a velha mulher «acreditava que o amor é uma coisa que se exige».
Albert Camus sabia que o ofício de escritor era trabalho de vaidade. Nos salões de Tout-Paris faziam-se desfaziam-se carreiras, géneros, génios. Ao discursar ante a Academia sueca diria: «L'art n'est pas à mes yeux une réjouissance solitaire. Is est un moyen d' émouvoir le plus grand nombre d'hommes en leur offrant une image priviligiée des souffrances et de joies communes».
Conseguiu-o para muitos da minha geração. A sua escrita não erode com o tempo. Senti-o agora, também para mim quarenta anos depois.

Cisne, de Luis González-Mata Lledó

Por causa de um livro que traduzo estou a ler muitos outros. Já tinha lido este em diagonal. Agora faço-o com pormenor. É a sua autobiografia. «Cisne» é o nome de código quando trabalhou como agente secreto para o SIM espanhol. Daí que o livro ostente como sub-título «Un espia de Franco».
Esta histórias sobre espiões correm o risco de serem ridículas. No caso são esclarecedoras. Luis fez da sua amoralidade carreira, da sua ambição, sucesso. Esteve na Legião Espanhola, de Millán Astray, heróica e controversa figura, mutilado de guerra, a quem credita a frase gritada no desfile da Vitória: «Franco, hijo de puta! Contempla a nuestros hijos y admiralos! Franco sonrió». Por supuesto, claro. O mesmo Astray que no confronto com Unamuno lançaria o «Muera la inteligencia! Viva la muerte!». Foi em 12 de Outubro de 1936.
Nos anos sessenta González-Mata infiltrar-se-ia no DRIL de "Sotomayor", Velo Mosquera, Henrique Galvão e Humberto Delgado, movimento que estaria na génese do assalto ao paquete Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação. Investigaria a morte deste, elaborando um relatório que embaraçaria os portugueses depois das polémicas declarações de Franco Nogueira sobre a autoria do caso, vista a localização do cadáver em Malos Pasos.
Neste momento vou na página 54. Rafael Leónidas Trujillo, o ditador que governou Santo Domingo entre 1939 e 1961 pergunta-lhe qual a razão pela qual aceitou ter como destino o seu país. «Cisne» responde sem hesitar: «Confío encontrar em Santo Domingo las satisfaciones y la vida que mi país ne ha negado hasta la fecha». Sinceridade lucrativa. De todos os que Espanha enviara como ajuda para a organização dos serviços militares e de segurança da República Dominicana ele foi o que singrou. Tempos depois organizavam juntar a invasão de Cuba, com o apoio dos serviços secretos alemães, da CIA e vinte e dois milhões de dólares do Presidente deposto Fulgencio Baptista. Vou precisamente aí. São 392 páginas, mais índices. Ainda há muito para ler.

Le Chat, de Georges Simenon


Li ontem Le Chat de Georges Simenon. Numa edição portuguesa, que era a que havia aqui em casa, oferecida, de 1967, traduzida por António Barahona da Fonseca, com capa de António Cândido.
É uma história dolorosa de um casal que fez do silêncio a melhor expressão para o seu mútuo ressentimento, para o ódio rancoroso, para a indiferença, filhos da impossibilidade. «Ambos se sentiam vítimas e se consideravam mutuamente como monstros». Andando pelos sessenta anos «ainda não sabiam a que velocidade iam envelhecer». Só que foi tudo muito rápido, mataram-se fazendo da vida tristeza. Compartilhavam, forçados, o mesmo espaço, o mesmo quarto, a mesma cozinha, lugares onde separavam os corpos, fugiam do encontro dos olhares, evitavam a proximidade das almas, de tal modo «se ignoravam com tanta perfeição». Comunicavam por bilhetinhos.
Um dia ela, por malvadez, ter-lhe-á envenenado o gato, ele, vingativo, matou-lhe o papagaio. «Um vulgar gato de telhado - afirmava ela no tempo em que ainda se falavam para iniciar uma discussão».
Vida esvaziada, ambos tinham tido anteriores casamentos, o dele feliz, com Angèle, feito de risos de uma «alegria ruidosa», de beijos e passeios, mas Marguerite agora «insensibilizara-se logo ao primeiro contacto físico e as duas camas eram o símbolo da sua união fracassada».
Um dia ele saiu de casa. Havia Nelly, de peito roliço, que se dava, rápida, aos homens que queria, na cozinha da pequena tasca, de nádegas alçadas, virada para não lhes ver a cara. Uma vez ele também ali foi, usá-la, e daí em diante tantas vezes, quantas quis, ela a notar que «não és dos que ficam tristes depois de fazer amor».
Deixei por ler quatro folhas de Le Chat. Acabei-as agora mesmo. A narrativa termina com o perceptível: Émile Bouin regressa a casa, incapaz de suportar a dor da mulher deixada.
É impossível não recordar a vida familiar do próprio Simenon, desgraçada, dorida, a usar da vida «o estritamente necessário». «J' ai été marié deux fois. Je vis avec une troisième femme. Mas il ne me viendrait pas à l'esprit de les mélanger dans mes souvenirs». Assim quase termina a Letre a ma mère que ele escreveria, com setenta anos. Émile, porém, «acabava por se zangar, por metê-las todas no mesmo saco, por considerá-las inimigas», Angèle, Marguerite, Nelly. Esta «conhecia os homens, Se se entendia com eles era porque não lhes pedia mais do que podiam dar». Mesmo assim. Uma tristeza. A história de como se assassina o amor. Livros de excepção.

08/08/09

Obra Poética, de Jorge Luís Borges

Encontrei hoje, numa livraria aqui perto, o volume primeiro da Obra Poética do Jorge Luís Borges, que a Alianza Editorial vem editando. Como tudo o que ele escreve é pequeno em extensão e, por isso, enormemente magnífico em profundidade em sentido e significado. Fica aqui o texto por não poder ficar a impressão da dedicatória com que guarneceu o livro Fervor de Buenos Aires, editado em 1923: «Si las páginas de este libro consienten algún verso feliz, perdóneme el lector la descortesía de haberlo usurpado yo, previamente. Nuestras nadas poco diferen; es trivial y fortuita la circunstancia de que seas tú lector de estos ejercícios, y yo su redactor»

O início de uma vida

Quando cheguei a Lisboa estava a chover, na rua e na minha alma. Para trás ficara muito de uma vida, das várias que seria possível ter vivido. Inicio agora. Aquartelei-me nesta casa. O propósito ser editor. Aqui perto morou o Mircea Eliade. Este blog guarda reflexões pessoais, enquanto leitor.
 
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