Não se brinca com facas


A capa vai ser construída a partir deste quadro, do meu Hugo Bernardo. É estudante de Arte. Vinte anos de esperanças. Mora aqui. O texto é uma narrativa sentimental. Chama-se Não se Brinca com Facas. Abre assim: «Explodira-lhe o sol na cabeça e pela noite choveram estrelas na alma, escorrendo alegria. Acordara nua, o corpo em riso. Nesse dia já não poderia enganar-se. Era amor, por uma forma irrecusável, nunca antes sentida. Se morresse agora, ia-se no acto de nascer, esvaída».
Oxalá o livro tenha sorte. Não gostava que o confundissem comigo. Vai para a gráfica dentro de dias. Começo a organizar-me para o dia do lançamento. Nesse dia lá estarei. Faz parte das normas que o autor apareça, mesmo que encabulado.

O fetiche da mudança



Cansa ler sobre factos, sobre pessoas, é raro encontrar escritos sobre ideias. Por isso quando me assinalaram este sobre a fetichização da mudança não resisti. Vivemos um tempo em que a ideia do novo está na ordem do dia. Quer for pela intemporalidade, pelas instituições, pela memória colectiva, quer se guiar pelos arcanos, pela Tradição, está condenado às galés. Ser-se «progressista» passou a ser sinónimo e inteligência e bom coração. Claro que às vezes vai-se para pior. O perigo do novo sem sustentáculo no antigo e aceite é esse: cai por si.
A propósito da fotografia: Jacques Tati! Eis a capacidade genial de rir no mito do progresso.

Amadeo, de Mário Cláudio


Ainda não li o último livro do Mário Cláudio, bem sabendo que não é o derradeiro. Mas lembrei-me há pouco de ter lido e estudado ao pormenor a fantasia que ele escreveu sobre o Amadeo de Souza Cardoso. Na altura eu andava embevecido pela Sonia Delaunay e fui mesmo a Vila do Conde fotografar-lhe a casa, a Vila Simultânea, que o Francisco Teixeira da Mota me disse pertencer à família e em cujo quintal - memória inesquecível - havia coelhos.
O livro é curto e é curioso, apesar de na altura me irritar porque eu queria uma biografia de factos e o autor por vezes escapulia-se para uma biografia de sonhos. Mas a vida é também isso mesmo.
Tenho o livro comigo e curiosamente abriu-se, a lombada já forçada, na página 83 onde eu sublinhei - e o pobre está todo sublinhado - aquele excerto, que publiquei na num qualquer blog, em que o Amadeo pergunta em carta: «A Maman sabe o que é a burguezia?». E responde por ela: «Sabe, sim. É a geral sociedade, essa que vive animalmente, isto é, aquella em que os sentimentos animaes é tudo e os espirituaes nada. É uma sociedade de alma animal. Ha tambem bons burguezes, porque a alma animal tambem pode ser altamente virtuosa, mas nunca superior. Ora o tio Chico é uma alma superior. Voila tout».

Jorge Ferreira



Apresentei-lhe um livro, em Faro. Era visita regular dos meus blogs quando eu tinha muitos blogs. Vimo-nos pela última vez quando daquele seu livro sobre os voos clandestinos da CIA. Chegou com os filhos. Impressionou-me. Estavam de mão dada, como se quisessem ter-se cada instante de todo o tempo. Já não havia todo o tempo. Os estigmas da doença estavam todos ali, a assinalarem a posse da morte sobre a sua pessoa. Sorria, porém, um imenso sorriso e a capacidade de saber rir. Morreu e tinha quarenta e oito anos. Morre tanto do que poderia ter vivido que a alegria só pode der uma revolta contra Deus.

Rua de Anchieta



São sujeitos à mesma lei da Natureza que o camponês segue e respeita e pela qual se orienta, os livros. Há dias em que se sai de casa, olha-se para o céu, vê-se que está a chover e uma pessoa diz: hoje não há livros. Aconteceu hoje e não fui à Rua de Anchieta, a feira de livros usados, lugar de alfarrabistas, martirizados pelo sol e pelo frio e que só a chuva pode afugentar, porque é tudo a céu aberto.
Agora que escrevo pergunto-me se a verdade da vida terá correspondido à verdade do que presumi ou se os estóicos vendedores terão sabido resistir, entre plásticos e guarda-chuvas que também também se chamam sombrinhas. Mas já é tarde, porque o sábado útil acabou com a chegada da noite. E pergunto-me se o nome da Rua é de Anchieta ou da Anchieta, mas embora não seja tarde, sempre há uma legítima preguiça em ir procurar a verdade toponímica, porque com a chegada da noite de sábado inaugura-se o direito a ao menos hoje não, princípio sagrado de liberdade ociosa que é excepção ao mundo afadigado dos deveres e das obrigações. Quanto à foto fui buscá-la a um excelente blog que se chama O Funcionário Cansado e olha que nome mais a propósito! O seu autor gosta de livros, diria que ama livros se não houvesse que poupar por pudor do banal a palavra amor.

P. S. Quem for ao link que cito encontra um texto do Jorge Silva Melo, editado pelo jornal Público. Encontrei-o lá por vezes, na Rua de ou da Anchieta; é a mesma, ao lado da Bertrand, aquela livraria que tem um cheiro adocicado e alguns livros que parecem muitos mas não tantos assim.

Eu Vim para Ver a Terra, de Maria Ondina Braga


É Maria Ondina, fazendo em Angola o caminho de Luanda à então chamada Vila Salazar.. [Maria Ondina Braga]

Irene Lisboa como João Falco


Será a caligrafia de Irene Lisboa... [Irene Lisboa], uma mulher que teve de se travestir literariamente como homem para que a lessem.

O editor impenitente


Anos a fio Fernando Pessoa pensou na criação de uma editora, que foi idealmente a Íbis e depois disso a Olissipo. Concebia tais delirantes projectos como uma via de «rectificação pessoal». Sistematizava o sentimento criador, embalsamando a que se adivinhava um nado-morto. Entretanto escrevia muitíssimo mas publicava quase nada dessa escrita, vadiando a sua genial hesitação.
A editora, concebida grandiloquentemente, seria, no mundo das coisas práticas, sempre ele só, multímodo e omnipresente, desdobrando-se-lhe as personalidades.
Falhou tudo excepto as poucas e geniais edições: A Invenção do Dia Claro, de José de Almada Negreiros e as Canções de António Botto.
Depois fica para a História o que António Mega Ferreira compilou para um livro que a Assírio & Alvim publicou em 2005, sob o tíítulo Fazer pela Vida: um retrato de Fernando Pessoa o empreendedor, no fundo o relato de um mundo que poderia ter sido.

O velho álbum


Rara e magnífica pessoa [Maria Ondina Braga]

El amigo de los maridos, de Rafael Sender



Às vezes viaja-se e não há tempo para ler: quando se vai a guiar, ou quando de vai de boleia e não é correcto uma pessoa isolar-se, fechado dentro de um livro. É por isso que o comboio é bom, o autocarro um pouco menos, o avião nem tanto.
Ontem tinha pensado escrever e não escrevi e aqui estou, terça a datar de segunda, a redimir o erro.
Deram-mo num hotel em Espanha, penso que em Barcelona. Há hotéis que põem livros nos quartos, como em alguns há quem deixe a Bíblia na mesa de cabeceira. É um livro de contos, pequeno, bem escrito e divertido. A personagem é um médico psiquiátrico a falar das suas experiências humanas e dos seus doentes e onde é que eu já vi isto?
Não importa muito. Interessa sim que, logo a abrir, ante um inquisitivo paciente que lê a Odisseia como uma lírica «de guerreros y navegantes si quiere, pero lírica ya. Una historia de celos, de propriedad privada...de ansias sedentarias de formar hogar, de convertir al nombre proprio en apellido. En definitiva, de familia», o médico refugia-se por detrás de um «silêncio metodológico».
Ora aqui está um instrumento útil não direi de acção, sim de inacção: um silêncio metodológico, que permita, enfim, interferir na identidade alheia.
O autor chama-se Rafael Sender. O conto chama-se El Amigo de dos Maridos. Um história de família, antídoto para ânsias sedentárias.

Dia de rally paper



Talvez se devessem chamar rally paper aquelas gincanas que os livros fazem no circuito de leituras de quem os lê. Ora avança um, ora fica para trás, uns há que se despistam na curva apertada de um passo mais inseguro, poucos são os que cortam a meta da última página, uma minoria vai ao podium. Às vezes são mais as 24 de Le Mans ou, com tantos altos e baixos, a Rampa da Pena. 
Aconteceu que tentei recuperar o atraso que está a sofrer o livro do Luís Sepúlveda, Un Viejo que Leía Novelas de Amor, ultrapassado que foi numa das voltas à pista pelo bólide da Rosa Montero.
Não que eu seja um Fangio das leituras - e quem se recorda do velho ás, «O Manco» - o argentino que foi «o único piloto da história da Formula 1 que foi campeão com 4 escuderias diferentes: Alfa Romeo, Maserati, Ferrari e Mercedes-Benz»?
Mas tento dar as minhas voltinhas, literariamente que seja.
Assim, esta manhã recuperei a posição, largando-me a rir. Antonio José Bolívar descobriu que sabia ler, esse antídoto contra o veneno da velhice. Mas não tinha que ler. Foi então que tentou uns jornalecos que davam conta da vida quotidina do seu país equatorial: «La reproducíon de párrafos de discursos pronunciados en el Congreso, en los que el honorable Bucaram aseguraba que a otro honorable se le aguaban los espermas, o un artículo detallando cómo Artemio Nateluna mató de veinte puñaladas, pero sin rencor, a su mejor amigo, o la crónica denunciando a la hinchada del Manta por haber capado a un árbitro de fútbol en el estadio, no le parecían alicientes tan grandes como para ejercitar la lectura». Ah! Ah! Ah! Ah!...

Aquela forma enigmática de sentir


Tenho um blog dedicado a Clarice Lispector. Hoje ela está imensamente na moda. Dei conta da sua existência pela Conta Corrente do Vergílio Ferreira. Depois comecei a lê-la, perdido naquela forma enigmática de sentir gerando sentimentos. Hoje, ao chegarem-me notícias, dela, voltei .

Maria Ondina Braga


«Aterrei em Pequim no Ano do Cão de 1982 (...)». Escrevi sobre Maria Ondina Braga, aqui. É um mundo escondido, como o de uma infância que se revisita em que o próprio mal se sublima pela beleza.

La Loca de la Casa, de Rosa Montero


Comecei esta manhã, fascinado. Não gostaria de parar de a ler. Sei que tenho de voltar a outros livros que deixei inacabados, alguns por ser deles o leitor. La Loca de la Casa aprisionou-me. Não é uma reflexão, é um discurso amoroso sobre a paixão literária, a coincidência entre o enamoramento e a escrita. «Ser novelista es conviver felizmente con la loca de arriba. Es no tener miedo de visitar todos los mundos posibles y algunos imposibles». «La novela es la autorización de la esquizofrenia». Rosa Montero escreveu vinte e seis livros. Comecei hoje com este, o dia suspenso.

Tu não és o que tens



Este espaço está destinado ao reflexo das coisas que leio. A verdade, porém, é que também leio as coisas que escrevo. O jornal Correio da Manhã pediu-me uma história para crianças, que editaria na revista de domingo. A história saiu numa página pensada para mulheres. Talvez porque numa vergonhosa medida ainda são as mulheres quem se ocupa das crianças. A jornalista que me recebeu a prosa disse que era uma história para crianças que os pais deviam ler. Escrevi-a a pensar nisso. Arquivo-a aqui com a ilustração que para ela fez Ricardo Cabral.

«Era uma vez um menino que tinha um pai e uma mãe, um menino que estava na escola. E o menino estava na escola e aprendia verbos, porque quando se está na escola tem de se aprender os verbos e os verbos têm de ser aprendidos. Porque os verbos são o que faz com que as coisas andem, são as pernas das palavras. E se não se aprendem as palavras não andam.
E naquele dia era o verbo ter. Começava assim “eu tenho” e depois “eu tinha” e no fim “eu tive”. E o menino ficou a saber o que eram as coisas que estão e as coisas que já se foram embora. E era uma lição muito fácil e o menino lembrava-se que os avós já cá não estavam, e por isso já não tinha avós e só tinha meio pai porque o pai vivia com outra meia mãe.
E o menino aprendia, aprendia muito e aprendia sempre, mais verbos, mais maneiras de ser do mesmo verbo, porque os verbos têm muitas maneiras de ser, como as pessoas, algumas maneiras tristes como “eu teria” e maneiras de muita alegria como “eu terei”. E o menino lembrava-se do Natal, que cada ano havia, e de todas aquelas coisas que não tivera por ter ficado de castigo.
Um dia o menino tinha de aprender eu “tinha tido”. Foi um dia muito triste. Nesse dia chovia muito e ele sentiu que um dia seria homem. Começou tudo nesse dia. Com muita pena».

4 & 1 Quarto, de Rita Ferro



Resuma-se numa só frase o último livro de Rita Ferro. Resumo-o: só o sexo pode ser repartido, o amor é indivisível. No booktrailer que divulga a obra diz-se que os quatro corpos que dão história ao romance «gozam até ao fim». Só não é totalmente assim pois há a dor. E há instantes na narrativa onde um gotejar dorido vai esvaindo aquelas personagens, rasgadas na sua intimidade pela luxúria e pelo desejo de posse. O universo é por vezes concentracionário, a vida e a morte contracenam, o amor e o ódio abraçam-se, num swing fatal que prenuncia tragédia. É tudo, porém, demasiado humano. O riso surge, então, desconcertante. É um estudo sobre a alma sem outra filosofia que a das sensações.
É difícil escrever neste contexto, sobre a vereda estreita do erótico e o tema prestava-se, tratando do promíscuo relacionamento e do sexo em comum, mas o livro deixa os voyeurs desapontados, evitando o óbvio, por haver sempre um modo subtil de a realidade ser contada e a imaginação poética poder recriar aquilo que as palavras não têm prosaicamente de dizer com quatro letras.
Diferentemente dos que fizeram carreira literária ao som de palavrões e brejeirices, vinte anos de escrita em Rita Ferro souberam mantê-la em Literatura, mesmo quando crítica, ainda que irónica, dentro dos limites da boa educação.
Lê-se incessantemente este 4 & 1 Quarto, título bem conseguido que a fulgurante capa melhor ilustra. Não há neste modo de screver desagregações do verbo, nem volteios barrocos de forma, a acção surge fluente, o leitor progride, ansioso de antecipação, a escrita não pesa, leve, pesa sim o que é descrito.
Ao comemorar vinte livros, surge-nos a novidade de uma outra autora. Parabéns e longa vida, Rita Ferro!

Porque se escreve com gralhas...



O nosso cérebro é doido !!!
De aorcdo com uma peqsiusa
de uma uinrvesriddae ignlsea,
não ipomtra em qaul odrem as
Lteras de uma plravaa etãso,
a úncia csioa iprotmatne é que
a piremria e útmlia Lteras etejasm
no lgaur crteo. O rseto pdoe ser
uma bçguana ttaol, que vcoê
anida pdoe ler sem pobrlmea.
Itso é poqrue nós não lmeos
cdaa Ltera isladoa, mas a plravaa
cmoo um tdoo.
Fixe seus olhos no texto abaixo e deixe que a sua mente leia corretamente o que está escrito.

35T3 P3QU3N0 T3XTO 53RV3 4P3N45 P4R4
M05TR4R COMO NO554 C4B3Ç4 CONS3GU3 F4Z3R
CO1545 1MPR3551ON4ANT35! R3P4R3 N155O!
NO COM3ÇO 35T4V4 M310 COMPL1C4DO, M45
N3ST4 L1NH4 SU4 M3NT3 V41 D3C1FR4NDO O
CÓD1GO QU453 4UTOM4T1C4M3NT3, S3M
B3M ORGULHO5O D155O! SU4 C4P4C1D4D3 M3R3C3!
P4R4BÉN5!

Un Viejo que Leía, de Luis Sepulveda



O doutor Rubicundo Loachamín, dentista, verdadeiro tira-dentes no sinistro local de El Idilio, arranjava novelas de amor para Antonio José Bolívar Proaño, casado com Dolores Encarnación del Santísimo Sacramento Estupiñán Otavalo, o velho que sabia ler mas não escrever. «Leía con ayuda de una lupa, la segunda de sus pertenencias queridas. La primera era la dentadura postiza».
Claro que arranjar novelas de amor naquelas paragens equatrorianas não era fácil. «Pensaba en que haría el ridículo entrando a una librería de Guayaquil para pedir: "Déme una novela bien triste, con mucho sufrimiento a causa del amor, y con final feliz". Lo tomarián por un viejo marica, y la solución la encontró de manera inesperada en un burdel del malecón».
É um passo fantástico da notável novela do chileno e Luís Sepúlveda, Un Viejo que Leía Novelas de Amor. Mais de cinco milhões de exemplares vendidos, se isso é critério. Um pequeno grande livro.

Que é que Eu Tenho, de Couto Viana



O livro é pequeno e a capa atraente. É encadernado. A editora chama-se Opera Omnia e tem sede em Guimarães. Tem blog aqui. O autor nasceu em Viana do Castelo em 1923. São pequenas histórias, proeza num País que lê a metro cúbico de papel, onde os editores dizem aos autores de contos «e porque não tenta um romance, pois contos ninguém lê!».
É António Manuel Couto Viana e o seu livro Que é que Eu Tenho Maria Arnalda?. A história que dá nome ao volume não é grande espingarda e é politicamente incorrecta, mas creio que o autor não se importa, porque tem qualidade literária que chegue.
A personagem é a Cló, a Clotilde Patacho, filha de um garagista, «senhora de um pujante buço na cara cavalar, onde pesavam uns óculos pesados de dioptrias», mulher de «corpo desarrumado».,
Malgré, a dita, durante as onze páginas e meia da narrativa seduz e é violada pelo contabilista Sílvio, assediada pelo recepcionista do «Hotel Familière», importunada pelo revisor do Wagon Lit no Sud Express e entre o primeiro e o segundo molestada por «um pretalhão enorme» (sic, «pretalhão enorme») vindo da rua e tentando saltar para cima da inocente que ignorava estar num hotel «de curta duração». No meio destas pícaras aventuras, ao partilhar quarto com a amiga Arnalda, mana do que conta a epopeia, não se livram ambas de olhares oblíquos e carregados de pensamentos picantemente equívocos sobre a natureza das suas aliás tão diversas morfologias e respectivas potencialidades libidinosas.
Ah! Tudo termina de forma inesperada. Mau grado a aparência, e porque bizarramente atraente, e para além disso fecunda, ao virar-se para a última folha, a Cló está grávida. De quem? Do narrador, pois claro. Diz ela e nós acreditamos.

A ver estrelas...com Maria João Medeiros


Às vezes uma pessoa engana-se e eu enganei-me. Julgava que era um ensaio e era afinal uma espécie de livro de reportagens, embora com apêndice bibliográfico e menções a documentos dos Arquivos Nacionais. Trata dos que adivinham o futuro. Podiam ser todos, mas são só alguns. Está lá um meu conhecido, que não pessoalmente, mas por lhe ter lido um livro e ter fixado que a Torre de Belém tem como espessura das paredes 365 milímetros e estão nela, como memória em pedra, outras circunstâncias simbólicas, em que o acaso não basta como explicação suficiente, como é comum na arquitectura sacrada: é o Paulo Cardoso, apodado com não pouca pompa, de «embaixador informal da cultura lusa». Mas estão outros, como o «professor» Horus e a Delfina Lapa, o primeiro a gabar-se a Fernando Dacosta que o dia 25 de Abril calhou nesse dia por ter sido consultado sobre o dia fausto por «dois estrategas da Revolução», o «Raphael Baldaya», cognome aliás do Fernando Pessoa, o único que me merece respeito profundo, a Maria Emília Vieira, elevada à categoria de «a mais preponderante consultora esotérica durante o Estado Novo», que escrevia cartas com as suas previsões astrológicas a Salazar sem ser certo que ele as lesse e, mais antiga, a Virgínia Rosa Teixeira, a «Madame Brouillard», com gabinete cativo na Ra do Carmo, 43, sobre-loja., estudante das «ciências fisiognómicas» e, rezava anúncio «da sua aplicação prática pelas teorias de Gall, Lavater, Desbarrolles, Lambroze e d' Arpenligney».
Mas permitam-me que os olhos me tenham caído na Eunice Cristina Maia Morais de Carvalho, «Maya» de seu nome profissional. Quartanista de Direito optaria pelos Astros e pela cartomância. Um dia aligeirou a indumentária para uma revista dita «para homens». Ei-la, Taróloga. É a demonstração em carne e osso - pouco osso - de que o Oculto pode ser desocultado.
P. S. O livro que refiro foi escrito por Maria João Medeiros, signo Leão. Em 2008 foi co-autora do Dossier Regicídio : o processo desaparecido. Esse sim um mistério que resiste às leis do pêndulo.

Aconteceu no Oeste, no Far West



É isto o mercado editorial: «La editorial no acepta el envío de poemarios, obras teatrales, y antologías de aforismos no solicitados, por lo que declina mantener correspondencia sobre el particular». Acho que fica tudo dito quanto ao «no Indians allowed» do Far-West literário. Vem isto no site da Tusquets, uma editora de Barcelona, secção «envio de manuscritos».
Ela entretanto lia, indiferente a quem editara. Ficou-me a imagem do prazer da leitura: «é preciso estender as pernas no macio de um sofá, perseguir com os dedos nos lábios os silêncios profundos e confiar o passaporte à mente, até àquele lugar inóspito do oeste (...)».

Bater-se pela cultura!



Não resisto a contar-vos aquela história exemplar que o Mário Dionísio deixa na sua autobiografia que ontem li. Corria o ano de 1943. Como forma de divulgação da cultura mas, claro, também de agitação política, um grupo de «amigos», entre os quais Sidónio Muralha, Fancine Benoît, Alexandre Cabral e o próprio Dionísio organizam militantemente na que hoje se chama a Casa do Alentejo, então denominada Grémio Alentejano, uma série de conferências. A primeira delas, proferida pelo matemático e figura de referência da oposição ao regime, Bento de Jesus Caraça, correria sem problemas de maior. Casa cheia, os eventos prometiam sucesso para os fins políticos em vista.
Já quando da segunda, tudo evidenciava que ia haver sarilho, na sala apinhada a mostrarem-se aqui e além os infiltrados provocadores, ali colocados para gerarem o boicote.
No momento em que o conferencista, o maestro Fernando Lopes Graça, a meio da sua prelecção, colocava um disco para ilustrar uma qualquer particularidade da música medieval, salta da boca de um deles em surdina um dichote achincalhante e apto à confusão que, num ápice, se generalizaria: «vira o disco e toca o mesmo!».
O efeito foi um rastilho. Apanhada de surpresa a sala reagiu, em exaltado tumulto. Segundos depois a pancadaria generalizava-se. «Cães à solta», lhes chama Dionísio, os «mercenários», agora em plena acção, «excitavam-se a si próprios». Aqui um berro vindo do seu magote «Quem é que disse morra a Pátria?» e de além, do mesmo grupo a resposta orquestrada: «Viva a Pátria! Viva Salazar!» e logo a pronta retaliação verbal e física porque bater, por vezes, em caso de aperto, chega a ser uma excelente resposta.
Sucede que o Alexandre Cabral, que trabalharia na Carris, havia trazido um grupo de operários, daquela empresa, enrijecidos pelo trabalho braçal e, como se adivinha, no meio daquela refrega, ei-los em acção, com grossa artilharia dos seus afoitos punhos, a abrir clareiras entre a mole dos atrevidos esbirros.
No meio, e eis o momento do riso, Bento de Jesus Caraça, a sua figura imponente, contemplando a batalha campal que se instalara, maravilhava-se como é que ainda havia gente disposta a «bater-se pela cultura».
Bater-se no sentido próprio do termo, claro, à porrada, forma directa de as ideias entrarem dentro das cabeças, rachando-as!

Käthe Kolwitz e Álvaro Cunhal



Teria de ir buscar, não o tenho aqui e ele ainda é volumoso, o exemplar evocativo da revista Vértice. Saíu em Coimbra o primeiro número em 1942, no simbólico mês de Maio. Foi uma frente de combate pelo «neo-realismo», uma palavra de ordem cunhada por Joaquim Namorado para esconder da Censura uma outra, historicamente perigosa, porque militante: «realismo socialista». E teria de o ir buscar porque foi lá que descobri a já antes ouvida mas nunca até então lida polémica sobre a forma e o conteúdo, que era o modo indirecto de então se discutir o binómio arte/ideologia, no ambiente activista da «missão social do artista».
E foi lá precisamente que me apercebi que um dos intervenientes na contenda, assinando sob o nome de António Vale, era afinal, Álvaro Cunhal, filho do advogado e escritor Avelino Cunhal.
Encontrei-os todos esta tarde ao ler a Autobiografia do Mário Dionísio, que trouxe comigo depois de visitar a Casa da Achada, à Mouraria.
Escritor, Dionísio aventura-se pela iniciação à pintura. Companheiro de arte, aquele que seria o mais lendário Secretário-Geral do Partido Comunista Português, «o partido que não é preciso dizer-se qual é», no qual o autor de A Paleta e o Mundo, militaria até 1952; outro, Huertas Lobo e a juntar-se ao grupo, António Augusto de Oliveira, o AAO, ambos esquecidos. Presente o próprio Avelino, ele também pintor.
Eram tardes de domingo, em que no improvisado atelier se fabricavam tintas, misturando com os meios os pigmentos, atestando bisnagões de estanho. Tempo de penúria em que fabricavam as próprias telas em que se «escrevivia» e pintava. Tempo de uma paixão comum: Álvaro Cunhal apresenta a Mário Dionísio a obra de Käthe Kolwitz. É dela a imagem deste post. Tempo em que «não sabia onde começava e onde acabava o amor, a luta pela liberdade e pela transformação do mundo, a criação poética».

Cuntas, de António Bárbolo Alves



Talvez a língua portuguesa, fechada em si, muito consoante e átona, tenha perdido a capacidade de ser carinhosa, como o galego e o mirandês, em que até as ideias parecem sentimentos.
Estou a ler as Cuntas de la Tierra de las Faias, em mirandês e uma vez mais maravilhado com aquele modo de exprimir e mesmo fascinado pela forma que ganham as letras impressas, tão familiares e simultaneamente diferentes, a ler num murmúrio para que a fonética ensine o sentido, tirado pelo modo como soa.
Escreveu António Bárbolo Alves. Nasceu em Picuote. O livro já tem nove anos. A editora já se foi. «L die era tan claro que la tirera relhuzie até l anfenito» e Gabilan, sabia que «un home solo ten miedo se pensar que l miedo quier algo cun el».
Gabilan voará, esperando a sua hora, ansioso porque «çquecia-se até de l que la mai le dezie muitas bezes: " - Miu filho, bun se nace páixaro, daprende-se a sê-lo!"». Do alto dos céus, «a bolar bien alto para nunca ser bisto», Gabilan descobria, enfim, que «l anfenito iba ganhando forma».

Autobiografia, de Mário Dionísio



«Contar a minha vida. Sempre que me falam nisso, imagino-me sentado num banco de cozinha, com um grosso camisolão, ombros caídos, a olhar por uma janela alta e estreita o que ela deixa ver da floresta. Alguém deixou um machado na peque na clareira em frente da janela. Andarão a rachar lenha. Grandes aves esvoaçam lá por fora, não muito alto decerto. E, além disto, silêncio. O pro fundo silêncio do que não volta mais. Mas que floresta? Nunca vivi em nenhuma flo resta. Nem sequer perto de. Talvez uma lógica in terna — penso então — comande os próprios des mandos do nosso pensamento. E esse indivíduo mais ou menos ruço, no meio da cozinha lajeada, olhando o que não existe, queira dizer apenas que tudo foi bastante diferente do que eu teria deseja do. Ou será a suspeita (uma quase certeza) de que contar a nossa vida é impossível. Por isso, à ideia de lembrar o que vivi e como, correrei a meter-me na pele de um qualquer em que mal me reconhe ço. É o que se chama atropelamento e fuga». É Mário Dionísio na primeira pessoa, editado pelo saudoso O Jornal. Lê-se na Casa da Achada, um lugar em sua memória, repleto de iniciativas e de entusiasmo.

O corta-sabores



Não se lê todos os dias mas pensa-se todos os dias. Um blog que se diz ser de um leitor talvez suporte ser um blog sobre o que pensa esse leitor não só sobre o que lê, mas também sobre o que não lê.
Está agora na moda editar livros que pretendem ser tudo aquilo que você tem de ler antes de morrer, listagens de «imperdíveis», «incontornáveis» e «abolutamente necessários».
Claro que é por causa disto que quem não aprende a fingir que leu o Ulisses do Joyce faz fraca figura num salon assim como quem, numa reunião gauche confessasse nunca ter lido o Das Kapital.
Depois há o mimetismo dos que de repente surgem familiares com autores de que uns dias antes nunca tinham ouvido falar, surpreendendo-nos com a inesperada adesão ao género e à espécie de que os julgávamos alheados e indiferentes. É o macacodeimitaçãozismo como aqueles que, num jantar de cerimónia, espreitam por um canto do olho com que talher é que se come aquela esquisita entrada, atentos ao milieu para não parecerem a ele estranhos.
Houve tempos em que o Italo Calvino ainda se dava ao trabalho de nos convencer a porquê ler os clássicos suscitando em cada um de nós a adesão pela simpatia e o convencimento pela compreensão. Hoje o mercado está mais agreste. A intimidação é o seu meio.
Tal como nos regimes autoritários em matéria de educação há um «programa oficial» obrigatório e os compêndios «adoptados», também os ditadores culturais impõem o programa oficial da cultura necessária, a permitida e a proibida.
Claro que há uma maneira de escapar. Quando numa das voltas do serviço de mesa, na hora dos corta-sabores, se alguém perguntar se já leu o Harold Pinter ignore a pergunta e diga que está a ler o Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas Anes de Carvalho. E arranque numa cavalgada heróica de erudição: nasceu em Lisboa no dia 1 de Março de 1724, faleceu em Évora a 26 de Janeiro de 1814 na avançada idade de 90 anos incompletos. Era filho dum serralheiro chamado José Martins, natural de Constantim, termo de Vila Real, e de Antónia Maria, natural de Lisboa. Quando contava 16 anos de idade professou na ordem Terceira de S. Francisco, a 25 de Março de 1740, no convento de Nossa Senhora do Jesus. Cursou os estudos de humanidades, e depois teologia na Universidade de Coimbra, em que se doutorou a 26 do Maio do 1749, tendo já exercido o magistério por três anos no Colégio das Artes, e logo em 1750 foi a Roma assistir ao capitulo geral da sua ordem. Voltando a Portugal, seguiu para Coimbra...
Vai ver que não o importunam mais. Imperdível!

História secreta. de Mario Vargas Lllosa



Na FNAC, penso eu, há algum tempo, deram-me um livro que a D. Quixote editou, traduzido por António José Massano, chamado História Secreta de um Romance. Escreveu-o Mario Vargas Llosa. Foi oferecido para comemorar o Dia Mundial do Livro.
É tão pequeno em dimensão como grande em conteúdo. Trata-se de um conferência que o autor proferiu «em inglês rudimentar» na Washington State University em 1968. Nela, Llosa não conta propriamente como é que, entre 1962 e 1965, escreveu o romance A Casa Verde. Conta, sim,  de que é que os romances são escritos, para que se perceba que o são com a pele do próprio autor.
A imagem que usa é duplamente atractiva, como conceito e como imagem, comparando o escritor à rapariga do strip tease. Com diferenças: o romancista não exibe os seus «encantos secretos», mas sim «os demónios que o atormentam e obcecam» e ao contrário desta, o escritor começa nu e termima completamente vestido, sabendo disfarçar, com a roupagem da escrita, «as experiências pessoais (sonhadas, vividas, lidas) que constituiram o principal estímulo para escrever».
Encontrei-me com ele hoje no Corte Inglês, por duas vezes. Primeiro, num filme do Almodóvar, Abraços Desfeitos, que é, afinal, a história precisamente da mesma ideia, na forma de um escritor cego e seu passado, como Homero o seria. Enquanto fazia tempo, viu-o na forma de um livro seu, que reune notas de leitura: La Verdade de las Mentiras. É uma incitação e uma sedução relativamente à leitura.

Público



Hoje comprei o jornal Público e o jornal Público tinha mudado de director e eu gostei de ler o jornal. A capa que o embrulhava, eu sei, falava de chocolates. Mas mesmo com a boca doce, acho que estou a ser rigoroso. Gostei e isso pode explicar-se, fundamentadamente, sem ser por razões pessoais. Embora o Público tenha mudado de director.

A Rapariga que Brincava com o Fogo, de Stieg Larsson


Disseram-me que eu deveria ler o Stieg Larsson, mas eu ainda não tive tempo para o ler. Mas hoje porque acordei cedo vi no Diário de Notícias que «A família do falecido escritor sueco Stieg Larsson - autor da trilogia Millennium, êxito de vendas em todo o mundo - anunciou ontem ter proposto um acordo à ex-companheira do autor, Eva Gabrielsson, envolvendo uma quantia de cerca de dois milhões de euros para pôr um ponto final no conflito que os opõe. Recorde-se que até ao momento é o pai e o irmão de Larsson que estão a receber os direitos de autor, o que tem sido contestado pela ex-companheira».
E agora, até se desfazer esta sombra funerária e seus abutres hereditários, como irei lê-lo quando, mesmo sem tempo, me apetecer ler?
Talvez os direitos de autor devessem fugir às regras das heranças e suas vergonhas. Em nome do respeito ao criador, a propriedade e suas sequelas envergonhavam-se ao menos por um instante. Há muito quem precise, autores tantos que, antes do Panteão da Glória, em vida comem o pão que o Diabo amassou.

António Alçada Baptista



Acho que o jornal acabou. Publicava-se em Cascais. Era gratuito e eu tinha lá uma crónica sobre o que me apetecesse, que é a melhor expressão que há para a liberdade de imprensa. Chamei-lhe O Jardim dos Passarinhos em homenagem a um lugar próximo. Aqui fica a última que ali se editou. Será que agora estou sem lugar onde escrever, porque nas paredes é proibido?

«O António Alçada Baptista era advogado. Fartou-se, pois isto é profissão que dá para uma pessoa se fartar vivendo diariamente os problemas dos outros e a fazer disso modo de vida. Segundo confessou num dos seus apontamentos de memórias foi um maldito processo de inventário, em que sentiu que um dos contendores queria fazer dele um porrete tentando assim, através do tribunal, agredir um cunhado, que o trouxe para a Literatura. Bom homem, tornou-se militante das letras, fazendo-se editor através da Moraes. Militante católico, inspirado pelo personalismo cristão, um dos que João Bénard da Costa chamou «os vencidos do catolicismo», criou a revista O Tempo e o Modo e a Concilium. Derreteu em tudo isso o dinheiro que havia. Sofreu a preocupação das dívidas. Escritor, acabou por ser adoptado pela Presença. O seu amigo Francisco Espadinha compôs-lhe um livro de homenagem há dois anos. São coisas que se fazem quando se torna evidente que uma pessoa não é imortal. Publicara-lhe o primeiro livro em 1985. Falando do seu delicado ser Leonor Xavier sublinhou dele o «entendimento não contábil com o mundo em que vivemos, a descrença no trabalho como valor absoluto». Invulgar observação, esta, notável espírito. António Alçada Baptista tinha uma escrita amável, mesmo quando angustiada, até quando falava com Deus. Um neto escreveu um dia numa redacção a propósito da família, tomando dele a parte de escritor e do pai o trabalhar numa editora: «A Família. O meu avô é escritor e o meu pai emenda os enros». Tal qual assim, com enros. Lembrei-me disso esta manhã. Não são os que se dizem escritores que afinal o são. São aqueles que têm uma história para contar, mesmo quando na fase da «preguiça ostensiva». Os leitores esperam, pacientes. São pequenos enros da vida estes gloriosos momentos. Sem eles estava tudo completamente errado».

O Som da Frente, de António Sérgio


Conhecia-lhe a voz, cava, rouca, gutural, vinda não das cordas vocais, mas de muito mais fundo, mais íntimo, do interior do coração e foi o coração que lhe falhou. Há pouco chegava a notícia, funcional, prática: «o radialista António Sérgio faleceu na noite de sábado, vítima de um problema cardíaco, aos 59 anos».
Conhecia-lhe os programas o Sinais de Fumo, o Lança-Chamas, O Som da Frente, A Hora do Lobo.
Fui ao Blitz buscar-lhe a fotografia.Ninguém associaria este semblante àquela voz. É esse o mistério da rádio e o encanto da sua fantasia.
Foi ele quem editou o primeiro álbum dos Xutos e Pontapés.
Caramba, que domingo triste!

La Invención de Morel, de Bioy Casares - finis



Livro pequeno mas que esgota muito tempo a ser lido, como quando se caminha pela areia de uma praia, as pernas pesadas a arrastarem-se, os olhos postos no mar, o horizonte móvel parecendo fixo.
A invenção de Morel é uma máquina que anula a ausência, tornando o presente eterno através da «conservação indefinida das almas em funcionamento», ilude a distância e gera o aparente instantâneo.
É uma forma de «dar perpétua realidade a uma fantasia sentimental» numa ilha povoada, afinal, de reproduções vivas, espécie da caverna platónica com a diferença de que as sombras do reflexo ganham forma e corpo como o de Cristo pelo mistério da transubstanciação, mas aqui num mundo desertificado em que os seres não são pessoas mas apenas a possibilidade de serem sonhadas.
No final o herói sobrevive, dá-se por morto para não morrer. Um livro extraordinário.

Nunca confiando em versos


Permito-me citar, deste companheiro de ciber-espaço, um blog que vai gerando o bom hábito de o ler:

«Dizias que gostavas de poemas.
«Escrevi-te, numa tarde, mais de cinco.
«São muito bonitos, disseste,
«hei de mostrá-los ao meu namorado.
«Nunca mais confiei nos versos
«nem no gosto feminil».
 
Os versos são de José Miguel Silva [Vista para um Pátio Seguido de Desordem, Relógio D’Água, 2003], o blog é O Funcionário Cansado. Ao primeiro porque escreveu, ao segundo pois que citou, muito obrigado. É uma forma risonha de ser domingo de manhã.

Um Buraco na Sombra, de Almada Negreiros



O mundo é circular. Cansado de livros, talvez passear. Eu bem sei que melhor que viajar é ler livros de viagens. Disse-o o Somerseth Maugham, sabe-se lá com que convicção. Mas ao menos um passeio à próxima esquina, debaixo de braço este meu guia:
«Terminada em 1969, pouco antes da sua morte, Almada trabalhou incansavelmente nesta obra. No entanto, quase podemos acrescentar que o fez a vida toda. A lição que se poderia adivinhar em O Número está aqui, tal como o artista procurou, “sem opinião” e “sem texto” no frio da pedra. Os diferentes motivos geométricos que durante décadas tomaram o seu pensamento são aqui apresentados. Por exemplo, a relação 9/10 no ponto mais à esquerda da obra ou, logo à sua direita, a figura superflua ex-errore de Leonardo Da Vinci. E até o título, de poeta, tem ressonâncias noutro momento da sua vida quando n’A Cena do Ódio diz “põe-te a nascer outra vez”».
É a Igreja de Fátima. Fica aqui ao lado. Os sinos tocam como nas aldeias. É a minha aldeia e eu nela. Sucedeu que antes de partir cruzei-me «porque hoje é domingo» com esta menção precisamente ao Almada, o autor dos vitrais da Igreja de Fátima. Um poema: «Mãe! Vem ouvir a minha cabeça contar histórias ricas que ainda não viajei!». São os Dias que Voam, o tempo que passa, a lembrança que fica.

Smile, por Charlie Chaplin


«Life is a tragedy when seen in close-up, but a comedy in long-shot». A frase é de Charlie Chaplin. Disse-o e escreveu-o através da música para este tema. Viveu uma desgraçada vida sentimental. Foi descrendo em tudo menos na vida. Sobreviveu-lhe, por isso. Um bom sábado que hoje está sol. Obrigado.

A Lebre, de Álvaro Guerra



Já tinha lido o livro, já tinha escrito sobre o livro, mas lembrava nada. Conheci fugazmente o Álvaro Guerra quando eu escrevinhava pelo jornal República. Não li o Café República. Mas li A Lebre o tal livro de que me esqueci e hoje fui reencontrar na estante. Revi os sublinhados para tentar encontrar o fio condutor da narrativa, se tal faz falta, porque na Literatura podemos prescindir da história contada para melhor se apreciar o modo de a contar.
É um livro de exílio e de memória, de perseguição e despedeçar de corpos, livro de universidade e de remorso colonial: «sim, minha querida, Sou realmente um negro civilizado, não há dúvida, mas acontece que me corre nas veias o sangue dos massacres do meu povo», porque Guerra veio marcado pela guerra em África, trouxe-a para a literatura e «já passou mais do que o tempo necessário para ter morrido na boca dos cães e cada parcela desse tempo transcorrido é uma vitória».
Estreou-se como escritor com Os Mastins. Foi publicado em 1967. Tem um prefácio de Alves Redol, seu conterrâneo. Hei-de lê-lo e a tudo o mais.

A génese


A proporção perfeita é o número de ouro da criação. Depois, tudo de desequilibra até uma próxima estação. A música do Cosmos é apenas o intervalo da sua probabilidade. Sobre o muro o construtor edifica a sua catedral. Nesta representação está contida a reflexão e o acto, a eventualidade e o ser. Há uma biblioteca Hermética por desfolhar. Adivinhe-se o sentido oculto.

Leituras incompletas...


É um dos livros que deixei incompleto, ainda na página 160... [Clarice Lispector...], para ler todo, retomado o fôlego que a paixão esgota.

Mulheres escritoras



Já se foi o tempo em que os blogs floresciam como cogumelos e eu me relacionava com eles como com gavetas, em cada um arrumando partes diferenciadas da minha vida. Depois ficou a jura de que não mais haveria escrita intimista na blogoesfera. Nasceu o blog que tomou como título parte do meu nome, António Rebelo da Silva. Dedicado a livros e a leituras não tendo pretensões, que seriam estultas, a blog de crítica literária nem de tesoura e cola de escritos alheios.
Recuperei hoje três outros blogs que são dedicados e cujas vidas não me pertenciam. Cada um deles é dedicado a uma mulher escritora, cuja escrita me marcou profundamente a sensibilidade: Clarice Lispector, Maria Ondina Braga, Irene Lisboa. Todas morreram já o que não morreu foi o sentimento que me une ao seu modo de ser.

O Príncipe com Orelhas de Burro, de José Régio


Eu acho que voltamos sempre aos mesmos livros e mesmo quando lemos o que julgamos serem outros livros eles são a continuação de um qualquer livro que ficou eternamente por ler num momento passado da nossa vida, um arquétipo de flagrante que queremos eternizar, ou uma ânsia irrealizada que queremos prosseguir, agora através da Literatura.
Sucedeu-me uma dessas variantes esta noite, ao ir à estante procurar as Páginas do Diário Íntimo do «José Régio», para me lembrar o que nele me impressionou, a confissão dolorosa das suas pulsões intestinas, que tinha por sórdidas e como tal escondia dos seus próprios olhos e o apelo da castidade como reduto final da pureza de alma que, afinal, nunca foi capaz de encontrar. E tudo isso com Cristos antiquíssimos e uma vida de antiquário, e A Velha Casa, mesquinhamente selada, num mundo de velharias, roufenho de silêncios e envelhecimento, povoado de rancores irresolutos e de amigos particulares a rabujar com os seus livros. Neurasténico, «vivo demais fora de mim», dizia e sabia em Coimbra, em 1923 - caramba e eram os loucos anos vinte para tantos outros! - que «querer ser feliz é ajuntar probabilidades de desgraça», e queria, muito depois, «desprezar, e até combater, todas as formas do mundanismo literatizante que me persegue», mas a entregar-se, sempre, «plenamente ao vício» apesar de a doença lhe ter atenuado as obsessões do sexo e do prazer.
E provocador, porque foi sempre, apesar de frágil figura e timorata aparência, pois «antes de tudo, ainda considero mais perigosos para a cultura o comunismo e o cabotinismo do que a tirania salazarista - por sua própria natureza efémera». Isto dizia o cidadão José Maria dos Reis Pereira, enquanto escritor José Régio, atrevido. «Participou activamente na vida pública, fazendo parte da comissão concelhia de Vila do Conde do Movimento de Unidade Democrática (MUD), apoiando o general Nórton de Matos na sua candidatura à Presidência da República e, mais tarde, a candidatura do general Humberto Delgado. Integrou ainda a Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD), nas eleições de 1969», reza uma sua biografia. Consequentemente. «Era uma vez um casal no reino da Traslândia (...)». Eis «algumas circunstâncias que precederam o nascimento do Príncipe Leonel, presumível herói desta verídica história».

A história inscrita


Compreendo os que sentem algum pudor em serem chamados «escritores» apenas por escreverem. Hoje tiveram a gentileza de me chamarem «inscritor». Fantástica ideia escondida em tão invulgar palavra! Talvez seja essa a intenção, nem sempre o que se alcança, inscrever na pele dos outros e no coração de alguns a nossa história que é, algumas vezes, a versão escrita dos nossos sentimentos. Com o estilete que se inscreve rasga-se e por isso ler tem de doer.

Sebastião da Gama



Não tenho razão, nem posso ter razão, é imperdoável este modo de pensar, mas é assim que sinto. Não consigo encontrar na poesia do Sebastião da Gama nada que hoje me apeteça referir. Nem no Diário de professor. Fico com a sensação que fui buscar os livros à estante para dizer isso. Mas ainda folheei para evitar dizê-lo.
Talvez amanhã, ou outro dia, com a Arrábida em fundo, seja possível encontrar-se nas quadrinhas populares ou nas estrofes sentimentais e mesmo na adoração poética ao Senhor Deus e ao Menino Jesus algo para referir. Hoje seguramente não. E não há poesia que resista a um mau momento para a ler, mesmo a excelente poesia.
Sebastião Artur Cardoso da Gama. Morreu em 1952 no Hospital de São Luís. Como Almada Negreiros e antes dele Fernando Pessoa. Fui tentar fazê-lo reviver. Hoje, porém, não consigo.

Still Walking, de Hirokazu Kore-eda


«Esta é um típica família disfuncional unida pelo amor, por ressentimentos e segredos», diz aquele horrível anúncio, prático e sociológico, desalmado, mas está aqui o trailer para sugerir que há mais poética no filme do que por vezes resulta da boçal prosa que o anuncia. Realizado por Hirokazu Kore-eda, é um momento magnífico sobre a universalidade dos sentimentos e dos ressentimentos, sobre a mesquinhez da vida e sobre a grandeza de vivê-la.
Um Japão moderno, utilitário, feito de electrodomésticos e de outras tantas impaciências contemporâneas, irrompe aqui continuamente, para ser imperceptivelmente absorvido, diluindo-se o feio na comovente beleza do cenário interior em que tudo se move. No fim, a assinalar-nos o eterno retorno da vida que vai, o mar. Até lá apenas uma borboleta amarela, a simbólica alma que a memória faz renascer. Se ainda vai ao cinema, não perca.

Até ao Fim, de Vergílio Ferreira



Deve haver um qualquer momento em que um autor, cansado de dar corda às histórias dos outros, se intromete na própria narrativa. Não apenas como o Alfred Hitchcock, que autenticava cada um dos seus filmes fazendo-se filmar, como numa piscadela de olhos ao espectador, num canto da cena, discreto mas perceptível, mas a aparecer sim de modo ostensivo, por vezes fulgurante, de dedo no ar, a dizer «pára tudo agora, que aqui estou eu!».
Sucede assim até com o sorumbático Vergílio Ferreira que se esvaíu, paciente, em favor das personagens a que deu vida, escritor sacrificado, ao serviço do seu dom, a letra miudinha, a tábua nos joelhos. Notei isso esta manhã de nevoeiro. É no capítulo XXVIII do Até ao Fim, umas das suas obras finais:
«- Mas os pinheiros tiram-nos o sol da casa - diz a mulher do V. F. - Já cortei alguns, mas tenho de cortar mais. Nem posso ter um canteiro de flores.
« - Mas um pinhal é bonito - disse eu.
- Não são precisos tantos pinheiros - disse ela. -E estes aqui em cima da casa estragam-na e tiram a luz».
- É inútil - disse V. F. - Minha mulher é pinheiricida».
Eis. Não será um momento de grande literatura, com estes «ele» e «ela» a simplificarem o texto, mas é uma  página de indesmentível verdade e essa vale mais, quando surge, assim espontânea, que o melhor instante de estilo que ali estivesse.
Nem sempre é bela e raramente é trabalhada a verdade da existência, mesmo vivida através da escrita.
«Mas V. F. deve ter-se imaginado diante dos alunos e disparou. E disse que sempre disse que escrevia para estar vivo. Mas já outros vieram a dizar o mesmo e portanto já não e verdade».
A casa com os pinheiros era em Fontanelas. Ainda lá está. Fui visitar a sua verdade há uns anos, num mau momento. Reecontrei-a hoje na forma de literatura e parece ficção.

Que Cavalos São Aqueles..., de António Lobo Antunes


Violento-me para ser justo, porque o acho detestável de tão vaidoso, voyeur do seu próprio exibicionismo, a tentar seduzir pela decadência e a consegui-lo, mas, admito, a sua escrita é admirável, mesmo quando é o leitor a construir, lendo, o que ele não escreveu mas sabe-o e intromete-se na própria escrita para confessá-lo e nisso é sério porque não tem ilusões quanto ao que anda a fazer da nossa paciência e diz «eis o António Lobo Antunes a saltar frases não logrando acompanhar-me».
Comecei esta manhã a ler Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?e julgava que era o último livro dele até me assustar ao ver que tinha menção a que era a 4ª edição, mas depois compreendi que ele edita muito ou a editora chama nova edição ao que é uma reimpressão e manda reimprimir muitas vezes para parecerem mais as edições e já estou a dizer mal por não gostar dele, «a detestá-lo por me desarrumar o passado» mas tenho de ser justo mesmo que me violente.
E é, dizia, uma escrita admirável, em que o edifício das palavras e das frases e dos períodos e dos parágrafos implodiu e o leitor caminha, semi-cego pela poeira «poeira que demorava a cair ocultando-nos de nós mesmos e ao ocultar-nos de nós mesmos não éramos», em que entre os escombros verbais e o desabar gramatical surgem, densos e a escorrer, os sentimentos e as recordações a ensarilharem-se na leitura e um mundo que já foi de «escadas dos cartórios quase tão gastas como a minha mãe», e há uma mãe que morre e um notário para os ossos da família roídos e nele «uma empregada de aliança, mas viúva no coração».
A frase «cavalos fazendo sombra no mar» vem na página 19 e daí o título do livro e eu vou na página 46, parei agora para tomar fôlego, entre toiros «farejando a própria urina e as próprias fezes não as reconhecendo, farejando o próprio cheiro e investindo contra si mesmo porque o cheiro mudara» e vim aqui escrever o que estou a sentir.
Deus te perdoe a arrogância, mesmo que sejas neste livro o Francisco, irmão da Beatriz, António Lobo Antunes que eu lerei tudo quanto escreveste, e escreveste já muito, lerei juro se tiver tempo mas falta-me tempo ante tanta escrita - e ainda há os outros, que também há outros escritores - e «tanta angústia nos relógios, tanta vontade de alcançar o tempo», mas angustiado embora, lerei.

Alcateia, de Carlos de Oliveira - conclusão


Acabei, enfim, a Alcateia do Carlos de Oliveira. É um livro brutal, que nos atinge com uma violência tão grande como a do Venâncio, saído da cadeia, acompanhado pelo Troncho, a exumarem em noite fatal o cádaver do Capula, traidor, só mesmo para o agredirem a murro, despejando nele sobre a forma de vingança a justiça por haver, a mesma justiça que os fizera sofrer na carne o longo cárcere e o degredo. Não há podridão do corpo que purgue as manchas da alma. É sobre essas que o livro se constrói no ignoto lugar de Corgos, afinal no lugar de cada um de nós.

Ludwig Wittgenstein



O Ludwig Wittgenstein era homossexual, o que importa pouco, mas era um génio, o que importa muito. Escreveu filosofia nas trincheiras, o que ajuda a formar uma lenda, na sua foto mais conhecida aparece a envergar um flying jacket o que compõe sobremaneira a imagem. Além disso, trocou a comodidade de filho de um magnate do aço por professor de escolas primárias em aldeias pobres na Áustria, o que dá uma certificação política que, tudo junto, é um autêntico «laissez passer».
Bertrand Russel abriu-lhe as portas em Cambridge, a sua obra abriu-lhe as portas do reconhecimento da comunidade inteligente do planeta. Diz-se que a sua última frase foi a de pedir que espalhassem que tinha tido uma vida maravilhosa. Escreveu o Tractatus Logico Philosophicus em 1921 para demonstrar que o que se sabe tem como limite o que se diz. Mesmo assim há aporias, como quando se diz algo que não existe, salvo como conceito matemático pois que estatístico. É o caso da magnífica frase «um homem médio tem 2,6 filhos». Coitado daquele que for o 0,6 !
Escrevo isto com ironia mas tenho uma viva admiração por ele, mesmo quando não o compreendo e talvez por isso. O modo risonho deste escrito nocturno resulta de ter encontrado há pouco um interessante blog chamado A Namorada de Wittgenstein. Está aqui.

O Livro do Chá, de Okakura Kakuzō


Okakura Kakuzō estudou na Universidade Imperial de Tóquio sob a direcção de Ernest Fenollosa. Li há uns anos o seu Livro do Chá editado pela Cotovia em 1997. Escrito amorosamente é quase um texto sagrado sobre uma religião que a ter nome se chamaria - e ele assim a chamou - o Cháismo.
A leitura revolucionou-me o espírito, convocando-me para uma muito outra visão das coisas. ««O Cháismo é um culto baseado na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária (...). Consiste essencialmente numa adoração do Imperfeito, já que é uma tentativa terna de atingir algo possível nesta coisa impossível a que chamamos vida». Assim abre esta formidável descrição, de exaltação da assimetria porque só ela abre a porta enigmática ao que equilibra e completa, um saber líquido feito de enamoramento da Sala de Chá enquanto Domicílio da Fantasia.
Lê-se e inicia-se. A verdadeira sabedoria está no não repetir, na proibição da reiteração inútil. No um encontra-se o uno por uma única vez. Entra-se na Arte quando se aprende «a subtil utilidade do inútil». O Cháismo transforma-nos preparando-nos. «Na religião, o Futuro está atrás de nós. Na Arte, o Presente é o Eterno».

Martin Heidegger, por Emmanuel Faye


Quando a Segunda Guerra terminou os aliados passaram certificados de «desnazificação». Passou a haver os bons e os maus nazis. Alguns nazis úteis passaram a ser bons alemães. Depois houve a vista grossa em relação a muitos activistas e colaboracionistas, porque eram intelectuais de renome, mestres-cantores na Kultur ou pessoas sedutoras na Arte. Na música, no cinema, nas letras, os exemplos abundam. De quando em vez há um que tem de entrar em explicações ante o tribunal da opinião pública.
Lembro isto por causa de um notável artigo que se pode ler aqui sobre o filósofo Heidegger, hoje laureado e com honras de acolhimento nos respeitáveis meios culturais e académicos, mas outora um proeminente adepto das doutrinas expansionistas e racistas do III Reich. Trata-se da recensão à tradução inglesa do livro de Emmanuel Faye, Heidegger: The Introduction of Nazism Into Philosophy, a publicar em breve pela Yale University Press [sobre a versão original e sobre o autor em geral, consulte-se aqui].
A linha geral do livro, que o artigo ressalta, é que um autor que coloca as suas ideias ao serviço do nazismo não pode ser considerado um filósofo. A tese é discutível e a ser verdadeira mina os fundamentos filosóficos de todos os que alinharam filosoficamente pelos totalitarismos. Poder-se-á sim pensar que não é filosofia mas ideologia todo o pensamento que visa a legitimação de uma política. A ser assim, estaríamos entre propagandistas refinados, construindo como se sistema fosse, aquilo que seria uma prática agressiva, como se de razão se tratasse, a expressão violenta do irracional. Engenheiros de almas, moldariam a política do espírito, gerando a submissão da mente ao triunfo da vontade.
Nisso, as ideias de Matin Heidegger, os filmes de Lenni Riefensthal e  a música de Herbert von Karajan, são uma e a mesma realidade: para além dos nazis que, como bodes, expiaram em Nuremberg, só são hoje nazis os pequenos alemães que se não conseguiram empregar na indústria cultural subsequente aos Acordos de Potsdam.
Na cultura, há sempre uma forma de uma pessoa se justificar: é a teoria da cebola e suas cascas. Also Spracht SS-Mann Günter Grass.


Dormir al Sol, de Bioy Casares



Enganei-me. E como sou superticioso, acredito no valor simbólico do engano.Tinha comprado dois livros de Bioy Casares. Ainda não acabei de ler um deles e hoje, com a vista ainda meia turva de sono, peguei no que julgava ser esse e levei-o para continuar a leitura, com o propósito, aliás, de acabá-la, porque deve haver uma qualquer lei do consumo de literatura que define a quantidade máxima de livros que simultâneamente se estão ainda a ler sem chegar ao fim.
Tarde demais dei pelo erro. Já não podia voltar atrás para o reparar, porque é dia de preguiça e ao mesmo tempo arrisquei seguir o trilho que o destino me assinalara. Agora está inevitavelmente inciado, o que é irritante por aumentar a minha dificuldade em reduzir as pendências literárias e ainda por cima, estou seduzido pelo que leio e vou ser vítima da inevitabilidade.
Assim foi que iniciei o Dormir al Sol. É uma narrativa contada num contexto de um matrimónio quesilento, no território azedo dos mal-entendidos e das zangas, em que é falso que as pessoas se entendam a conversar, por ser precisamente a conversar que se irritam e o silêncio equivaler à paz.
Diana, cavilosa e desconfiada, qualquer boa notícia a entristece, porque dá a supor que, para compensá-la, virá uma má. Para si a frase «se não queres entristecer-me, não estejas nunca triste» tem como resposta razoável «então, não venhas com a história de que é por minha causa que te preocupas». E abre-se a cena do ódio e da recriminação.
É o mundo do «descontentamento geral», das indispostas e queixosas senhoras do «grémio das esposas». Haverá seguramente livros sobre maridos contentes e mulheres felizes, na base do era uma vez. Este está-me a parecer que trata da teoria geral da indisposição e seus fantasmas.
«Peripécias inusitadas», diz-se na contra-capa a anunciar a obra. Ou talvez não. Depois digo se não são, afinal, modos extraordinários de contar lugares comuns.

8-8-8: a luta pelos três tempos



A cultura tem muito a ver com a política, se bem que a política não se importa muito com a cultura. No século dezanove o ideal reformador eram os três oito, oito horas para trabalhar, oito para descansar, oito para uma pessoa se cultivar. Era o homem integral, trabalhador, lúdico, sabedor. Hoje temos pela frente uma multidão de ensonados, porque o tempo mal chega para dormir e mal conseguem ler um livro porque passam horas no trabalho ou no vai-vém que os leva e traz do trabalho.
Encontrei hoje por acaso uma expressão dessa velha reivindicação operária: um blog sobre os três oitos, aqui, ainda a tempo, diga-se.

Cartas, de Manuel Laranjeira



Quando fui a Manhufe ver a casa do Amadeo de Souza Cardoso perguntei em Amarante onde era Manhufe e o residente da terra de Pascoaes não sabia. Depois lá me informei, fui pela estrada fora e passei pela casa sem dar conta, porque não estava assinalada. Voltei para trás e lá a descobri. Estava fechada e não admitia visitas. Não voltei. Vi então alguns quadros do Amadeo no museu local e confesso não tive coragem para ir à Gulbenkian, que é aqui em frente, quando tout Lisbonne decidiu que o homem que deu escândalo quando da sua primeira exposição na Liga Naval era, enfim, um génio.
Vem isto a propósito de ter descoberto esta noite que o Manuel Laranjeira, esse místico laico que achava que os misticismos eram patologias do espírito e ele era um profundo neurasténico, se correspondeu com o ímpar pintor. Encontrei-as, essas desesperadas missivas no pequeno livro que Ramiro Mourão, que com ele viveu os últimos dez anos de vida, editou, em 1942, pela Portugália, com um prefácio de Miguel de Unamuno.
Leio: «Lisboa é um símbolo, o resumo da torpeza nacional: aos que não corrompe, enoja-os», gritava numa o solitário escritor.
Mas não foi por isso que eu vim aqui. É que tendo encontrado aqui uma caricatura em que Amadeo se retrata com Laranjeira pedalando numa bicicleta, o primeiro abatido  o segundo iracundo, encontrei também a carta de 24 de Abril de 1906 que Laranjeira escreve ao pintor: «V. tem falhado em todas as vezes que tenta caricaturar-me, meu amigo, e vou dizer-lhe. É porque você ainda está na idade em que se ri das coisas tristes».

José Saramago: ateu e a-meu



O José Saramago, porque é Prémio Nobel da Literatura, diz coisas e o País ouve. Devia ser o mundo a ouvi-lo mas ele não tem, reconheçamos, dimensão para ser escutado pelo mundo, porque o Saramago é cada vez menos Prémio Nobel e o Prémio Nobel é cada vez menos prémio. Agora, pelo que vejo, escreveu sobre Deus e a Bíblia e essas coisas que dão sarilho porque mexem em sensibilidades íntimas e para cuja defesa há igrejas organizadas e vigilantes.
Neste intervalo, em que já houve eleições mas não há governo, a boutade em forma de livrito serviu para animar os calores nacionais. Ele e a Maitê Proença que disse mal dos portugueses e que o Miguel Sousa Tavares veio defender, talvez porque raramente diga bem do quer que seja.
É um mundo de tricas e de baldrocas. Nada disso tem a ver com a Literatura, sim com a mediocridade do meio literário. Que Saramago não goste de Deus e a Proença dos portugueses, seja. Ao menos que valha a pena ler porquê. Sem que isso tenha importância, vim aqui dizê-lo e explicar que escolhi esta foto do Levantado do Chão: não porque abre os braços em cruz, sim porque se abraça a si próprio. Significativamente. E pronto, está feita a terapia hepática.

Onde o homem acaba...,por Emídio Santana



Emídio Santana, militante anarco-sindicalista. A cabeça patrícia, uma farta cabeleira como a de Álvaro Cunhal, o semblante a lembrar o José Gomes Ferreira.
Em 4 de Fevereiro de 1937 planeou um atentado contra António de Oliveira Salazar, colocando uma bomba num colector na Avenida Barbosa du Bocage. Planeava matar o Presidente do Conselho de Ministros e assim pôr termo ao jovem Estado Novo. O engenho explodiu, mas mal colocado porque mal calculado, não matou quem pretendia liquidar. Salazar escapou. Santana foi condenado a 16 anos de prisão.
Profundo conhecedor da alma humana, cinzelado pelo sacrifício da militância e pelo sofrimento da repressão, condensou num livro os seus escritos do cárcere. A Assírio e Alvim editou-os em 1989. Chama-se a pequena obra Onde o Homem Acaba e a Maldição Começa. São narrativas sobre a realidade carcerária dos anos quarenta, mas são histórias actuais, de «ex-homens», limitados pelo confinamento celular, orientados ao único objectivo que é o de sobreviver, resistir, aguentar, chegar ao fim da pena.
Li esta noite a história do Varandas, condenado da velha guarda, veterano inconformista, irreverente, a odiar por igual a autoridade, que tinha por opressora, e a religião, que julgava supersticiosa. Cumpriu parte da sentença porque o mandado de soltura foi a certidão de óbito.
Entrou na enfermaria, ante-câmara do cemitério, roído de padecimentos. Sofreu a insónia, a agonia, a angústia, a solidão, o estretor e já no fim, alta a madrugada, a alma a libertar-se, foi.
«O Varandas já não era um recluso; deixara de ser o 174...porque já era um cadáver. Libertara-se no silêncio da noite, fechado numa cela, a sós com o seu sofruimento, os seus sonhos e as suas quimeras». Veio o capelão encomendar quem não lho pedira. «Era uma filoxera a menos na vinha do Senhor, uma unidade da trista conserva humana carcerária que expiava uma sentença». Finara.
Ressuma bondade a escrita deste homem que, por amor à sua Pátria, quis matar o Estado em nome da Nação.

La Invención de Morel, de Bioy Casares



São livros de formato pequeno, que cabem precisamente num bolso, artigos de uma colecção em cuja selecção se percebe ter havido critério. Edita-os a Alianza Editorial. Publica-se nessa forma todo o Borges e qualquer dia já li assim todo o Borges editado. Agora comecei o Adolfo Bioy Casares que era amigo do Borges e que o Borges prefaciou e que em certas fotografias parece o Borges e que se divertiu com o Borges na sublime arte da risota inteligente. Chama-se La Invención de Morel. O dito Morel só surge na página 49, inesperadamente. Tive de voltar atrás para confirmar se o autor não tinha falado dele anteriormente. Mas não tinha, de facto.
No prefácio que referi o Jorge Luís Borges fala do que chama com notável capacidade de sugerir «a novela de peripécias». A maior parte das narrativas são assim baseadas no suceder de coisas que sucedem. Nesta são ocorrências. Surgem exteriores ao narrador, o leitor ganha a ilusão que têm a ver com ele e, por via disso, que têm a ver consigo.Surge assim «a casa infestada de ecos», as «bibliotecas inesgotáveis e deficientes», e, para animar quem vive «em ruína incómoda» o acicatante «bordel de mulheres cegas». Faz sentido porque o amor é cego, os escritores são loucos e os russos demonstaram que em Literatura já não há impossíveis.

Geschlecth in Fesseln, de Wilhelm Dieterle



São títulos enganadores e classificações idiotas. «Geschlecth in Fesseln», um filme alemão realizado e protagonizado por Wilhelm Dieterle e realizado em 1928 aparece em algumas fontes sobre cinema classificado sobre a homossexualidade nas prisões. É tudo menos isso ou quase.
A narrativa prende-se com a fidelidade de uma mulher a um marido preso. Toca de modo mais do que subtil uma possível carícia entre o preso e um outro companheiro de cela.
Desenvolvendo-se numa lógica de angústia, culpa e expiação, num contexto social em que o desemprego e as dificuldades financeiras dão um ligeiro contexto, a narrativa termina com um suicídio do casal, morte conjunta como a de Stefan Zweig e sua última mulher.
Película ingénua, em cinema mudo, a viver dos efeitos visuais e da melhor expressão - o seu realizador trabalhou com Murnau - , não há nele nada de importante a contar.
O título em português Sexo Acorrentado, que vem, aliás, na peugada da titulação em outras línguas - Sex in Chains na versão inglesa - sugere algum fetiche sado-maso. Mas no fundo trata-se da história convencional de uma questão séria, em que com boa vontade se pode ver um perfume freudiano.
Púdico o que nele se conta é o efeito da ausência de carinho e de companhia. Nele, a palavra sexo está a mais. Mas o título alemão já é assim, a falar de carne e não de alma. Foi esta noite, na Cinemateca.

O Chão dos Pardais (ii), de Dulce Maria Cardoso



Acabei. Fantástico. Houve um momento a meio em que hesitei. Julguei-o pior do que os livros anteriores. Para uma escritora premiada seria penoso. Mas prossegui. Caminhei como Elizaveta, a mala na mão em busca do corpo de Clara,  porque «o amor faz bem a quem o sente. Aos amados nem por isso. Tolhe-os. Endivida-os» e eu desejava a familiaridade desta escrita.
Talvez eliminasse no livro os momentos que são o espaço virtual em conversação, esse quarto-escuro de alucinações, ainda por cima impressos a corpo menor, a dar um ar de improvisação tipográfica a uma obra que exigia ter sido impressa em oitavo, para um formato mais íntimo, um livro que se aconchegasse junto de quem o lê.
É uma escrita de risos também, mas sobretudo uma escrita dorida. Caminha «contra aquilo que o corpo quer», como os papagaios verdes que não pertencem àqueles céus. Uma escrita feita da desistência de matar, em que todos sobrevivem como personagens, mesmo os mortos como pessoas, porque ninguém rejeita o futuro, mesmo as irrealidades humanas feitas de cólera quase inhumana.
É um modo de escrever «com relâmpagos na cabeça» em que «o mal era capaz de sorrir de uma forma mais sedutora do que o bem». Uma bela escrita.
«A distância é uma morte temporária». Dulce Maria Cardoso ainda não pode parar de escrever.

As noites brancas, de Fiódor Dostoiévski



Traduzido do russo e não do francês - como tantas outras versões - por Nina Guerra e Filipe Guerra, o livro As Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski a si mesmo se chama «romance sentimental, das memórias de um sonhador». A obra foi publicada pela primeira vez em 1848. Como nota o tradutor, o herói, tal como o dos Cadernos do Subterrâneo, do mesmo autor, é um desadaptado que perdeu o talento de viver «na vida real».
Logo nos primeiros diálogos, aliás, a desconhecia, a «querida Nástenka», com quem contracena ao longo da narrativa, percebe-o porque ele «faz de si um inimigo» e é essa inimizade que o arrasta e ele persegue, sonhador e o sonhador «não é uma pessoa mas uma categoria intermédia», a vogar, por isso, num mundo feito de criaturas.
Na terceira noite ela está contente e trava-se a conversa que é a chave dos sentimentos de que a obra é a a ficção:
«Sabe por que estou tão contente? - disse ela. - Porque me agrada tanto vê-lo? Por que gosto tanto de si hoje?
«Porquê? - perguntei e o meu coração tremeu.
«Gosto de si, porque não se apaixonou por mim».

O Chão dos Pardais, de Dulce Maria Cardoso



Há na escrita de Dulce Maria Cardoso uma toada, como se uma ladainha feita de murmúrios antigos, vindos de um tempo interior, intemporal. Feita de frases curtas, algumas com a inocência infantil de serem um modo de escrever tal qual se diz, é uma escrita única na sonoridade, assim a reconheceria quem a visse escrita numa pauta musical em clave de sol.
Reconheço-a, pois, neste seu último romance que me chegou hoje pela manhã e hoje mesmo pela noite comecei a ler.
É difícil ler-se um livro de quem se aprecia a escrita. Neste caso desmesuradamente difícil. «Como é que se pensa uma ideia» pensa Alice cuja ideia no momento em que abro o livro é apenas encontrar uma prenda inesquecível para um marido que há muito a havia esquecido.
Foi assim que, leitor fiel, parti para a leitura e estou na página 56, receoso de que um qualquer momento dessa narrativa a autora falhe, como um cristal que se estilhace porque «não há nada mais imperdoável do que os erros estéticos. Além de incuráveis são contagiosos» e ela não pode errar.
Sigo pelas páginas, como se pelas linhas fora. Passei já pela Clara, substancialmente verdadeira no desejo mesmo quando diferente no acto de desejar, pelo Mc9 tão virtual como possível e um dia deixar-se-á conhecer para além do seu remorso, pela nudez de Sofia, tão apostável como disponível e magnífica. No meio de tudo isso vivi já a dor subrogada pela morte de uma princesa, porque não tem de ser nossa a causa da nossa dor. Vou continuar. Parei agora para vir dizer que estou a ler. Num momento ritual dei uma furtiva olhadela a uma das páginas do fim: «eu acredito que só deveríamos experimentar a juventude se nunca nos fosse tirada», disse Afonso. Talvez tenha melhorado como ser ao longo do romance. No momento em que o leio tem uns horríveis sessenta anos. Odeio-o e «ninguém consegue odiar sem esforço. O ódio exige mais conhecimento, mais prática e mais rotinas do que o amor». Até já.

A cambada de Corgos, de Carlos de Oliveira


Capula vai trair os camaradas de latrocínio. Pouco a pouco «à medida que se fora habituando à ideia de trair os companheiros, invadira-o uma súbita serenidade. Até à frieza completa de agora». É uma narrativa forte, em que a alma se arrepanha pela garra da leitura, chove desapiedadamente na história e no interior de quem lê, uma noite de sangue e de lamaçal, de olhos «cheios do luar pasmoso», de vento, de Natureza e pântano, que «nem chega a ser traição aquilo, é o destino». E, no entanto, um destino que convém às minudências humanas, pequenas misérias de ambição, venalidades pela glória, maldades por vingança. Cosme Sapo que intriga, o Padre Silva, pressuroso, serviçal no púlpito, fugidio porque «ninguém sabe as razões porque padre Silva faz qualquer coisa, nem ele próprio, mas está do lado do Cosme Sapo e é o que importa», todos ali estão, até os amores de Fernando e as ânsias de Hermengarda.
Condenados à grilheta o Leandro, o Venâncio e o Troncho, ladrões do alheio por nada terem de seu, a tristeza que é raiva contra toda a gente, e o povoléu, minguado de meios, em que «ninguém sabe o que deve e o que é seu». Traídos uns pela delação outros pela fatalidade do momento e da origem.
Estou aqui precisamente: Capula trai, compra junto do Administrador a impunidade, mas morre, expiando com a vida a venda dos outros que entrega sem coração, para se livrar «do peso, da solidão, da angústia, que esmagavam a sua vida». Estou pois no momento em que, presa a quadrilha, volta o sossego e o prestígio ao doutor Carmo, o Administrador. Talvez Presidente de Câmara, quem sabe se Governador Civil eis uma carreira que assim se reforça e soergue nas alturas do pequeno mando do incógnito lugar. É a página 206. Triunfante sobre Cosme Sapo, é o momento em que «a corja começava a saltar para o outro lado, à procura da boa sombra». Soberbo, Carmo sente subir-lhe o desprezo pela «cambada de Corgos». Perpetua-se o poder à força da vitória sobre a quadrilha. É a Alcateia de Carlos de Oliveira. O livro que ele negou. Um excelente livro.

Mars Attacks!, de Tim Burton


Talvez por provocação repetidas vezes fiz saber que Marte Ataca! é uma das mais geniais criações que o espírito humano gerou. Claro que ironizo quando o digo e divirto-me com a seriedade dos outros, aqueles que se enfurecem quando há riso, se zangam quando não estamos no território da densidade e da profundidade. Restam aqueles que não perderam a capacidade infantil de ouvir histórias.
Génio, sim, Tim Burton que sobre o original de Jonathan Gems construiu o insólito, o bizarro, o surreal, mas, afinal, uma paródia sobre a condição humana e sobre os tiques lunáticos da sociedade americana.
Riso largo sobre as crenças e sobre as ilusões, gargalhada sobre o poder e a miséria, o filme é mais denso de perspectivas do que a superficialidade de algumas das simplificações a que o sujeitam os espectadores do trivial. Esta noite estava no TVCine-3. Tim Burton iniciou-se a ler Edgar Allan Poe. Walt Disney contratou-o. O oculto abria então portas ao profundo.

Cuntas de la Tierra de las Faias, de António Bárbolo Alves


Acho que a editora Campo das Letras acabou. Ficou um catálogo interessante como as obras em mirandês a que deu vida. É uma língua estranha, antiga, do grupo asturo-leonês. Sente-se nossa, fonética, próxima. A palatização de alguns dos seus sons fá-la surgir como se entranhada no corpo e alma, não como aquelas línguas tagarelantes e superficiais, antes uma língua que se respira, gargareja e regurgita. «Yê ua nuite de Eimbierno. L cielo de un azul alto i strellado cubre la preinada. L algodon an rama ampeçou lhougo pula manhana i todo I santo die fui bê-lo caer. Parecie sembrado a manadas. Num era I purmeiro nebon de l anho mas era de certeza i mais fuorte».
Magnífica, gutural, bucal, mastigada língua. «La tierra parecie drumida. Ancantada por aquel ancanto».

Der Vorleser, de Bernhard Schlink


Um blog sobre livros pressupõe que se leia, assim como um blog sobre a vida exige que se viva. Há, porém, aqueles intervalos em que se não lê porque se está a viver uma vida fora dos livros. No filme Der Vorleser ela é analfabeta. Lê através dos olhos de outrem. O amor e o ódio surgem através da leitura, os sentimentos vão-se acumulando como livros e, tal como eles, há um momento em que exigem arrumação. Nesse momento ela está presa.
O autor do romance é jurista e professor de Direito. A história transforma-se numa reflexão sobre o que é justo, num mundo em que a pergunta é saber apenas o que é possível.

The Comedians, por Graham Greene



Porque é que Graham Greene é um grande escritor? Porque o leitor vai virando folha sobre folha, conduzido pela sua narrativa, sem esforço, seduzido; porque há enredo nas suas histórias e contexto; e porque há densidade humana nas personagens, humanidade; e porque, não havendo trivialidade, há senso comum, vida reconhecível.
Comecei a ler The Comedians, a novela, escrita em 1965, que se passa no Haiti, com todos os elementos reconhecíveis do que era e em parte ainda é aquele desgraçado país, incluindo a miséria, a repressão, o voodoo, a atracção turística, a Natureza indiferente ao que dói.
Irónico, no prefácio o autor explica que o narrador «apesar de o seu nome ser Brown, não é Greene». No mesmo registo acrescenta que muitos o tomaram já como sendo alguma das suas personagens, supondo-o, por exemplo, o amante ciumento da mulher de um funcionário público. Lendo The End of the Affair e comparando-o com a biografia de Greene, o leitor sorri-se.Deveria, porém, penalizar-se, pois os seus mais íntimos e magoados sentimentos escondem-se em cada linha, por vezes quase imperceptíveis a quem não conheça o que viveu: «this is onde of the pains of illict love: even your mistress most extreme embrace is a proof the more that love doesn't last».

Um mundo em reconstrução


1984, de George Orwell


Labiríntico, orwelliano, é o Palácio da Cultura. Vê-se da janela do hotel, imponente na larga avenida. Quando escreveu sobre o Ministério da Verdade na Oceania, George Orwell imaginou-o assim, gigantesco, piramidal, 300 metros de altura e 3 000 salas de extensão. No livro 1984 havia também o Ministério do Amor, o Ministério da Fartura e o Ministério da Paz. No primeiro trata-se de prender os dissidentes. Naturalmente, porque a fidelidade é um dever e quem ama o Estado, ama-o indiscutivelmente.
Eis o pensamente tornado aqui arquitectura. Li o livro através da minha janela em folhas de betão.

A República e o darwinismo


A República aboliu a fatalidade hereditária. Se vigorasse a lei do aperfeiçoamento das espécies seria um fantástico regime. Hoje, ausente da Pátria, e sem livros de que me possa socorrer, resta-me apenas recordar os intervalos dinásticos e aquele em que, pela regra da sucessão, perdemos a independência, e mais as leis do banimento. Ou então, para tentar estar contente, os momentos equívocos e embaraçosos em que se contrapõem na política  legitimidade e conveniência: É o caso do Rei Carol, da Roménia, deposto. Um dia apareceu em Portugal, vindo de Espanha, fugido. Estávamos em 1941. A propósito, um jornal grego noticiava: «O ex rei da Roménia, Carlos, que há pouco tempo chegou a Lisboa com a sua mulher a ex senhora Lupesco (sic), pode em breve, se o quiser, candidatar-se ao trono de Portugal, que permanece vago desde a morte do rei D. Manuel II. Com efeito Carlos é e o ante neto da Rainha Maria de Portugal que pelo seu casamento com o príncipe alemão Fernando teve três filhos: Pedro V, que morreu quando da peste, Luís I, herdeiro de Pedro e uma filha D. Maria Antónia. Maria Antónia casou com Leopoldo de Hoenzollern e teve dele um filho, Fernando da Roménia, pai de Carlos. Dado que o ex rei Carlos é o descendente do ramo da dinastia portuguesa que permaneceu fiel à Constituição, ele tem, de acordo com certos historiadores mais direitos do que o actual pretende D. Duarte Nuno que é descendente do ramo que se opôs à Constituição e foi por isso expulso de Portugal. Por isso vários se perguntam em Lisboa se no fim Carlos irá reivindicar a Coroa portuguesa sobre a qual tem tantos direitos ou se, pelo contrário, preferirá ser restaurado no trono da Roménia, porque correm rumores de que Carlos está em vias de substituir o seu filho Miguel, que não goza da simpatia dos comunistas romenos».
E se o Rei, em vez de se ter refugiado na linha do Estoril, tivesse tomado em mãos o Palácio da Ajuda? Seria Rei. E hoje adeus feriado!

O tempo e as nuvens



Hoje é domingo e estou a viajar. Aqui há uns anos assisti a um encontro onde os escritores que se reuniam falavam de literatura de viagens. Alguns viajaram muito e falavam de tudo, incluindo a Amazónia que já passou a banalidade burguesa. Outros, mais confinados, ou menos exuberantes falavam das viagens à volta do seu quarto e das viagens interiores, estas às profundezas do eu.
Ao chegar aqui tinha um email que me dizia assim: quando eu era pequena e viajei de avião não queria que o avião estragasse as nuvens. Ora quem viaja assim viaja no Céu, sentada ao lado de quem viaja apenas pelos céus.
Aterrei aqui vinte minutos antes da hora, com a sensação de estar a ganhar pontos ao decurso do tempo. Na revista que vim a ler, oferta da TAP incluída no preço do bilhete, um professor explicava: se passar aleatoriamente o conteúdo de um DVD, baralhando tudo, onde está o tempo dentro do DVD? Confesso que não sei. Não é por ter acabado de chegar, é porque a inteligência vai escasseando com a passagem do tempo. É que já são sessenta anos.

Pântano da Morte, de Cândido de Oliveira



Um sábado recolhido a preparar uma comunicação sobre as redes clandestinas do SOE em Portugal durante a 2ª Guerra. O SOE foi o organismo que coordenou a guerra subversiva nos países ocupados. Teve também actuação em países neutrais como no nosso.
Organizadas por um advogado, oriundo da reputada firma Slaughter & May, delas fez parte uma figura lendária no desporto, chamado Cândido de Oliveira, o agente «Pax».
Descobertas devido a uma infiltração da PVDE e ao descuidado relacionamento com a Legião Portuguesa, a sua existência ia causando um grave incidente diplomático.
Salazar salvou a face à nossa mais velha aliada, apanhada em contra-mão, evitando o escândalo. Quem sofreu a parte pior foram os portugueses, internados no Tarrafal, para que o seu julgamento não fosse a demonstração pública de algo que os interesses da política queriam esconder. Nisso o sofrimento individual é sempre pequeno ante as razões de Estado.
Cândido de Oliveira escreveu um livro sobre o que viu. Chama-se Pântano da Morte. Foi editado em 1974, pelo jornal República, de Raul Rego.

Lobo Antunes



Houve um jornal que publicou hoje uma entrevista minha. Não sei por que pudor me abstenho de a reproduzir aqui, mesmo em parte, e mesmo esta referência já me parece algo atrevida.
Há na escrita este desdobramento que leva a que sinta o autor (alguns autores, já lá vamos) alguma timidez em falar extensamente de si. Não sendo propriamente um escritor - acho que é preciso alguma coragem para alguém se julgar isso sem durante muitos anos ser apenas aquele que escreve - sinto algo parecido.
Em excepção contida à regra fica aqui, porém, apenas uma pergunta e uma resposta dessa entrevista: «O que faz para se divertir? Basicamente, leio e escrevo. Hoje, a escrita é a minha grande ocupação. E leio muito, por vezes os livros de um autor todos seguidos. Fiz as pazes com a complexa Agustina, com o labiríntico Borges, qualquer dia até com o Lobo Antunes, fingindo que ele não existe como pessoa insuportável de vaidade. Há alturas para tudo na vida. Até para se fazerem pazes com o mundo».
A que propósito vem isto? De ter visto nas montras mais um livro de conversas com o Lobo Antunes e andar cheio de engulhos quanto a comprá-lo. Não há dúvida que a criatura tem o condão de irritar a paciência por causa da soberba. Talvez em atenção ao João Céu e Silva me decida. Mas sempre a lembrar-me o que dizia, ensarilhado nas suas angústias, o Vergílio Ferreira: que o homem tem entradas de Lobo e saídas de Antunes. Subiu-lhe a fama à cabeça! A culpa é de quem lhe atura a arrogância.

O Mundo não pode dormir, de Stefan Zweig



«Há hoje no mundo pouca gente que durma; as noites são mais longas, mais longos os dias». Assim começa Stefan Zweig a sua poderosa narrativa sobre o tenso ambiente de uma Europa em guerra, a vigília como sentinela. «Em todos os países, por essa Europa fora, em todas as cidades, em cada rua, cada casa, cada aposento, tornou-se mais curta e febril a tranquila respiração do sono».
Li este texto há uns anos, no mesmo estado de exaltação que o escasso descanso traz ao organismo, a inquietação tornada constante insónia. «Toda a humanidade tem agora febre de dia e de noite; esse terrível, pavoroso, estar deperto transparece nos sentidos sobreexcitados de milhões de criaturas».
Lá pelas quatro da manhã virá não o sono mas o cansaço.Umas horas depois a luz do dia e o ruído da vida irrompem. O sentido do dever aguilhoa a resistência. No mais é a inércia do movimento, essa lei da dinâmica do que acaba por suceder.

À Sombra, de Jerónimo Negrão Buisel


Imagine-se que se compra um livro num alfarrabista. Um livro pequeno, brochado, mas ainda com os fólios cosidos, que pertenceu a uma qualquer biblioteca, talvez particular, de quem o numerou com uma vinheta, daquelas que se colavam com goma arábica. Um livro impresso - e cito tal e qual está no seu frontespício - na «Typographia Editora José Bastos», que era no número 100 da Rua da Alegria em Lisboa.
Um livro que saiu sem data, mas que tem um prefácio datado de 17 de Outubro de 1915. Um livro que se chama À Sombra e  tem como subtítulo e de novo a grafia da época «versos colligidos em 7 mezes de preso político no Limoeiro».
Imagine-se ainda um livro que tem aposto no verso da capa um ex-libris, que é coisa do tempo em que a propriedade dos livros se assinalava assim, um ex-libris que tem o logotipo de uma caravela, ornado com uma pedra de armas cujo lema é «tole lege». Um ex-libris que nos diz que pertenceu ao contra-almirante João Correia Pereira. Um livro autografado pelo autor.
Imaginem-me agora à procura de saber quem é o autor desse livro e descobrir que «natural de Portimão. A profissão de empregado comercial era complementada com a prática da escrita, que cedo desenvolveu. Foi colaborador de vários jornais e revistas, fundador e director da revista "O Algarve". «À Sombra» foi o seu único contributo literário. A nível político, continuava a defender os ideais monárquicos, o que o levou a ser perseguido e preso no início do actual regime. Membro do Partido Regenerador. Fazia parte do conjunto de figuras políticas notáveis de Portimão na segunda metade do século XIX».
Só mais um esforço. Imaginem-me, só para terminarmos, à procura de quem foi o almirante João Correia Pereira e descobrir que publicou um estudo chamado A Marinha de Guerra e o Império  na Revista do Ultramar, em 1948.
Voltemos à realidade, deixando a imaginação. É este o prazer dos livros, a teia que se urde em torno deles, fios de vida que se espalham entre as paredes da biblioteca, pelos quais passeia a aranha da fantasia.
Ah! O autor chama-se «Jeronymo Negrão Buisel». E os versos, coitadinhos dos versos que são tristes suspiros de uma alma agrilhoada. Cito um, por amigável compaixão: «Amas a Nosso Senhor/que morreu por toda a gente,/e a mim não me tens amor, que morro por ti somente». Chama-se Ciúme.



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Estilhaços, um livro de...



Quando se arrumam livros descobrem-se neles coisas extraordinárias: são os que tiveram importância e hoje já não sabemos porquê, aqueles que nunca tiveram qualquer espécie de relevo e que comprámos sabe-se lá a razão, aqueles que de súbito ganham um momento de atenção no nosso quotidiano.Eis o caso.
Não sei como classificar o livro Estilhaços. Sei que foi escrito por um advogado que nasceu em Luanda e exerceu advocacia até 1999. À data da publicação era consultor jurídico do Instituto da Conservação da Natureza. Segundo a badana do livro «na qualidade de especialista de Direito do Ambiente foi orador convidado em diversos congressos e seminários, portugueses e estrangeiros, e professor em cursos de formação, de pós graduação e de mestrado». O seu autor chama-se Adolfo Morais de Macedo.
Tudo faz sentido, tudo é lógico. Agora a surpresa. Em 1981 fundou o grupo de rock Auaufeiomau, em 1984 os Mão Morta. O seu nome artístico é..Adolfo Luxúria Canibal! Voilá!
E ora bom dia! Aprendamos a ser um outro. Não Somos Aqueles é o nome de um dos seus escritos: «Somos aqueles contra quem a televisão nos preveniu». Exactamente. Ainda ontem à noite, solenemente.

Lendo jornais


Dia sem possibilidade de ler nada, salvo o jornal da manhã. A Capital, de que o Sousa Tavares (pai) foi director, chamava-se «o seu vício diário». Como nunca me rendi a vícios - sou capaz de fumar um cigarro e deixar de fumar os outros dezanove - porque tenho outros graves defeitos, leio de quando em vez um jornal, nem sempre o mesmo. Outro dia uma jornalista dizia-me «não leio esse jornal, porque... (...)». E eu pensava: «se seguisse esse critério não lia nenhum. Sobretudo o Diário da República».

Maria Ondina Braga, um blog


A edilidade de Braga descerrou um busto de homenagem a Maria Ondina Braga. A câmara patrocina um prémio literário com o seu nome. Já tinha dado o seu nome àquela rua que se vê na fotografia. É o possível reconhecimento local de uma grande escritora. A verdadeira homenagem ainda está, porém, por fazer-se, a edição completa das suas obras. Estão esgotadas, nem pelos alfarrabistas se encontram. Soube outro dia que a Maria Ondina deixou um romance inédito. Sei que entregou para edição o segundo volume da obra Mulheres Escritoras.
Criei um blog que lhe era dedicado. Um dia abandonei a escrita pessoalizada na net, e o blog ficou inerte. Lembro isto porque me lembro também da sua escrita, fina, de interior, a sua alma delicada a esvair-se em cada página. Maria Ondina deu-se em livro. Talvez haja razão para que eu recupere aquele blog. Ele, afinal, não me pertence.

A República dos Corvos, de José Cardoso Pires


Há quem leia para seguir a narrativa, outros o modo de dizer. No meu caso acabei por seguir de linha em linha ao encontro de uma expressão feliz. Li a história de Vicente, o corvo de taberna, o Corvo Taberneiro, o corvo que está na heráldica de Lisboa, Lisboa a República dos Corvos. É um conto triste, que termina com uma morte e com a sua tristeza desesperada, crucitante, ele «que até e lisboeta de nascimento é com grasnar de reguilas e tudo», agora, morta a galinheira, que era a sua companhia e o seu sustento «mantém-se à cabeceira da defunta, não consentindo que ninguém lhe toque e lançando, num crácrá aflitivo, a mais íntima e pessoal de todas as suas vozes».José Cardoso Pires escrevia com sumptuosidade. Uma sumptuosidade pesarosa, mesmo quando revoltada.

A Orelha de Deus, de Jenny Schwartz


É como o raio verde, aquele momento magnífico e único em que o sol se afunda no mar, e é o pôr do sol: o teatro tem também aquela permanente possibilidade de o milagre quebrar o seu efeito, surgir, feio, desdentado, indesfarçável, o desastre.
Sozinho no palco cada actor enfrenta o medo constante de uma má expressão, uma falha de memória, uma deixa que se perdeu: representa na boca de cena do precipício.
Acabo de chegar da Culturgest. A peça chama-se A Orelha de Deus. Escreveu-a Jenny Schwartz. Encenou Cristina Carvalhal. Representam Cucha Cavalheiro, Diana Sá, Emílio Gomes, Luísa Cruz, Manuel Wiborg, Pedro Carmo e Sandra Fiadeiro.
Há no teatro aquele momento em que está em palco a representação da personagem de que costumamos ser nós os intérpretes. O receio de falhar cola-nos ao palco, as ribaltas como testemunhas, os seus longos olhos a seguirem-nos cada passo, cada gesto, cada fala.

Amor e Dedinhos de Pé, um filme de Luís Filipe Rocha


Sentava-se atrás de mim no anfiteatro três. Deu em cineasta como eu dei em advogado e outros em tanta outra coisa. Nele vê-se que é um dom. No Cénico de Direito foi o Senhor Corvino na peça Volpone de Ben Johnson. Digo isto mas não vi a peça. Rodou o Amor e Dedinhos de Pé, que estreou em 1993. Não fui à estreia mas ele convidou-me. Fui hoje reparar esse erro. Numa das cenas, dono da casa, estava o Henrique Sena Fernandes. Tinha-o visto uns dias antes na mesma Cinemateca a falar com o Paulo Rocha sobre o Wenceslau de Moraes. Foi ele quem escreveu o livro. Não o li apesar de ter estado em Macau. Confesso a vergonha. Hei-de ler. Aos poucos um homem encontra-se consigo próprio. É esse o tema da narrativa contada em filme por Luís Fiipe Rocha. Magnificamente.

Clepsydra, de Camilo Pessanha



Fui hoje à Biblioteca Nacional porque se apresentava o acesso on line ao espólio de Camilo Pessanha. O acesso é por aqui. Autor de um só livro, o autor da Clepsydra desinteressou-se, porém, da sua publicação. Devemo-la a Ana de Castro Osório, a mulher que o amava e não o quis para marido.
Hoje, Daniel Pires encarregou-se de lhe resumir a biografia. Por várias vezes se referiu a seu filho, depreciativamente: a propósito do desinteresse pela obra do pai, a propósito da venda, por puro intuito mercantil, da sua colecção de arte chinesa, que se pode ver hoje no Museu do Oriente, depois de ter sido recusada por vários museus.
Esta noite, já em casa, abri o livro que Danilo Barreiros dedicou em 1961 ao testamento de Camilo Pessanha: «Crescendo num ambiente alheio às convenções normais, quase desprezado pelo pai, que o adoptava de "Malau" (macaco), teve João Manuel formação deficiente, Camilo Pessanha não sentia por ele grande afecto e nunca se empenhou em orientá-lo na vida. Tratava-o com excessiva severidade e, uma vez, aos surpeendê-lo a namoriscar Ngan Ieng, expulsou-o de casa, deixando-o entregue a perigosa vadiagem».
Caramba, que dor para quem se embevece ante o simbolimso florido da sua escrita, para quem, sabendo-o maçon, o imaginava fraterno e solidário.
Nunca fantasies em Literatura. Lê.

Suspiria, de Dario Argento



Uma academia de dança alemã que encombre um areópago de bruxas e se chama Erasmus de Roterdão. Uma vaga reminiscência do oculto que se vai intensificando. Uns quantos símbolos esotéricos entre os quais o inevitável olho no triângulo. Um odor a morte e a perigo.
Suspiria vale a pena pelo modo como Dario Argento gere o suspense, pela beleza de algumas imagens.Tem primarismos quando tenta alguns efeitos especiais, ingenuidades de representação, quebras de sequência. No final coloca-se a questão filosófica da verdade do Maléfico, do transcendente pagão como ramo da psiquiatria.
Lendo a explicação técnica percebe-se que a coloração muito contrastada resulta da junção de uma película de baixíssima sensaibilidade a um excesso de iluminação dos décors. Tipicamente alemães, aliás, bizarros.
O filme, rodado em 1976, seduz para além da história. É o mesmo com a excelente literatura: a narrativa é um incidente.
À saída um jovem dizia: «há uma cena que está cortada». Explicava qual. Fiquei fascinado. Em 1976 ninguém sonhava que ele viria a existir.

A Ilha de Moraes, de Paulo Rocha



Entre 1975 e 1983 o cineasta Paulo Rocha foi adido cultural na Embaixada de Portugal em Tóquio. Não sabia. Estudou a obra de Wenceslau de Morais, o que foi tema  em 1982 da sua longa metragem A Ilha dos Amores, em que Rocha protagoniza Camilo Pessanha e Luís Miguel Cintra o próprio Wenceslau. Ainda tentarei ver.
Vi sim este fim de tarde na Cinemateca Portuguesa um documentário seu que aproveita o trabalho de base desse estudo: A Ilha de Moraes. Foi produzido em 1983. São basicamente conversas sobre o biografado, em Macau, primeiro, no Japão, depois, seguindo a ordem da sua vida. Paulo Rocha fala japonês com fluência, a côr local torna-se mais vincada.
Cinematograficamente quase não há técnica. Sem efeitos, a câmara frequentemente imóvel, como se preguiçosa a escutar a narrativa, há momentos de alguma monotonia. Além disso a qualidade da imagem é pobre, o som ténue.
Verdadeiramente o filme não capta a essência da sensibilidade de Moraes, se bem que perpasse por ele uma devoção permanente. Mas cumpre a sua função. Ao chegar a casa tenho comigo o Bon-Odori em Tokushima, o livro do último dos lugares onde Moraes viveu, depois de ter renunciado a tudo quanto o ligasse a Portugal. Já o tinha lido e sublinhado, agora quero lê-lo uma outra vez. É isso que nem sempre o bom cinema, o de substância e o que tem técnica, consegue: vontade de mais.
Oficial de Marinha, sobretudo escritor, Moraes é um português triste como tantos portugueses. Sofreu de uma insidiosa doença, a doença de quem ama. Morreu sozinho.

Os Meus Sentimentos, de Dulce Maria Cardoso



Quando conheci a escrita da Dulce Maria Cardoso já ela tinha ganho o prémio Acontece com o seu livro Campo de Sangue, mas eu li primeiro o que foi o seu segundo livro. Segui-lhe o conto que divulgou na revista do jornal Expresso, vivido num farol, em tons de azul, e o livro de contos que juntou esse a outros, o Até Nós. Do que li não gostei de muito pouco. É uma escrita notável. Os Meus Sentimentos magoa a alma, dói. Um livro belo, uma escrita que arrebata a mente. Faz perguntar onde viveu ela tanta vida.
Hoje vejo-a premiada pela Europa e a sua editora a reimprimir-lhe os livros. Fico contente, como aquele que tivesse dito «eu já sabia».
«Quando nos contam uma história ouvimos sempre outra», diz Violeta, de quem os homens riam, mesmo quando lhe gozavam o corpo, apoucando-a, «uma mulher tão gorda, tão gorda que quando caía da cama caía para os dois lados», Violeta que se esvai em agonia, porque ao fim de uma vida «apanhámos o hábito de nos magoarmos» e «os moribundos são mansos que o desespero é coisa de vivos».
Um dia estive em Urbino e encontrei-a, traduzida em italiano. Eu sabia, Violeta «um nome de uma flor que também é uma cor».
Agora é uma questão de tempo e o rancor da crítica ser inferior à inveja dos outros escritores.

Fears, por Zero Mostel


A constipação a ir-se, posso, enfim, rir. Tudo começa quando se sente o nariz preso, como entalado por um livro de rija lombada. Surge o mal estar e surgem os medos. Querem ver como? Espreitem aqui, já agora até ao fim. Boa noite e amanhã há mais.
P. S: A propósito de Zero Mostel: foi em 1977 o grande actor de The Front de Martin Ritt, com Woody Allen.Um filme de saltarem as lágrimas, de tristeza.Um filme contra a paranóia do macartismo, essa doença viral dos polícias da Arte.

A Metamorfose, de Franz Kafka



Baseado num estudo científico publicado na Psychological Science, a revista norte-americana Miller-McCune divulgou a ideia: a leitura de literatura absurda estimula a mente.
O exemplo é o mesmo que serve de gag a um momento do filme de Mel Brooks que em português teve como absurdo título Por favor não mexam nas velhinhas e que no original se chamou The Producers: um texto de Franz Kafka.
Sabe-se que Brooks deu à cena a história de um produtor teatral, Max Bialystock, que consegue evitar a falência lançando uma peça que julga ser um fracasso garantido, o que lhe permitirá lucrar com o dinheiro das suas anciãs financiadoras que, assim, não terá de remunerar. O guião escolhido acabará por ser o escrito por um nazi refugiado na América, criatura meia tresloucada, ainda a sonhar com o regresso do seu Führer, vivendo numa mansarda miserável, entre pássaros e goles de schnaps: Springtime for Hitler. Mas há o momento em que, envoltos em manuscritos possíveis, entram pelas primeiras linhas de um livro de Kafka: «Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso insecto». «É bom demais», conclui o produtor, enfastiado, na tela o magnífico Zero Mostel. Lembrei-me hoje, da ideia da metmorfose e do fracasso garantido como causa de sucesso, altamente estimulantes, diga-se.

Tenho uma grande constipação, de Fernando Pessoa


«Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.

Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!

Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.

Excusez un peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e da aspirina.»

Saber Viver, da Baronesa X (Adelaide Bramão)



Abriu uma secção na revista Modas  Bordados, de Maria Lamas, a que chamou Vida Feminina. Depois dedicou-se à escrita doméstica e social. Um dos seus livros mais famosos chama-se Saber Viver. Em 1944 já ia na 5ª edição. Como o esclarece o sub-título, são «regras de etiqueta». Assinava como Baronesa X. Chamava-se Adelaide Bramão, mulher de Alberto Allen Pereira de Sequeira Bramão.
Há um perfume de aristocracia como toque de finesse: «A Condessa de Marval atravessava, vagarosamente os salões, para se certificar de que tudo estava em ordem. Recebia nessa tarde as suas amigas. As festas que dava tinham sempre um cunho de distinção, presididas pela sua alta competência de requintada artista, a que juntava ainda as grandes qualidades intelectuais», assim abre o capítulo intititulado «um chá de tarde, preparativos para a festa».
Sob a forma de um diálogo romanceado, citando, entre tantos, Lamartine e Montaigne, são conselhos para saber estar. Um homem não deve entregar a uma senhora um bilhete de visita que indique o seu título social; «esses são reservados para as relações entre homens», ensina a Baronesa que, na quinta edição viu o texto ajustado em «um ou outro ponto em que a instabilidade social modificou esta ou aquela forma de cortesia».

A arte de não fazer nada



São verdadeiros actos de amor e de dedicação, quase um serviço público. Claro que muitas vezes são «picados», os seus textos, as imagens que editam, pura e simplesmente copiados sem ao menos a gentileza de uma menção. Conhecia os Dias que Voam, agora outro chamado Ilustração Portuguesa que me remeteu para um terceiro, o Artistas Portugueses. Publicam material antigo que anda muitas vezes pelos esconsos dos alfarrabistas, que os herdeiros jogam fora, com desprezo, ao esvaziar as casas vazias de quem os coleccionou. Num deles encontrei esta Crónica Feminina de 1964, dedicada à magnífica arte de não fazer nada.

Portugal, que futuro? de Medina Carreira


Medina Carreira publicou um livro. O livro traz na capa o seu nome e também o de Eduardo Dâmaso, que é director-adjunto do jornal Correio da Manhã, porque depois da introdução, escrita pelo primeiro, seguem entrevistas, em que o segundo formula as perguntas, rematando com um texto final.
Claro que as perguntas são extensas, por vezes reflexivas, mas, vistas as respostas, ficam aquém. O entrevistado tem esse condão. «Arrasa» como titulava um blog a propósito de uma sua prestação televisiva em que chegou a pedir ao jornalista que não fizesse de papagaio do senso somum e do discurso do costume. Aqui também o entrevistador não resiste: partiu com optimismo termina a confessar o seu acabrunhamento e a falar de António Guterres e o seu PS.
Refiro isto do título do livro porque antigamente havia no jornalismo uma regra de ouro: entrevistador apagava-se para sobressair o entrevistado; permitir-se pôr as iniciais a assinar a entrevista já era um destaque, ser fotografado ao lado daquele com quem conversava, uma honra. Agora chega-se a ponto em que a entrevista é uma forma de ventriloquismo, em que o perguntado confirma ou é desfeiteado se ousa desmentir.
Talvez esteja a ser injusto, generalizando. Ainda só olhei de soslaio para o livro de Medina Carreira. Chama-se «Portugal, que futuro». Lembra «Portugal e o Futuro», um livro que revolucionou o país. Foi escrito pelo general António de Spínola. Vou ler.

Alcateia, de Carlos de Oliveira

O que leva um autor a renegar um livro? Carlos de Oliveira escreveu o Alcateia em 1944. Retirou-o o do mercado. Em 1945 reeditou-o. Mas no final considerou que o livro não deveria integrar a sua obra. A Assírio & Alvim não lho editou quando foi paulatinamente dando à estampa o seu acervo. A Caminho, quando condensou tudo num só volume, também não.
Encontrei-o, ao livro proscrito, num alfarrabista, em segunda edição, na colecção Novos Prosadores da Coimbra Editora.
É um livro de sangue e morte e luta. «Se choro, é com raiva de não poder matá-lo outra vez», diz Leandro depois de ter mandado o Lourenção para o Inferno, esse «desgraçador maldito» que lhe apoucara a filha. Curioso por lembrar-me o Assis Pacheco e o seu Benito Prada.
Li pouco ainda. Vou na parte em que o povo se barrica na casa desse predador sem escrúpulo nem arrependimento, para que não caia nas mãos do Estado e se devolva aos roubados o que a usura do salafrário lhes roubou. Chega a Guarda e seus fuzis e o Administrador chega fogo ao local da barricada. Fogem como ratos, bravios, à cava.
Pobre livro, enjeitado.Recebo-o como a um órfão, tirado da roda dos expostos ou salvo dos lobos numa mata de urzes.
São maus os autores quando exigem e não perdoam. Perdem o tino do critério e afogam os filhos como gatos numa bacia, perdida a piedade humana e a capacidade de os amar.

Odisseia, traduzida por T. E. Lawrence


Às vezes fica a ideia de que a leitura é o privilégio dos ociosos, o entretém dos desocupados, um luxo para os que podem. Quando uma pessoa se esfalfa um dia a trabalhar, mesmo que o seu trabalho seja ler, há o balanço do fim do dia. Os olhos estão cansados mas a alma anseia. Claro que intervalamos para alimentar o corpo, ainda que seja uma sopa; naturalmente que animamos o cérebro, nem que seja com comprimidos ou álcool ou cigarros. Quanto ao espírito esse definha, esfomeado.Às vezes fica a ideia de que a leitura é um além que castiga os Sísifos deste mundo, rolando calhaus de deveres por escarpas de obrigações, as mãos esfoladas, a multidão insatisfeita, o cume inatingível, o sopé certo da constante montanha.Talvez ainda leia qualquer coisa antes de ir para a cama, pensa ele, nem que seja o prazo de validade de algum iogurte que sobeje.
T. E. Lawrence, mais conhecido como Lawrence da Arábia, traduziu a Odisseia de Homero no tempo livre enquanto oficial da Royal Air Force. Assim o revelou Sir Maurice Bowra no prefácio à edição de bolso, em oitavo, editada pela Oxford University Press que, há uns anos, trouxe de uma estadia em Inglaterra. Tinha terminado Os Sete Pilares da Sabedoria.Estava esgotado. Mas era «um inexorável homem das letras». É assim que eles se conhecem, inexoravelmente.

Julieta Monginho

Gosto de livros mas por vezes é difícil ler publicações que falam de livros.Acontece comprar, abrir uma página, ler umas linhas e ficar só isso. Aconteceu com este número do JL, como sucede frequentemente com o JL. Desta vez ficou-me a 'autobiografia' da Julieta Monginho, na última página do jornal e dela uma frase solta. «Tudo se consumou, tudo se consumiu», escreve, pensando no tempo em que chegou aos trinta anos, o tempo dos balanços. É uma crónica de vida, a quem chamou 'Cidades Habitadas', a síntese de um pai e de uma mãe e de uma história que começou em Verona, por alturas de 1956. O tempo dos amores.

Karl Marx, de Jorge de Sena

Na minha geração o marxismo era a Bíblia. De um dos meus colegas dizia-se que tinha deixado o Das Kapital no seu veloz Porsche, onde a PIDE o apreendera. A esmagadora maioria ia então para a Faculdade a pé. Nessa figuração absurda de um dos dos livros que revolucionou o mundo estar perdido, por displicência, num excepcional automóvel de um abastado estudante, estava contida a semente da contradição do que viríamos a ser quando adultos. A burguesia vive destes insólitos, frutos da crise de crescimento do que são, afinal, os seus filhos pródigos. Mas, enfim, penso que nem ele, patrício, que nos tolerava, nem nós, plebeus, que o desprezávamos, tínhamos lido esse livro monumental, livro publicado que era parte de um livro escrito, livro escrito que era parte de um livro pensado, uma infinita escrita surgida no moto continuum de uma forforescente mente genial.
Karl Marx, em Londres, indissociavemente com Friederich Engels foi um dos mais potentes pensadores de todos os séculos. Escreveu uma crítica à economia política, ao papel redutor do economicismo, em revolta aberta contra a leitura que o bolchevismo faria de si.
Revi isso tudo agora, porque um taxista amável me avisou que havia problemas com o trânsito por causa do enterro de um escritor. Não era enterro mas trasladação, que é uma forma de exumar nas consciência o que o esquecimento sepultou. Mas era escritor, Jorge de Sena. Este seu estudo sobre Marx descobri-o ao ter lido o que escreveu sobre Maquiavel, o genial florentino. Estão os dois estudos num livro da Cotovia, de má tipografia, com as linhas a emaranharem-se para poupar papel. Comprei-o outro dia.
A primeira edição de O Capital, alemã, tem 780 páginas, dedicadas ao processo de produção do capital. Falecido o autor, em 1883, Engels compilou-lhe, nesse ano, o segundo livro, de 500 páginas, sobre o processo de circulação do capital e no ano seguinte as 870 páginas do livro sobre o processo de produção capitalista. Caberia a Karl Kautsky, o renegado Kautsky segundo Lénine, completar a obra em três volumes do que seria um Livro IV, com 480, 380, e 600 páginas. «A metro cúbico de papel» dizia Marx numa carta a Engels, porque é assim que os alemães gostam.
Doutorado em filosofia pela Universidade de Iena, com uma tese sobre a filosofia da Natureza em Demócrito e Epicuro, Marx viveu em Trier. Visitei-lhe aí a casa sombria e inóspita. Revisitei-no no Museu Britânico este Verão, para onde se mudou em 1848. Nesse ano Engels escrevera o Manifesto Comunista. «Proletários de todos os países, uni-vos!». O livro tornava-se o motor da História.

O Camarareiro, de Ronald Harwood

Um actor que regressa representa um actor que termina. Ruy de Carvalho é Sir Donald Wolfit. A história do intérprete e a da personagem são uma e a mesma, a da agonia do desejo, a decadência do sucesso, o dever esgotante, a biografia da grandeza efémera e da solitária incompreensão.
Encenada por João Mota, a peça surge nos bastidores de uma representação do Rei Lear de William Shakespeare, em tempos de Blitz, em Londres, as bombas da Luftwaffe a serem a possível noite de tempestade. Pela 227ª vez o actor tem de se soerguer do desespero, do cansaço, da inquietação, encontrar em si forças e nos outros amparo para que o pano suba e as ribaltas o projectem à noite das estrelas. Restam-lhe sobejos, remedeios de gente, a piedade cruel feita companheira. E o Camareiro, fiel na humilhação, secreto nos sentimentos, nele a servidão é a única forma de expressar amor.
A cena de tempestade é na concepção do genial dramaturgo inglês o momento da inquietação e da loucura, da raiva e da revolta, os elementos e a alma em fúria.Wolfit pela última vez vocifera contra o que é vida e a existência: «Rumble thy bellyful! Spit, fire! spout, rain! Nor rain, wind, thunder, fire, are my daughters:I tax not you, you elements, with unkindness;I never gave you kingdom, call'd you children...»
Fui ao Dona Maria, aplaudir de pé. John Runciman pintou-a a essa cena do ódio. É esta que os vossos olhos contemplam, o humano rei sumido ante a magnitude imperial da Natureza tresloucada. À saída um amigo meu perguntou-me se tinha gostado do Virgílio Castelo. Disse sim. Era ele o camareiro.

Quando eu nasci, de José Régio

Ler é bom. Ler salva e cura e alimenta doenças do espírito. É uma terapia da alma. Ler não é uma alternativa a não ter companhia, ler é a possibilidade de encontrar todas as possíveis companhias. Na esplanada ela refugiava-se num livro como por detrás de uns óculos escuros. Foi por causa desse livro que ele se atreveu a querê-la. Desfolharam-se então, percorrendo-se o abismo de todas as linhas, saltando parágrafos, abraçando capítulos até ao final feliz.
Ler não é uma forma de se viver, ler é nascer todos os dias. «Quando eu nasci, ficou tudo como estava, Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais.. Somente, esquecida das dores, a minha Mãe sorriu e agradeceu». O poema é de José Régio-

Bilhetes de Colares, de José Cutileiro

Recomendo quando estiver mal com o dia, por estar calor ou ainda não ter chegado o frio, ou por apetecer que mude o tempo. Recomendo quando quiser sentir um toque de classe a meio da tarde vulgar e um gole de categoria ao anoitecer a banalidade. Indispensável para gozar de um intervalo de ironia para com o excesso de importância que alguns se dão ou para se rir de si próprio.
São os Bilhetes de Colares, assinados por A. B. Kotter, pseudónimo do Embaixador José Cutileiro.Começaram a publicar-se no jornal A Tarde, em 1982, depois no Espaço T, de seguida no Semanário até 1991. Em 1993 ressurgiam na Visão em 1993 e entre 1997 e 1998 na revista de O Independente.
Fantasiando sobre a verdade, Freddy Kotter faz-se o convidado pelo Dr. Vítor da Cunha Rego para escrever uma crónicas sobre os portugueses. Uma crónica em «que diga mal de uns» para agradar aos outros, porque assim, com uma crónica por semana «ao fim de um ano conseguiste dizer mal de toda a gente e toda a gente ficou a gostar de ti». Naturalmente, como tem sucedido com os que fizeram da calúnia meio, do escárnio forma e tudo isso instrumento de uma carreira de sucesso.
Hoje em livro, é um desfilar de personagens inesquecíveis: a Mãe, um vulcão sentimental que, à força de bengala, destesta pobres, galarotes e parvenus, o senhor J. Fonseca, militar amanuense, o Lowater filósofo, a Fatimazinha e a Margarida, cuja tia cozinheira, aos noventas anos, desinteressada de paladares, já só comia «escorcioneira e a papa das radiografias ao estômago», e o Carlinhos, cuja maluquice «é uma gota de água na maluquice do mundo», todos nos contrafortes de Sintra, pela Várzea, em Colares, na Beldroega, um saltada por Cascais e pelos Estoris, entre o Daily Telegraph, a BBC e o Anglo-Portuguese News.
Claro que a fiel Margarida «tem instruções firmes para não deixar jornais portugueses aos olhos da Mãe sempre que haja crises políticas em Portugal», porque a senhora, com noventa anos, ferveria em pouca água, Resultado, Madame tem de ter, de vez em quando, algumas explicações, não vá fazer gaffes em sociedade. «Com um faro especial, sente que deve ter havido crise e pergunta, desconfiada: "Então, o Salazar ainda é o mesmo?". "Não, Mãe", respondo eu. "O Salazar agora é o Dr. Balsemão".
Impagável de excelência! Claro que lhe explicam também que é hoje o Carmona. E passa-se para a crónica seguinte, o dia a melhorar.

Livraria Universo

Era um livreiro em dia triste, porque não se pode estar feliz quando há cada vez menos pessoas a ler. E tinha sido já editor. E é amigo de escritores. E teima em querer fazer amizade com leitores.
A sua livraria é dos livros que ele quer, não dos livros que os distribuidores acham que ele deve vender. Quanto ao que não tem, outros que tenham.
Hoje, a força das coisas trouxe-lhe uma inesperada visista. Vinte anos depois. Ela encontraria, surpresa, o próprio pai, numa fotografia amarelecida exposta ali com o carinho de uma memória estimada, ele encontrava, embaraçado, o Espírito que, como uma língua de fogo, o animava a viver.
«Coragem» diria ela, alma boa, desejosa de ajudar, animando-o. Atrapalhado ser, o seu coração descompassou, esperançado.
Talvez aguente mais uns tempos. Da próxima vez que voltar a Setúbal vou visitá-lo. Digo a todos que o visitem e lhe comprem livros. Há surpresas naquele pequeno lugar. Ontem estava lá, a espreitar-me, uma edição das primeiras da Aparição, ainda saída pela Portugália, no tempo em que os editores amavam livros. «O seu pai vinha muito aqui». Eu e a filha passaremos a ir também.

The Old Man and the Sea, de Ernest Hemingway

De que é que uma pessoa se lembra de um livro quando não tem o livro consigo? Que histórias ficam quando o livro conta uma história, que pensamentos restam quando se sublinharam nele momentos em que se parou para reflectir? Que nomes de personagens que nos sejam familiares, que lugares referidos mesmo quando são conhecidos?
Recorda-se de um livro uma descrição que tenha impressionado como a de um instante da vida ou de um recanto da terra, a de um fantasioso sonho ou de um improvável pesadelo? Transmite-se de um livro para o seu leitor um sentimento, uma convicção, um credo? Fica um livro como uma recordação de um momento vivido, como uma nostalgia de não nos conseguirmos recordar, mesmo quando foi bom?
Conseguirá um livro fazer-nos dizer que está tudo lido como uma morte que nos diga que tudo já foi vivido?
Esta madrugada acordei a pensar em O Velho e o Mar do Hemingway. O livro não tem história nem lugar nem tempo nem modo. É um enorme intervalo de silêncio. Fala de um homem e um peixe e entre eles a infinita espera que gera a eternidade do amor. Meter no meio de tudo isto o Prémio Nobel da Literatura é um ridículo que só insulta aquele prolongado instante em que o belo se chama paz. Apenas isto e mais o sol, a lenta caminhada para a depredação total, o clímax em que apenas a agonia é memória, a pescaria lenda. Foi escrito em Cuba, em 1951. Tenho-o, mas não aqui. Li-o em busca desse improvável momento final, até perceber que nele cada momento é o começo de si próprio, a perseverança o motor da grandeza monótona de uma longa espera sem esperança.

Casa da Achada, de Mário Dionísio

Quando eu tinha muitos blogs e escrevia com o meu próprio nome tinha a angústia dos dias em que não escrevia como se tivesse sucedido ter deixado de viver. E depois quando escrevia fazia-o sempre como se fosse outro e quem lia porfiava em imaginar que tinha sido eu.
Um dia vim para aqui deixar que a escita surgisse quando houvesse vontade e mesmo que ela não tivesse que ser mais do que um caderno de um qualquer leitor.
Li na revista Ler que, lutando contra o esquecimento, a família de Mário Dionísio teima em seguir, mesmo sem apoios, com a Casa da Achada, tornando público o espólio deste homem extraordinário nas letras e nas artes, se é que a diferença existe. Vim aqui deixar a notícia, como um repórter chegando à redacção, depois de um dia na rua, a chover, à procura de uma local, a edição a fechar.
Talvez isto seja o meu jornal. Fazê-lo tornou-se um vício diário, como se dizia da velha Capital. Por definição, aliás, jornal é aquilo que sai sempre.
Estão a renascer-me velhos tiques: dia em que não escrevo vivo mal, dia em que não leio é como se tivesse morrido. Qualquer dia escrevo com barbatanas de plástico, latas velhas esquecidas...

Erros e enredos


«Há pouco, na TVI24, otómano em vez de otomano e Capadoce em vez de Capadócia.Hospitaleiros em vez de Hospitalários. Num documentário sobre hotéis e afins». «Há pouco, na SICN, legendavam a expressão “sangrar-se em saúde” proferida por Marcelo Rebelo de Sousa, assim: “sangrar sem saúde”.
É uma sangria ao cérebro!». Cito do magnífico blog Gasolim Ultramarino. Um nome insólito, um local incomum.

Revolutionary Road, de Sam Mendes

Pode falar-se de um filme como quem fala de um livro. Um filme, é claro, vê-se, mas também se lê, desfolhando as cenas como se fossem páginas, sublinhando excertos. Revolutionary Road é um filme sobre os limites da ilusão, a força do conformismo. A contradição e o absurdo surgem através da boca de um louco, as suas palavras são a violência do embaraço ante o ridículo dos lugares comuns. Filme americano, claro, nisso convencional, fantasia Paris como o lugar do idílio. Mas não é essa a história. Independentemente do que conta - e nos livros a história é por vezes um pormenor - interessa pelo que sugere. A mediocridade mata, raramente o medíocre que sujeita o outro a vivê-la.

Google books

Cada vez mais o acto de ler livros se torna longínquo. O Jorge Luis Borges dizia que não lia jornais precisamente porque eram escritos para serem esquecidos no dia seguinte. Agora com o espaço virtual começa a ser passado a sensação de sentir o papel arenoso e áspero na ponta dos dedos, a capa dura a dar segurança na mão sobre a solidez do escrito, o saco à saída da livraria a pesar no braço, o doer-nos o pescoço ao ler na cama.
É que há o Google que vai ao interior dos livros, pesquisando-os para o pequeno écran. Claro que com erros de risota. Leia este artigo e sorria. «To take Google's word for it, 1899 was a literary annus mirabilis, which saw the publication of Raymond Chandler's Killer in the Rain, The Portable Dorothy Parker, André Malraux's La Condition Humaine, Stephen King's Christine, The Complete Shorter Fiction of Virginia Woolf, Raymond Williams's Culture and Society 1780-1950, and Robert Shelton's biography of Bob Dylan, to name just a few».

Synecdoche, de Charlie Kaufman

É um filme, mas podia ser uma peça de teatro, é uma peça de teatro e simultâneamente um filme mas podia ser um extraordinário livro. As salas de cinema estão ralas de espectadores, porque o título não atrai, porque a narrativa é complexa, os planos temporais cruzando-se, confundem, os sentimentos em volteio constante maltratam, os pontos em que se devia parar para pensar a multiplicarem-se diante dos olhos e o espectador comum hoje quer diversão cómoda.
O filme foi realizado por quem é um escritor, como se vê aqui.
«À medida que conhecemos as pessoas elas desiludem-nos» diz uma das principais personagens; à medida que se vê este filme ele hipnotiza-nos.
A grandeza do cenário lembra O Processo encenado por Orson Welles. «Cada pessoa, dos milhões que povoam o mundo não é um figurante, mas um protagonista da sua própria história». É esta a sinédoque, o falar-se da parte querendo-se referir o todo.
Se não viu o filme, corra para ir vê-lo. Se já o viu volte a vê-lo porque, afinal, não o tinha visto.

As Velas Ardem Até Ao Fim, de Sándor Márai

É verdade. Não tenho a preocupação de ler novidades, nem a angústia de ter lido pouco, nem o fetiche das primeiras edições. Concluo muitas vezes que o que li agora li-o na altura certa. A vida encarregou-se de criar o tempo para o espaço que um livro ocupa nos nossos sentimentos. É verdade. Li As Velas Ardem Até Ao Fim de Sándor Márai há alguns meses. Voltei hoje ao livro. Reli o que tinha sublinhado e lembrei-me, talvez a despropósito do Robert Musil. Talvez por a personagem ser um general e haver reminiscências militares na obra do magnífico austríaco. Mas não era isso que eu vinha aqui dizer. É que me impressionou, presente em toda a narrativa a solenidade do silêncio, «o mesmo silêncio que reina dentro de uma bomba-relógio minutos antes de explodir». Foi-se o tempo da música de Chopin, a encher salões, ficou agora o ódio à música, à sua incompreensibilidade, ao tocar muito de perto «como uma agressão física», tão dolorosa como um dever. «No colégio não falavam de música. Preceptores e alunos limitavam-se a tolerá-la e a perdoá-la».

L'été, de Albert Camus

Longe da solidão populosa das cidades da Europa, em 1939, em Oran, na Argélia, Albert Camus escreve. Um ensaio sobre os lugares sem poesia, em que as amendoeiras florescem, inesperadas, numa certa noite fria de Fevereiro e com elas a renovação prometida da beleza. Cidade sonâmbula e frenética, apetecida por um sol devorador que a calcina, pulvurenta, marítima. Capital do aborrecimento, o lugar do Minotauro, em que Atlas aguarda apenas a sua hora.
Há na potente escrita de Camus a presença sensível da luz e da cor, do odor de tudo quanto é humano, de tudo o que é a Natureza. Sente-se, trágico, o deserto a entranhar-se na alma e com ele o absoluto e o nada infinitos e por isso um mesmo ser.
Obstinados, o mar e as pedras prosseguem ali o seu diálogo de milénios, indiferentes ao irrequietismo pobre dos miseráveis humanos.
Voltando a este seu escrito de juventude, o autor de O Estrangeiro escreverá em 1953: Oran já não precisa de escritores; aguarda a chegada de turistas.

Cartas, de António Botto


Será que a palavra desgraçado ofende se aplicada a uma pessoa? E é lógica pensando em António Botto?
Sabe-se que nele a pederastia foi uma estrela amarela ao peito, pretexto para a infâmia. Além disso tinha contra si a diminuição estatutária da linhagem, o pai fragateiro, da origem, no Casal da Concavada, do emprego, ajudante de livraria primeiro e funcionário amanuense.
Sena o crónico maldizente pintou-lhe a personalidade como tinginda de «megalomania mórbida e destituída candidamente de escrúpulos».
Os seus livros foram cremados no Governo Civil. Os militantes da Ordem Nova, Marcello Caetano e Pedro Teotónio Pereira congratularam-se então com o facto.
Escrevendo à memória de Fernando Pessoa, Botto ironiza o lamento: «Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses/Voltávamos à mesma: Tu lá onde/Os astros e as divinas madrugadas/Noivam na luz eterna de um sorriso;/E eu, por aqui, vadio da descrença/Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...».
Em 1932 Botto publicou o volume Cartas Que Me Foram Devolvidas. Em estudo sobre a sua obra José Régio diria: «Em quase toda a nossa poesia amorosa, o amor aparece sobretudo como um entusiasmo do coração e um enlevo da alma (...). Ora leia-se alguns dos mais característicos poemas de António Botto: Quando muito, revela-se neles um enlevo do corpo. A carne dá-se e pede avidamente. Mas a alma reserva-se. E a cabeça interroga, espia, analisa, debruça-se sobre o coração».
Claro que uma tal poética traria dissabores. A substanciação do amor é a grande ousadia para o espírito enamorado. Ainda hoje.

O criador e a criatura

Durante uns anos escrevi assinando com o meu próprio nome. Vários blogs. Chegou a ser facto notado o serem muitos. Respondi várias vezes quanto a saber como tinha tempo para tantos, pergunta feita por quem não notava que havia dias em que não escrevia nalgum deles. Arrumei esses blogs, recortando o que em jornalismo seria o lead de cada post.
Um dia decidi parar. Fiz disso uma questão de honra, para não me deixar tentar pelo desejo de regresso: não mais haveria exposição pública sob o meu próprio nome.
Criei entretanto um blog que corre sob um nome literário: este. O seu título junta um dos meus nomes próprios ao meu apelido materno. É apenas um aparente pseudónimo.
Qual a diferença, perguntei-me já? Significativa. Até aqui, assinando com o meu nome, era possível dizer-se: ele é aquilo que escreve. Sendo outro o nome do autor, vale a escrita pelo que significa em si. Foi-se a pessoalização. Não mais será legítimo dizer-se que está triste quem escreve sobre tristeza, contente o que escreve alegremente.
Os voyeurs, os que fazem da fulanização método, desapontados, dirão que isto é um artifício. Talvez seja. Mas não é uma manobra artificiosa. Quando assinava com o meu próprio nome cada blog era também uma pessoa diferente a escrever. Chegámos a ser muitos. Cansei-me deles.
Hoje o Eduardo Pitta teve a gentileza de uma referência, aqui, mostrando quem é o criador do António Rebelo da Silva. Digo bem, o criador não a criatura. Obrigado pela amablidade.

Lénine e o Museu Britânico

Em Abril de 1902 usando o pseudónimo de Jacob Richter, um dos que se servia para iludir as autoridades tsaristas simultaneamente com o de Lénine, o advogado Vladimir Illitch Oulianoff, motor teórico da revolução soviética, estudou na Biblioteca do Museu Britânico. Foi a sua casa de trabalho, o seu escritório. Deixou ali a sua pegada. Ainda cheguei a conhecê-la, com a sua sóbria beleza. Agora poderia fazê-lo a partir de São Pertersburgo, ou da Finlândia, de onde partiu num comboio selado, artilhado com dinheiro alemão, para lançar a revolução bolchevique. Chega-se lá on line. Dir-se-ia o mundo literário ao alcance de qualquer PC.

The End of the Affair, de Graham Greene

Em 1941 o escritor Graham Greene trabalhou nos serviços secretos britânicos, na Secção V do MI6, colocado no departamento português do desk ibérico, sob as ordens de «Kim» Philby. Philby revelar-se-ia, com escândalo, uma «toupeira» do KGB. Tendo escapado para a União Soviética escreveria dali um livro de memórias intitulado My Silent War, que em Portugal foi editado pela Bertrand com o título erróneo de A Guerra do Silêncio. Greene escreveu o texto de apresentação e nele fez constar uma frase que se tornou notória: quantos de nós traímos algo de bem mais importante do que um país.
The End of the Affair é a magnífica narrativa dessa problemática, da fidelidade a um amor, a uma crença, a uma religião. O livro está dedicado a «C» mas sob esta letra consegue-se reconstituir o nome de Catherine Waltson, um dos muitos amores adúlteros do escritor. A edição americana menciona mesmo «para Catherine».
Catherine Compton Walston era mulher de um homem de negócios britânico. Uma manhã, em 1946, o seu avião particular aterra perto da casa do escritor. Tímida Vivienne Greene recebe-a, na ausência do marido. A visita traz um inesperado pedido. Americana de origem, decidira converter-se ao catolicismo e pretende que o autor de The Lawless Roads seja o seu padrinho de baptismo. Um ano depois, padrinho e afilhada envolvem-se num relacionamento que traria assim, pela natureza do sacramento que os une, um travo incestuoso.
Sexo clandestino, a princípio, aquele que os atrai, recebe, para o dissimular, um nome de código, que ambos combinam como o santo e a senha para os encontros íntimos: «onions». No romance o encontro amoroso entre Sarah e Maurice começara com um jantar de bife de cebolada.
União decadente, esta dava ao escritor a possibilidade de ver realizadas as suas mais negras fantasias. Com ela se transpuseram os limites do convencional. Odisseias inconfessáveis foram então atingidas entre ambos. Em 1950, estando Greene em Veneza a filmar The Stranger's Hand tê-la-á feito acompanhá-lo a um bordel, vestida de homem e caracterizada como tal, ambos com um amigo comum, que relataria quanto ela «gozara como um homem» o que ali se podia fruir. Sexo insano e demencial mas profundo amor, terminaria em 1948. «Uma história não tem começo nem fim», assim começa o livro. Eis a narrativa da intemporalidade.

Os dias loucos do PREC

Em Outubro de 1975 o então Conselheiro da Revolução Canto e Castro definia Portugal de então como um «manicómio em auto-gestão». A 19 de Outubro, um domingo, o Sindicato dos Trabalhadores da Panificação definia: qualquer que seja a linha política governamental, os operários da panificação deixavam de trabalhar de noite.
Daí que, noticiava a imprensa, papos secos ao pequeno almoço era coisa que deixaria de haver. «Quem está interessado no trabalho nocturno? São aqueles que se aproveitam da escuridão da noite para poder livremente roubar ao peso do pão e falisificar as farinhas que nele são utilizadas», era o argumento utilizado pela comissão de trabalhadores em luta.
Leio isto no livro Os Dias Loucos do PREC, de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, editado pelos jornais Expresso e Público, em Abril de 2006. Leio e lembro-me de ter visto alguém comentar então com humor o que era afinal o leitmotiv dos padeiros: «queremos dormir com as nossas carcaças! Ora aí está uma razão mais do que legítima, revolucionária ou não! Mesmo nos anos loucos do «processo revolucionário em curso», que triunfe o amor sobre o pão nosso de cada dia. Ri-te, ri-te, riri.

Teoremas de Filosofia

Ao arrumar livros, ou melhor, ao continuar em arrumações, estive a ordená-los os Teoremas de Filosofia, de que se editaram doze cadernos, dirigidos por Joaquim Domingues e Pedro Sinde.
O último arquiva intervenções que tiveram lugar em Sesimbra, nos primeiros dias de Março de 2005, em torno do colóquio A Filosofia Portuguesa de Álvaro Ribeiro. Folheei o texto inicial, a conferência de António Telmo, para recordar um excerto que me tinha trazido a alegria breve de um riso. Refere-se a Álvaro como «(com Agostinho da Silva) o mais notável discípulo de Leonardo Coimbra». Na verdade aquele no seu livro Memórias de um Letrado, saído em três pequenos tomos, pela Guimarães, já havia confiado esse sonho de vir a ser assistente do autor de A Rússia de Hoje, o Homem de Sempre. Mas tudo começou num exame, o último do Curso de Letras da entretanto extinta Faculdade de Letras do Porto. Do júri fazia parte Leonardo. Conta Telmo: «Durante o interrogatório feito por Leonardo Coimbra o jovem estudante praticamente pouco disse. Não encontrava as palavras para o seu pensamento, hesitava, tartamudeava, fazia gestos». Terminado o exame, faltava a nota. Os três professores conferenciaram. Dois sugeriam uma negativa. Leonardo propôs: «vinte valores!». Claro que a ideia daria brado. «Vinte valores!, exclamaram eles. - Mas o rapaz não disse praticamente nada!». Mas Leonardo Coimbra tinha uma razão: «Não disse com palavras! E então os gestos?».
Á consideração dos espíritos superiores, já que, pelos vistos, o gesto é tudo.

O Borda d'Água de 2007

Ao arrumar estantes encontrei o Borda de Água de 2007, dirigido pelo Pedro Teixeira da Mota. Num dos cantos em que alberga conselhos úteis explica que para se dormir bem deve tirar-se o excesso de energia dentro da cabeça. Para tal aconselha o andar consciente dos budistas: sentir o pé que se levante, a perna que se move, o pé que assenta. O Borda d'Água tem isto de magnífico: ser um «reportório útil a toda a gente». É o que diz ser: o verdadeiro almanaque.

Borges, de Jason Wilson

Tenho uma biografia do Jorge Luís Borges, extensa, profunda, erudita, escrita por um professor de Oxford especialista em Cervantes, Edwin Williamson. Tenho outra feita com base em depoimentos da sua criada de mais de trinta anos, Epifania Uveda de Robledo. Acho que são ambas fundamentais. E tenho a fotobiografia que a Teorema traduziu, escrita por Alejandro Vaccaro onde estão rostos e expressões, tudo aprisionado para a posteridade, entorpecidos pela pose do instante. E sei que hoje há troupes que se digladiam em Buenos Aires pela posse da memória deste homem e uma viúva que se bate, herdeira, pelas edições do que o indefeso morto não quis que se reeditasse. E sei que é chic dizer-se agora à esquerda «sim, Borges» como ontem era politicamente correcto detestá-lo, porque era de direita.
Foi por isso um bem ter nas mãos a pequena biografia que Jason Wilson escreveu em 2006 e a editora Fio da Palavra Editores traduziu este ano. Por ser um livro inteligente.
Vou a meio e aprendi que, esgotado por pulsões inconsequentes, sempre apaixonado e desgraçado em amores, este homem soube ser uma realidade permanente independentemente da sua provisória pessoa. Viveu a vida através da literatura, antes de ser cego. Aconteceram-lhe muitas coisas, porque leu.
A sua vida exterior é monótona, as entrevistas repetitivas, não há biografia possível da aparência. Há a obra.
Uma vez, na rua, perguntaram-lhe se era Jorge Luís Borges. Irreverente, respondeu: «Às vezes». Naturalmente.
Há um passo do livro que me fez parar e pensar e vir escrever já aqui. «Cada momento que vivemos extingue todo o passado, ao mover-se para o futuro». Eis porque o budismo sabe que o passado é incerto. Verdadeiramente «Deus ainda não criou o mundo», escreveu na narrativa Os Teólogos, para o livro El Aleph. Saber isto é descobrir a existência, depois de termos julgado existir.

Eu e Elas, de Maria Archer

Quando em 1945 publicou o livro que hoje encontrei, Eu e Elas, apontamentos de romancista, Maria (Eyrolles Baltazar Moreira) Archer já tinha escrito catorze livros, mas confessava que ainda se via «embaraçada para escrever um romance». Uma enciclopédia literária, chamada não se percebe porquê, Literatura Portuguesa do Mundo, diz que os seus livros «abordaram com ousadia, na sociedade dos anos 30 e 40, o tema da dependência civil, económica e social da mulher (...)»; e que «devido a esta preocupação feminista e de crítica social foi forçada ao exílio no Brasil, em 1954». Confirma-se aqui.
Se é assim, este que leio tem uma tal leveza na ironia e subtileza na crítica que a autora parece insinuante parte da paisagem que descreve. São pequenas notas de observação social, em que abundam meninas casadoiras e viúvas passíveis de casamento, o mundo do «marido vantajoso», da «rapariga de boas famílias», o pano de cena das heranças e dos dotes e onde contracena o ser-se bonito, «bem» e o ter fortuna, para surpresa a inútil inteligência, tudo apoiado em criadas de servir e vivido por pessoas que se servem.
Na prosa de abertura duas senhoras de idade indefinida organizam-se para uma saída em diversão, buscando respeitável homem que atrelem. A alternativa, cruel porque dentro do possível, é que seja «o mais decorativo que se pode imaginar» ou «que nos pague os capilés». Encontrado cavalheiro, acaba por se imiscuir na cena «o Caril», coitado, indiano e milionário, que a juntar-se à mesa, envergonharia o possível aparelhado que encontraram, que na hora da conta, ó cruel vida, não teria correspondência em numerário à vista que fazia. Ódio a um mundo remediado!
Enfim, vinagre e veneno e calda açúcar. Num décor de serão, em que «aquelas senhora criava bobos com palavras e fazia das suas indefesas amigas os seus bobos de salão», alguém se sai com «um homem pode pensar o que quiser, conquanto que não o diga, e uma mulher pode dizer o que quiser, conquanto que não o pense».
O título de uma das crónicas «silogismo da crueldade feminina» talvez merecesse ter sido o nome do livro. Dentro de uma meia-hora acabo-o, ou ele comigo: «porque será que os portugueses me parecem mortos...mortos amáveis?», pergunta uma das personagens. Pois não sei. Talvez nas folhas que faltam venha a solução ou o enigma. Na página 104 estava uma pista: «os meus amigos já parecem gente pobre, de tal forma se civilizaram, se educaram, se apagaram no bom gosto e nas boas maneiras». Riam-se! Foi escrito em 5 de Março de 1943, chama-se Cocktail em Casa de Volframistas.

Andanças para a Liberdade, de Camilo Mortágua

Teria já acabado de o ler se não se tivesse intrometido outro pelo meio e mais os acontecimentos da vida e as obrigações do trabalho e as da manutenção do corpo, a exigirem, por exemplo, dormir. Vou na página 149 das Andanças para a Liberdade, de Camilo Mortágua. É o primeiro volume. Cobre o período de 1934-1961. Interessei-me por ele porque esteve no assalto ao Santa Maria. Confesso que saltei o período em que era pequenino. Faço quase sempre isso com as biografias, como se esse fosse um tempo sem interesse, uma preparação para o momento da vida em que a pessoa verdadeiramente nos interessa. Eu sei que isso é cruel, como se matássemos uma pessoa. Mas é verdade.
O livro é uma história de privações, de uma vida dorida, de um «remetido à condição dos que não contam», ferido pelo «estigma da não existência social». Cedo emigrante, logo na América do Sul, enfim na Venezuela. A política chegará mais tarde. Por enquanto Camilo esgota-se ainda na busca de trabalho, moço de taberna, padeiro, o que seja. É um livro de fome, de uma mais dolorosas fomes, a se viver. Tem 255 páginas. Foi editado pela Esfera do Caos.
Ri-me, por vezes. Em Caracas, os polícias corruptos multavam mesmo os desgraçados «porque sim». É assim mesmo que as coisas nos acontecem: «porque sim».

Bocage Maçon, de Jorge Morais

O livro é pequeno mas, sobretudo, lê-se bem; como dizia alguém, com humor, «deixa-se ler». Esgotei-lhe as páginas em dois fôlegos. Apoiado em sólida bibliografia não cansa com despautérios de exibição erudita. Está, sobretudo, bem escrito. Trata-se do Bocage Maçon, de Jorge Morais, jornalista e escritor, prefaciado por António Valdemar, da Academia das Ciências. Foi editado em 2007 pela Occidentalis. Na capa um óleo figurando o biografado, da colecção do falecido Pisany Burnay.
Essencialmente a obra toma como sólida a filiação maçónica do vate Sadino, irmão «Lucrécio» da loja Fortaleza e dá-nos conta dos poucos sucessos e muitos insucessos decorrentes dessa circunstância . Mas a partir deste território é um ensaio interessante da confluência do iluminismo,do jacobinismo e da influência dos pedreiros-livres na formação do pensamento de Portugal no século dezoito. Além disso, aborda algumas outras problemáticas teimosas da História da pedreiragem no nosso país como a filiação maçónica de Pombal, a execução de Gomes Freire de Andrade e a origem, afinal inglesa, do Grande Oriente antes de o francesismo ter ocupado os ritos e as ideias dos «filhos da viúva».
Perseguido pertinazmente pelo Intendente Inácio Pina Manique, Bocage acabaria «cativo por convicções» por ser julgado pelo Santo Ofício, ao Palácio de Estaus e condenado em 17 de Fevereiro de 1789 a...um curso de doutrinação no Mosteiro de São Bento, onde hoje doutrinam os deputados na Assembleia da República. Aí fica até 24 de Março protegido por um beneditino.
Já para o final da vida, em 1800, Manuel Maria trabalha, em troca de soldada regular, na Oficina Tipográfica, Calcográfica e Tipoplástica do Arco do Cego. Um ano depois está desempregado. Foi enterrado no dia 22 de Dezembro de 1805.

O Império, de Henrique Galvão

«Há dez anos - exactamente quando a Europa começava a debater-se entre as mais escuras dificuldades da desordem política e social - um Homem de raro equilíbrio e profundo saber, um Homem capaz de agir como órgão de acção e de pensar como órgão de ideias, restaura a vida portuguesa, desperta as virtudes adormecidas deste povo, refaz uma doutrina, reconstitui uma força e encaminha de novo Portugal para o cumprimento da sua Missão, no rumo glorioso da sua finalidade histórica: Salazar».
Quem escreveu este panegírico do Chefe? Num opúsculo editado pelo SPN, o Secretariado da Propaganda Nacional? Seguramente uma figura do regime, um seu prócere: Henrique Galvão! Uns anos depois a irrequieta criatura passar-se-ia para o outro lado e entraria na História ao liderar o assalto ao navio Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação. Conquistou assim direito à amnésia de alguns sobre esta parte antecedente da sua biografia.
Escritor prolífico, recolho na Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian a lista dos seus livros. Muitos sobre África. Bastantes bem escritos.
A volubilidade de carácter e a riqueza literária associam-se por vezes nesta língua dúctil e maleável, feita de condicionais e de pretéritos mais do que perfeitos.
É verdade: a citação pertence ao opúsculo, como disse, chamado O Império, sem data, mas talvez tirado em 1938.

A Tragédia do Glória Scott, de Arthur Connan Doyle

O que nos leva a ler um livro? Seguramente o tê-lo à mão.
Ora eu tenho a obra creio que completa em livros de bolso e dois belos tomos encadernados que um dia encontrei em Inglaterra e com que vim ajoujado quase a ter de pagar excesso de carga, a mala já carregada com outros livros. Mas devo ao facto de o Diário de Notícias estar a distribuir gratuitamente livrinhos com as histórias de Sherlock Holmes a possibilidade de o ter lido. Vinham com o jornal da manhã. Calhou esta tarde. A narrativa era breve, como todas, simples como é o estilo de (Sir) Arthur Conan Doyle, cuja complexidade espiritualista e filosófica não passa para a escrita. Acabei há minutos, aproveitando um intervalo, A Tragédia do Glória Scott: um juiz de paz perseguido pelos remorsos de um passado criminoso, de matança e roubo, recebe a visita da sua má consciência. O método dedutivo entra em acção e Watson escuta, da boca do próprio Holmes, os prodigiosos efeitos da inteligência. No meio da trama, surge, ao bom estilo de Edgar Poe, um misterioso bilhete, escrito em código: cada três palavras uma faz sentido. Saltando de três em três percebe-se a mensagem. Esotericamente está lá tudo.

O mocho

Escrevendo da Rua de Buarcos na Figueira da Foz, em 16 de Agosto de 1937, para José Régio, Vitorino Nemésio dava-lhe conta: «(...) eu, há três anos, não sou senhor de mim nem do meu tempo. Disponho dele a medo e sempre com remorsos de o não dar à preparação e cogitação dos meios de não ser esmagado pelos mochos universitários, em cuja companhia infelizmente me meti, e que alegam aos menos desconfiados que eu não sou inteiramente mocho - puro pretexto para me correrem do bando». Fui ler esta carta que vem na Obra Completa de Régio, que a Imprensa Nacional está a editar, talvez por não estar em férias.

L'Envers et l'Endroit, de Albert Camus

Durante vinte anos de vida como escritor recusou a reedição dos escritos de juventude. Ao prefaciar um deles, L'Envers et l' Endroit, para uma edição saída em 1958, dois anos antes do acidente de automóvel que o matou, Albert Camus concluía-o confessando que continuava a viver com a ideia de que a sua obra ainda não tinha começado. Tinha recebido o Prémio Nobel da Literatura um ano antes.
Estou a lê-lo agora, esse livro primordial, escrito na Argélia, nas mais lamentáveis, porque duras, condições de vida. Tinha na altura vinte de dois anos. O texto é um hino à dignidade, o apelo à pobreza sem ressentimentos; filho de pais analfabetos, em breve órfão, foi a vida de privações que o ensinou a dor de não saber possuir, a graça de fruir em plenitude o que não se goza quando começa o excesso de bens.
«Não há amor de viver sem desespero de viver», escreveu nestes ensaios que parecem uma reportagem sobre o que esquecemos da vida, as noites silenciosas, os labirintos do ser, as existências densas mesmo quando silenciosas.
O primeiro chama-se A Ironia. Estão nele três destinos diferentes e no entanto semelhantes, sentidos dolorosamente, sob o sol, naquela pátria tranquila. Num deles, vivendo «um medo ácido e doloroso», a velha mulher «acreditava que o amor é uma coisa que se exige».
Albert Camus sabia que o ofício de escritor era trabalho de vaidade. Nos salões de Tout-Paris faziam-se desfaziam-se carreiras, géneros, génios. Ao discursar ante a Academia sueca diria: «L'art n'est pas à mes yeux une réjouissance solitaire. Is est un moyen d' émouvoir le plus grand nombre d'hommes en leur offrant une image priviligiée des souffrances et de joies communes».
Conseguiu-o para muitos da minha geração. A sua escrita não erode com o tempo. Senti-o agora, também para mim quarenta anos depois.

Cisne, de Luis González-Mata Lledó

Por causa de um livro que traduzo estou a ler muitos outros. Já tinha lido este em diagonal. Agora faço-o com pormenor. É a sua autobiografia. «Cisne» é o nome de código quando trabalhou como agente secreto para o SIM espanhol. Daí que o livro ostente como sub-título «Un espia de Franco».
Esta histórias sobre espiões correm o risco de serem ridículas. No caso são esclarecedoras. Luis fez da sua amoralidade carreira, da sua ambição, sucesso. Esteve na Legião Espanhola, de Millán Astray, heróica e controversa figura, mutilado de guerra, a quem credita a frase gritada no desfile da Vitória: «Franco, hijo de puta! Contempla a nuestros hijos y admiralos! Franco sonrió». Por supuesto, claro. O mesmo Astray que no confronto com Unamuno lançaria o «Muera la inteligencia! Viva la muerte!». Foi em 12 de Outubro de 1936.
Nos anos sessenta González-Mata infiltrar-se-ia no DRIL de "Sotomayor", Velo Mosquera, Henrique Galvão e Humberto Delgado, movimento que estaria na génese do assalto ao paquete Santa Maria, da Companhia Colonial de Navegação. Investigaria a morte deste, elaborando um relatório que embaraçaria os portugueses depois das polémicas declarações de Franco Nogueira sobre a autoria do caso, vista a localização do cadáver em Malos Pasos.
Neste momento vou na página 54. Rafael Leónidas Trujillo, o ditador que governou Santo Domingo entre 1939 e 1961 pergunta-lhe qual a razão pela qual aceitou ter como destino o seu país. «Cisne» responde sem hesitar: «Confío encontrar em Santo Domingo las satisfaciones y la vida que mi país ne ha negado hasta la fecha». Sinceridade lucrativa. De todos os que Espanha enviara como ajuda para a organização dos serviços militares e de segurança da República Dominicana ele foi o que singrou. Tempos depois organizavam juntar a invasão de Cuba, com o apoio dos serviços secretos alemães, da CIA e vinte e dois milhões de dólares do Presidente deposto Fulgencio Baptista. Vou precisamente aí. São 392 páginas, mais índices. Ainda há muito para ler.

Le Chat, de Georges Simenon


Li ontem Le Chat de Georges Simenon. Numa edição portuguesa, que era a que havia aqui em casa, oferecida, de 1967, traduzida por António Barahona da Fonseca, com capa de António Cândido.
É uma história dolorosa de um casal que fez do silêncio a melhor expressão para o seu mútuo ressentimento, para o ódio rancoroso, para a indiferença, filhos da impossibilidade. «Ambos se sentiam vítimas e se consideravam mutuamente como monstros». Andando pelos sessenta anos «ainda não sabiam a que velocidade iam envelhecer». Só que foi tudo muito rápido, mataram-se fazendo da vida tristeza. Compartilhavam, forçados, o mesmo espaço, o mesmo quarto, a mesma cozinha, lugares onde separavam os corpos, fugiam do encontro dos olhares, evitavam a proximidade das almas, de tal modo «se ignoravam com tanta perfeição». Comunicavam por bilhetinhos.
Um dia ela, por malvadez, ter-lhe-á envenenado o gato, ele, vingativo, matou-lhe o papagaio. «Um vulgar gato de telhado - afirmava ela no tempo em que ainda se falavam para iniciar uma discussão».
Vida esvaziada, ambos tinham tido anteriores casamentos, o dele feliz, com Angèle, feito de risos de uma «alegria ruidosa», de beijos e passeios, mas Marguerite agora «insensibilizara-se logo ao primeiro contacto físico e as duas camas eram o símbolo da sua união fracassada».
Um dia ele saiu de casa. Havia Nelly, de peito roliço, que se dava, rápida, aos homens que queria, na cozinha da pequena tasca, de nádegas alçadas, virada para não lhes ver a cara. Uma vez ele também ali foi, usá-la, e daí em diante tantas vezes, quantas quis, ela a notar que «não és dos que ficam tristes depois de fazer amor».
Deixei por ler quatro folhas de Le Chat. Acabei-as agora mesmo. A narrativa termina com o perceptível: Émile Bouin regressa a casa, incapaz de suportar a dor da mulher deixada.
É impossível não recordar a vida familiar do próprio Simenon, desgraçada, dorida, a usar da vida «o estritamente necessário». «J' ai été marié deux fois. Je vis avec une troisième femme. Mas il ne me viendrait pas à l'esprit de les mélanger dans mes souvenirs». Assim quase termina a Letre a ma mère que ele escreveria, com setenta anos. Émile, porém, «acabava por se zangar, por metê-las todas no mesmo saco, por considerá-las inimigas», Angèle, Marguerite, Nelly. Esta «conhecia os homens, Se se entendia com eles era porque não lhes pedia mais do que podiam dar». Mesmo assim. Uma tristeza. A história de como se assassina o amor. Livros de excepção.

Obra Poética, de Jorge Luís Borges

Encontrei hoje, numa livraria aqui perto, o volume primeiro da Obra Poética do Jorge Luís Borges, que a Alianza Editorial vem editando. Como tudo o que ele escreve é pequeno em extensão e, por isso, enormemente magnífico em profundidade em sentido e significado. Fica aqui o texto por não poder ficar a impressão da dedicatória com que guarneceu o livro Fervor de Buenos Aires, editado em 1923: «Si las páginas de este libro consienten algún verso feliz, perdóneme el lector la descortesía de haberlo usurpado yo, previamente. Nuestras nadas poco diferen; es trivial y fortuita la circunstancia de que seas tú lector de estos ejercícios, y yo su redactor»

O início de uma vida

Quando cheguei a Lisboa estava a chover, na rua e na minha alma. Para trás ficara muito de uma vida, das várias que seria possível ter vivido. Inicio agora. Aquartelei-me nesta casa. O propósito ser editor. Aqui perto morou o Mircea Eliade. Este blog guarda reflexões pessoais, enquanto leitor.
 
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